
A presença massiva de mulheres na Expodireto é um recado visível de que o agronegócio, hoje, já não é mais um campo dominado por homens. Desde aquelas que realizam sua produção em casa, até aquelas que operam tecnologias de ponta, a pluralidade de funções reflete a singularidade de cada uma.
Há 23 anos, Marizete Fátima Garbin, de 53, produz biscoitos na agroindústria que fundou com a filha, na cozinha de casa. O trabalho, que era feito manualmente, aos poucos foi profissionalizado com o auxílio da Emater:
— Nós começamos com biscoitos de manteiga e milho e o pessoal foi pedindo biscoitos diferentes. Hoje nós também entregamos produtos sem glúten e sem lactose, a gente vai trabalhando para suprir as necessidades do consumidor.
Enquanto moradora da zona rural de Passo Fundo, ela conta que as dificuldades ainda são presentes. Apesar das mulheres comandarem 31% das propriedades rurais do país, conforme dado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produtora conta que muitas mulheres, também do interior, costumam relatar a ela casos de agressão dentro de casa.
— A gente não acredita que, em 2023, certas coisas acontecem. Tem aquela mulher que ainda apanha, que é submissa, e são histórias muito tristes. Às vezes, esquecemos o real significado de luta do Dia da Mulher — reflete Marizete.
No controle dos drones
Sobre a aceitação das mulheres no campo, Isabela Junges Rosa, de 25 anos, engenheira agrônoma e coordenadora de aviação agrícola, relata que ainda sente resistência por parte dos produtores rurais pelo fato de ser uma mulher no meio agro:
- A gente vê mudanças, mas dá para perceber que o tratamento é diferente quando eu atendo esses produtores e quando um colega homem atende.

Isabela faz a coordenação de eventos na empresa em que trabalha, e sua paixão são os drones e a possibilidade de aproximar cada vez mais essa tecnologia do produtor rural.
— É um desafio hoje desmistificar e entregar a informação de maneira leve, clara e simples para o produtor rural. O equipamento requer treinamento, mas não é difícil e facilita muito a operação de pulverização — destaca ela.
Mulheres nas redes
A produtora rural e médica veterinária de São Francisco de Assis, Tainara Gripa, decidiu recentemente que seu Instagram não seria mais privado.
— Eu sempre gostei de compartilhar minha lida no campo, na parte da pecuária e pilotando máquinas na lavoura, então decidi mostrar isso e a ideia é incentivar ainda mais mulheres a perceber que somos capazes — pontua.
Com fotos e vídeos do trabalho, que desenvolve junto ao pai em sua propriedade rural, Tainara destaca que a força e resiliência na atividade que desenvolve inspira outras mulheres:
— Muitas vezes as pessoas não veem da porteira para dentro o que acontece, que não temos nem dia e nem hora quando o assunto é plantar, por exemplo.

Ao liderar propriedades, as mulheres tornam-se espelho para outras, que sentem-se desencorajadas a alçar a ocupações desafiadoras pela falta de representatividade. Em uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA), 62% das mulheres responderam que o baixo número do público feminino em cargos de direção é o que as leva a não buscar a liderança.
Além disso, quando questionadas onde estão os maiores desafios e preconceitos, 48% delas responderam se concentrar nos gestores e líderes, e para 38%, o problema está nos próprios colegas de trabalho do gênero masculino.
