
Filósofo, escritor e colunista, o gaúcho Denis Rosenfield une, na sua trajetória, dois atributos raramente encontrados em uma mesma pessoa: profundidade teórica multidisciplinar e apurada capacidade de trânsito e análise nas arenas onde se desenrola o jogo do poder. Rosenfield está lançando seu décimo primeiro livro, “Jerusalém, Atenas e Auschwitz, pensar a existência do mal”. São 575 páginas que versam, de acordo com o autor, “sobre o medo e sua libertação”, com uma abordagem alternativa a intelectuais que já se debruçaram sobre o tema, como Hannah Arendt.
1. No livro, abordas a origem de conceitos totalitários ligados ao nazismo, como a simplificação “amigo e inimigo” para rotular os atores da cena política. Usas esses mesmos conceitos em teus artigos para explicar o Brasil de hoje. O que deveríamos ter aprendido com o passado?
Deveríamos ter aprendido a prezar os princípios democráticos e a não repetir experiências históricas baseadas no conflito incessante. O resultado disso é a destruição das instituições democráticas e, como consequência, a perda das liberdades.
2. Para explicar a gênese dos regimes autoritários e totalitários utilizas, no livro, o termo “Liberdade voltada para o mal”. Não há uma contradição intrínseca nesse conceito?
Não há contradição. Em geral, se teoriza o conceito de liberdade como se ela estivesse naturalmente voltada para o bem, sendo o mal a falta desse bem. Escolhi outro caminho: o mal tem existência própria e pode ser objeto de escolha. O princípio da liberdade contempla também a opção pelo mal. Portanto, a liberdade tem que ser racionalmente regrada, o que significa, do ponto de vista político, a existência de instituições democráticas. A liberdade não é a possibilidade de tudo fazer. O presidente da República, por exemplo, tem que obedecer à Constituição e às instituições. Sem isso, o arbítrio da liberdade pode destruir as liberdades.



