
Em dias de calor, quem vive nas cidades é obrigado a buscar refúgio em redutos de áreas verdes. No caso de Porto Alegre, não é de hoje que os jardins de inspiração francesa da Hidráulica Moinhos de Vento, na Rua 24 de Outubro, constituem um dos locais preferidos de lazer da população, ainda mais nos meses do verão. É um espaço de seis hectares, localizado em um ponto privilegiado da Capital, que – além de oferecer contato próximo à natureza – respira história e arquitetura.
Não por coincidência, a abertura da estação de tratamento do Dmae, que hoje abastece cerca de 40 bairros, foi decisiva para a mudança de perfil do bairro Moinhos de Vento, no século passado. A bem da verdade, as origens da hidráulica remontam a 1891, quando começou a operar a Companhia Hydráulica Guaybense (na grafia da época), uma das primeiras empresas a receber autorização para explorar os serviços de abastecimento de água em Porto Alegre. A princípio, a companhia captava a água junto à Praia de Belas. Em 1899, foi construído um reservatório com capacidade para abastecer 90 mil pessoas nos altos do Moinhos de Vento, àquela altura uma região campestre, onde pontuavam chácaras de veraneio das classes abastadas.
No começo do século 20, a Guaybense foi incorporada pela municipalidade, durante a gestão do intendente José Montaury. Com a estatização, ganhou o burocrático nome de Seção de Abastecimento e Água, mas, já naquele tempo, todo mundo chamava de Caixa D’Água e gostava de visitar o local com seus tanques e palmeiras. O salto de qualidade veio nos anos 1920, com a modernização das instalações a cargo da empresa norte-americana Ulen & Company. “O projeto arquitetônico de Cristiano de La Paix Gelbert e a edificação de Theo Wiedersphan eram uma mescla de técnica e arte, na qual as casas de filtro e os reservatórios de água se harmonizavam no interior de ampla área verde”, anota
Carlos Augusto Bisson, no livro Moinhos de Vento – Histórias de um Bairro de Porto Alegre (Editora da Cidade, 2009). Gelbert idealizou também o pórtico de entrada e os jardins com canteiros, escadarias, taludes e estátuas.

Inaugurada em 1928, a Hidráulica Moinhos de Vento (como passou a ser denominada) dotou Porto Alegre de um moderno sistema de abastecimento de água potável, além de proporcionar à população um espaço cercado e ajardinado para o lazer, como registram Rodrigo Potosi e Vlademir Roman no Guia de Arquitetura de Porto Alegre (Escritos Editora, 2016).
Em seguida, várias ruas foram abertas no entorno e, aos poucos, o bairro Moinhos de Vento se transformou em uma das regiões mais valorizadas da cidade. Há que se considerar ainda que, nas cercanias, havia um dos 10 postos de gasolina dotados de telefone na Porto Alegre do final dos anos 1920. Ali perto, ficavam também as antenas da única emissora de rádio da Capital à época, a Rádio Sociedade Gaúcha (atual Rádio Gaúcha).
Nos jardins da hidráulica, estão acomodadas as estátuas que representam os rios formadores do Lago Guaíba, peças remanescentes do antigo chafariz instalado na Praça da Matriz em 1867. Além disso, para lá foram transferidos os bancos de concreto e madeira que faziam parte do velho Auditório Araújo Vianna, sala de espetáculos que, até 1958, estava situada onde hoje é a Assembleia Legislativa do Estado. Em 1986, foi aberto o Centro Histórico-Cultural Antônio Klinger Filho, mais conhecido como Galeria de Arte do Dmae, com exposições de arte contemporânea, saraus e palestras, entre outras atividades culturais e educativas.


