
Músicos, atores, diretores, escritores e intelectuais realizaram uma rara reunião na noite desta segunda-feira em Porto Alegre. Eram mais de 80 artistas revezando o protagonismo nos palcos do Centro Municipal de Cultura, mas também aplaudindo os colegas. O motivo para a integração é o clima de incerteza sobre o futuro das emissoras TVE e FM Cultura, vinculadas à Fundação Piratini, que está em processo de extinção. O ato também atraiu centenas de espectadores, que lotaram as dependências do local, como o Teatro Renascença e a Sala Álvaro Moreyra.
A noite foi iniciada com a Orquestra Villa Lobos, que contou como a participação de Nelson Coelho de Castro.
– Nossa relação de estar ereto com a cultura é o que nos cabe, como função de civilidade, de manter a cultura da cidade, por mais que muitas pessoas queiram que só restem aqui farmácias e supermercados – afirmou Nelson, antes de se despedir do público.
Renato Borghetti, Bebeto Alves, Marcelo Delacroix, Marmota, Ian Ramil e Arthur de Faria eram mais algumas das atrações previstas para a noite. Deborah Finocchiaro executou a primeira leitura do "Manifesto Salve Salve", documento escrito "em defesa da TVE, FM Cultura e fundações estaduais".
– Realizamos neste dia um ato de ocupação simbólica do Centro Municipal de Cultura Porto Alegre para expressar nosso descontentamento com a desestruturação da comunicação pública do estado do Rio Grande do Sul – diz um um trecho do manifesto, escrito coletivamente por membros da classe artística.

Em 30 de maio, o governo estadual decretou a extinção da Fundação Piratini, colocando a administração da TVE e da FM Cultura sob comando da Secretaria de Comunicação (Secom). O CNPJ da fundação, presidida por Orestes de Andrade Jr., ainda não foi encerrado.
– Falta dar a baixa no CNPJ, que é uma questão bem burocrática, mas a fundação já foi extinta – diz Andrade Jr. – Até brinquei que o Rubens Barrichello seria o mestre de cerimônias (da reunião de artistas desta segunda-feira), porque essa ação está um pouco atrasada. Faz 30 dias que a Fundação Piratini foi extinta – diz Andrade Jr.
Segundo Andrade Jr., TVE e FM Cultura não correm risco de fechamento. A Secom manteria as atividades das emissoras:
– Apesar de alguns servidores dizerem que estamos acabando com as emissoras, isso é mentira. Havia um inchaço. Tínhamos 250 servidores quando chegamos aqui. O governo anterior tinha 50 CCs. Hoje temos seis CCs e 165 servidores, e os serviços estão sendo realizado sem qualquer problema. O que vamos fazer é mudar a gestão, mas as duas emissoras não correm qualquer risco.
Para Leandro Maia, um dos organizadores da ação desta segunda-feira, as emissoras correm, sim, o risco de extinção:
– As outorgas do Ministério da Cultura para TVE e FM Cultura são vinculadas ao CNPJ da Fundação Piratini. Então, quando termina o CNPJ, termina também a outorga. Não há continuidade das emissoras sem continuidade da fundação.
Um projeto para o futuro da TVE e da FM Cultura já foi aprovado pelo governador José Ivo Sartori em reunião, no Palácio Piratini, com o chefe da Casa Civil, Cleber Benvegnú, e a secretária de Comunicação, Isara Marques. O documento agora está sob análise final na Procuradoria-Geral do Estado (PGE), e não pode ser lido pelo público.

– Como o projeto está em análise jurídica, ainda não anunciamos os detalhes desse novo modelo de gestão, mas as duas emissoras continuam – assegura Andrade Jr.
Os artistas temem que, mesmo com a continuidade das emissoras, as novas programações as descaracterizem.
– Na Secom, TVE e FM Cultura deixam de ter seu caráter público para se tornarem emissoras de um governo – avalia Simone Rasslan.
Andrade Jr. afirma o contrário:
– TVE e FM Cultura nunca foram emissoras públicas. Sempre formam emissoras tuteladas à vontade dos governos. Queremos mudar isso. Nosso projeto de futuro tira essa mão do Estado, reduz custos e realmente as tornam públicas.
Simone Rasslan afirma que os artistas continuarão engajados para que a Fundação Piratini não deixe de existir:
– Extinguir uma fundação não é um processo fácil. E tem muita gente que não vai deixar. Há tantos músicos e artistas aqui reunidos porque a TVE e FM Cultura não são apenas emissoras públicas, mas foram parceiras na carreira de todos nós.


