Atualização: o curso que seria ministrado por Regina Navarro Lins foi cancelado no final da tarde desta terça-feira (25).
Nos últimos cinco meses, muito tem se discutido sobre como a pandemia afeta os relacionamentos amorosos - sobretudo de quem está casado e convivendo 24 horas por dia em casa. Na prática, o que se sabe é que, sim, as brigas aumentaram em muitos lares. Não, necessariamente, por conta do casamento: inclua na conta a ansiedade pela falta de grana, o estresse do trabalho (em home office!), as tarefas domésticas que se acumulam e diversos outros fatores que os casais (agora) conhecem bem.

Mas, afinal, como encontrar uma saída para conviver bem a dois - ainda mais neste momento completamente atípico? É justamente esse o tema do curso O Amor em Tempos de Isolamento, que a psicanalista e escritora Regina Navarro Lins ministrará a convite do Instituto Ling, de Porto Alegre. Autora do best-seller A Cama na Varanda, a carioca irá debater os relacionamentos amorosos em três encontros, que ocorrem em três quartas-feiras a partir de amanhã (26).
Para adiantar alguns dos tópicos que serão tema no workshop, Donna bateu um papo com a psicanalista, conhecida por falar de forma franca e sincera sobre tudo o que envolve as relações amorosas no programa Amor & Sexo, que foi ao ar por 11 temporadas na TV Globo.
Precisa de um respiro?
Seja no consultório ou nas lives semanais que comanda em seu perfil do Instagram, que reúne mais de 75 mil pessoas, Regina conta que uma das queixas mais comuns que recebe é sobre a sensação de sufocamento nas relações. Antes da pandemia, essa percepção se diluía graças convívio com outras pessoas ao longo do dia: você saía de casa, almoçava com os colegas de escritório, aproveitava o happy hour. Nos finais de semana, rolava aquele almoço na casa dos pais, ou o churrasco com os amigos.
— Muita gente está se sentindo sufocada. Agora, são 24 horas por dia juntos, sete dias por semana — exemplifica. — Elas dizem: "Não posso estar no celular que ele pergunta com quem estou falando, ou se vou demorar no computador". Não estão acostumadas com isso.
Para a psicanalista, o convívio forçado por tantas horas ao dia, há meses - e sem data para voltar ao normal - faz com que os casais "descubram" características um no outro que, talvez, em um contexto habitual, estivessem "disfarçadas". É uma situação semelhante, por exemplo, quando você marca de viajar com aquela sua amiga de infância, que é divertida sempre que vocês se encontram - uma vez ao mês. Aí, vocês decidem passar três semanas juntas na Europa e, para economizar, dividem até o quarto. As diferenças, as manias e as características de personalidade incompatíveis com a sua, que talvez você jamais percebesse no happy hour mensal, transparecem. Algo parecido, em certa medida, acontece nos relacionamentos em meio à pandemia, compara Regina:
— Quando você volta para o Brasil, acaba a amizade — diz. — Já vi muitos casos assim. Você acaba entrando em contato com aspectos da personalidade que nem sabia que existiam. Para muitos casais, se não houvesse a pandemia e a obrigação do contato 24 horas por dia, não perceberiam tanto os aspectos de insegurança, de controle do companheiro (a).
Foco na individualidade
Muitos conflitos dentro de casa acontecem, explica a psicanalista, porque não há respeito à individualidade do outro em uma relação. Isso motiva brigas em um contexto habitual - e, com a pandemia, o convívio forçado só acentua.
— Na nossa cultura, não se ensina o respeito à individualidade do outro. Em um casamento, as pessoas se metem na vida do outro com a maior naturalidade — pontua. — Isso está deixando as pessoas transtornadas.
É por isso que aquele momento com você mesma é tão importante, mesmo em um contexto completamente atípico como a da pandemia. Mas é fundamental, também, respeitar e entender as necessidades da outra metade do casal: nem sempre vocês vão querer assistir ao mesmo filme juntos, e está tudo bem.
Para a psicanalista, o ideal do amor romântico - e o modelo que criamos de casamento e de relacionamento - faz com que, muitas vezes, a gente ultrapasse limites que podem não fazer tanta diferença hoje, mas que, somatizados, talvez virem motivo de briga lá na frente.
— As pessoas definem até que roupa o outro tem que botar, e isso é encarado como algo natural. Esse é o problema. Uma pessoa já casa achando que é natural se meter completamente na vida do outro — sentencia. — Acredito que uma relação vá funcionar bem somente se houver total liberdade ao direito de ir e vir, (respeito) às ideias, ao jeito do outro ser, ao comportamento. À necessidade das pessoas terem amigos em separado, programas independentes. Tem a ver com não ter controle algum da vida do outro. É difícil as pessoas aceitarem isso, mas é fundamental para uma relação satisfatória.
Aprendendo a conviver
Há quem ache que o ciúme pode ser encarado como prova de amor. E que a presença constante é sinal de carinho pelo parceiro (a). Para Regina, aprender a respeitar a individualidade do outro passa, também, por entender como você deveria se comportar dentro de um relacionamento:
Na nossa cultura, não se ensina o respeito à individualidade. Em um casamento, as pessoas se metem na vida do outro com a maior naturalidade.
REGINA NAVARRO LINS
psicanalista e escritora
— O sentimento amoroso é natural. Agora, o comportamento amoroso tem que ser aprendido — afirma.
Mudar o modus operandi de sua relação provavelmente não será uma tarefa simples, a psicanalista adianta. Para um dos problemas mais comuns, os pequenos conflitos do dia a dia que a gente deixa passar, a dica é sentar e conversar, antes que vire uma bola de neve.
— Para as pessoas que estão se sentindo sufocadas, tem pegar o parceiro pela mão e dizer: “Vem cá, vamos conversar. Isso vai fazer com que acabe a nossa relação. Você quer isso? Vamos tentar aquilo?” — sugere.
Criar novos limites, deixar claro o que te incomoda e ouvir também as reclamações da outra parte são exercícios que podem ser doloridos, mas prometem se revelar eficazes. Depois da conversa, o (a) parceiro (a) seguiu repetindo aquilo que você já avisou que não gostava? Criem um código de vocês, um “apito” que sinalize que ultrapassou a linha, ensina Regina:
— É um treinamento. Precisa se empenhar nisso, porque abandonar um hábito não é algo simples — pontua.
Deu briga, e agora?
Por mais diálogo que haja, vez ou outra os ânimos podem se exaltar. Mas, antes de partir para a DR ou deixar as emoções aflorarem, pare e pense: afinal, estamos nessa briga somente pelo motivo que foi o estopim? Ou há algo mal resolvido por trás? Em seus 46 anos atendendo casais no consultório, a psicanalista atesta que o mais comum é que o conflito seja um somatório de pequenos problemas - que explodiram quando ele derrubou aquele copo d’água no chão e não limpou, por exemplo.
— Em brigas de casal, é comum você perguntar e nenhum deles saber o motivo exato. Na maioria das vezes, é por motivos inconscientes: um rancor, uma mágoa, que vão saindo do controle — conta.
Antes de levantar a voz, respire e reflita (quando der tempo pra isso!), sugere Regina:
— Muitas vezes, a briga é por coisas que estão guardadas. E é importante conversar sobre isso — reitera.
Workshop: O amor em tempos de isolamento
- Quando: Ocorre nos dias 26 de agosto, 2 e 9 de setembro
- Horário: Das 19h às 20h30min
- Inscrições: R$ 299 pelo site institutoling.org.br
- Duração total: 4h30min
Agenda do curso
- 26/08 - "O casal 24 horas por dia"
- 02/09 - "Sexualidade enclausurada: sem par amoroso ou a distância física da pessoa amada"
- 09/09 - "O fim do amor romântico e as novas formas de amar"



