
Ter planos, projetos, anotações de compromissos na agenda. Saber o que fazer com o tempo livre na terceira idade é imprescindível, inclusive para manter a saúde física e mental.
A fisioterapeuta Cristina Cristovão Ribeiro, doutora em Gerontologia, é autora e organizadora do livro Propósito de Vida da Pessoa Idosa (Summus Editorial, 224 páginas, R$ 96,70), concebido em parceria com profissionais de outras especialidades. Em um contexto em que, frequentemente, a pessoa se sente ociosa e improdutiva, estabelecer e manter um propósito é uma iniciativa que traz inúmeros benefícios.
— Melhora a adesão a cuidados com a saúde, prevenção e até tratamento de doenças, melhora das questões cognitivas, melhora da parte física. Ter um objetivo, metas, faz com que a pessoa se preserve mais. Ela vai querer viver mais e com qualidade para atingir aquele objetivo — comenta Cristina.
Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida a Zero Hora.
Qual a importância de ter um propósito de vida na terceira idade?
A importância é enorme porque, nessa fase de vida, muitas vezes, a pessoa tem mais tempo, menos ocupações, está aposentada e pode se sentir sem um papel social que antes tinha. Acaba se sentindo mais ociosa, menos produtiva. Isso pode levar até a uma depressão, é muito sério. A importância de ter propósito é se sentir útil, motivado, começar a ver possibilidades para essa fase. Hoje, viver até os 90 anos não é um grande desafio. É mais comum. A ideia não é prolongar a vida, viver mais, e sim viver mais com qualidade. A presença de propósito traz muitos benefícios: melhora a adesão a cuidados com a saúde, prevenção e até tratamento de doenças, melhora das questões cognitivas, melhora da parte física. Ter um objetivo, metas, faz com que a pessoa se preserve mais. Ela vai querer viver mais e com qualidade para atingir aquele objetivo. Se quero muito viajar, isso vai exigir de mim uma melhora nas questões físicas, estudar aquele lugar aonde vou, esses são benefícios físicos e cognitivos.
Muitos idosos sofrem com a aposentadoria e a falta do que fazer. Como prevenir e tratar isso?
Existe muita idealização da aposentadoria: “Não vejo a hora de me aposentar”, "não quero ter horário”, “não quero mais trabalhar”. A expectativa vai aumentando cada vez mais, sem que se pense no preparo, e isso é uma coisa muito séria. Se a pessoa dedicou 30, 40 horas por semana ao trabalho, ela pode até ficar os primeiros meses ou anos de aposentadoria sem horário, sem compromisso, mas vai chegar a hora em que vai se deparar com o “e agora, o que vou fazer?”. Aquela rotina organizada e orientada pelo trabalho não existe mais, e ela acaba se sentindo improdutiva. É muito comum encontrar pessoas que dizem “quando eu trabalhava, era muito mais produtivo”, “agora que tenho tempo fico me enrolando”, “me sinto sem fazer nada”. É muito séria a questão do preparo para essa fase. Precisamos falar mais sobre o preparo para a aposentadoria. Ainda quer trabalhar depois de se aposentar? Vai trabalhar com o quê? Quando vamos viajar, temos que nos preparar para essa viagem. Temos que pensar a velhice como uma viagem, um destino: o que vou encontrar? Preciso ter uma reserva financeira. Vai se dedicar a alguma outra atividade? Trabalho voluntário? Senão a pessoa pode se deprimir. As pessoas são muito imediatistas, mas isso é para ser pensado desde jovem, quando se tem força e vitalidade. Começa a guardar dinheiro, faz uma previdência privada, tenta ter uma reserva. A pandemia mostrou a importância de se ter uma reserva. Na velhice se gasta muito mais, com médico, com remédio.
Gosto muito de dizer que sonhos não envelhecem. Carrego essa frase comigo. Às vezes, a pessoa tinha um desejo, um sonho que nunca conseguiu realizar, e agora pode ser o momento. Pode ser um sonho que precise ser adaptado de acordo com as condições atuais.
Na prática, como a vida pode ser melhor na terceira idade?
Gosto muito de dizer que sonhos não envelhecem. Carrego essa frase comigo. Às vezes, a pessoa tinha um desejo, um sonho que nunca conseguiu realizar, e agora pode ser o momento. Pode ser um sonho que precise ser adaptado de acordo com as condições atuais. Tem que pensar em uma vida equilibrada. Quanto você está investindo no cuidado com o corpo? Se nunca fez exercício físico, por que não começar? Nunca é tarde demais, quanto antes melhor. Se a pessoa não começou aos 50, começa aos 60, se não começou aos 60, começa aos 70. Ainda tem benefícios. É importante também o cognitivo. Exercitar, desafiar o cérebro. Pensar nas questões sociais: como estão os relacionamentos? Não depender só da família, pensar em grupos na comunidade. Tem atividades gratuitas, universidade aberta para a terceira idade. Pense no que gosta. Não podemos padronizar as orientações: todo mundo vai para o baile da terceira idade. Não. Se a pessoa nunca gostou de baile, não é agora que vai. Fazer trabalho manual? Não, pode não ter nada a ver. Tem que analisar o seu perfil e encontrar alguma coisa.
O que o idoso pode fazer por si e o que os familiares podem fazer por ele?
Família, amigos, cuidadores têm que estimular o idoso para que tenha brilho nos olhos. É muito comum pensar que a pessoa está envelhecendo e ficando mais triste, acanhada, “é normal da idade”. Não é normal da idade. Não é normal envelhecer e ficar triste. Ela sempre foi mais acanhada, introspectiva? Isso está piorando? O que está acontecendo? Isso exige autoconhecimento, mas o familiar pode ajudar apontando algumas coisas. Se a pessoa se vê diferente, “eu não era assim”, “tinha coisas que eu gostava e não gosto mais”, tem que procurar ajuda. Não é normal sentir coisas que antes não sentia. Tem que fazer uma avaliação com um profissional especialista em geriatria e gerontologia. Tem que estimular o que essa pessoa gosta de fazer, ver quais são as suas motivações, tentar estar mais presente, facilitar, levar junto. "Vamos lá, vou lá com você, vou te acompanhar.” Apresente possibilidades. Família, amigos, cuidadores têm que ser interessados em mostrar possibilidades para a pessoa idosa.
Você diz que mesmo pequenas mudanças comportamentais podem ser decisivas. De que mudanças fala?
Uma pequena mudança pode ser o uso de uma agenda ou de uma folha para organizar a rotina. Listar tarefas. Pegar uma folha e dividir em manhã, tarde e noite, de segunda a domingo. Que horas acorda, que horas dorme, que horas será o exercício físico, que horas será a leitura, a caminhada. Às vezes a pessoa quer fazer um monte de coisas e não coloca no papel, aí não tem como dimensionar aquilo na vida dela. Por onde começo? Tentando organizar a rotina. Ginástica, sair de casa, convívio com os amigos. A pessoa vai pensar: “Olha, que legal, estou me sentindo mais produtivo”. Aí começa a incluir outras atividades, vai incrementando essa agenda. A rotina é importante. A gente acha que ter uma rotina ou uma agenda vai nos prender, mas a agenda e a rotina nos organizam. A gente sabe que aquele horário é para aquilo, aquele outro é para determinada atividade. Senão você não faz nada. Hoje, como tem a questão das mídias sociais, a pessoa fica envolvida nisso, o tempo voa, “nossa, passou o dia e não fiz nada”.



