
Por coincidência, no dia em que obras sobre racismo devem se destacar no anúncio das indicações ao Oscar, a Tela Quente exibe um filme estrelado pela única negra vencedora do prêmio de melhor atriz. É Halle Berry, protagonista de O Sequestro (Kidnap, 2017), em cartaz a partir das 23h55min desta segunda-feira (15) na RBS TV.
A solitária estatueta foi entregue há quase 20 anos. Halle ganhou pelo papel em A Última Ceia (Monster's Ball, 2001), de Marc Forster. Era a viúva de um bandido que acaba se envolvendo com o carcereiro racista (Billy Bob Thornton) do marido.
Para a comunidade afro-americana, aquela foi uma noite histórica da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood: em cerimônia comandada por Whoopi Goldberg, Sidney Poitier recebeu um Oscar honorário; Denzel Washington, de Um Dia de Treinamento, foi o segundo negro eleito o melhor ator, quase 40 anos após Poitier ganhar por Uma Voz nas Sombras (1963); e Halle conquistou o que, até hoje, outras 11 atrizes negras tentaram.

A pioneira foi Dorothy Dandridge, a quem a própria Halle Berry interpretou em um filme (Dorothy Dandridge: O Brilho de uma Estrela, de 1999) que lhe valeu o Emmy e o Globo de Ouro. Dorothy Dandridge concorreu pelo musical Carmen Jones (1954), versão ambientada na Segunda Guerra Mundial da clássica história sobre uma cigana espanhola. Empregada de uma fábrica de para-quedas, Carmen é desejada por todos, mas deseja apenas um: o soldado Joe (o ator e cantor Harry Belafonte). A atriz viu o Oscar ir para Grace Kelly (Amar É Sofrer). Loiras como a futura princesa de Mônaco, Marilyn Monroe e Veronica Lake ditavam o padrão de beleza da época.
Fora de cena, o racismo era mais desvelado. Cantora e entertainer, Dorothy era proibida de se hospedar em hotéis nos quais apresentava seu show. Com uma vida marcada por decepções amorosas, engodos financeiros e dramas familiares (sua única filha ficou sem oxigênio no parto e acabou confinada em um hospital psiquiátrico), morreu de uma overdose de antidepressivos, em 1965. Tinha 42 anos.
Depois de Dorothy, vieram as indicações para Diana Ross (O Ocaso de uma Estrela, 1972), Cicely Tyson (Lágrimas de Esperança, 1972), Diahann Carroll (Claudine, 1974), Whoopi Goldberg (A Cor Púrpura, 1985) e Angela Bassett (Tina: A Verdadeira História de Tina Turner, 1993). Depois de Halle, concorreram Gabourey Sidibe (Preciosa, 2009), Viola Davis (Histórias Cruzadas, 2011), Quevenzhané Wallis (Indomável Sonhadora, 2012), Ruth Negga (Loving, 2016) e Cynthia Erivo (Harriet, 2019).
Recentemente, Halle Berry, hoje com 56 anos, considerou como de "partir o coração" o fato de ainda ser a única artista negra premiada com o Oscar de melhor atriz. Um troféu que tampouco foi um divisor de águas na carreira de Halle. Por um lado, ela teve alguns sucessos comerciais, como a mutante Tempestade nos filmes da franquia X-Men, a espiã Jinx em 007: Um Novo Dia para Morrer (2002) e a Sofia de John Wick 3: Parabellum (2019), com seus cachorros supertreinados. Por outro, nunca mais disputou o Oscar e até "ganhou" um Framboesa de Ouro pelo fiasco Mulher-Gato (2004). Demonstrando fibra, a estrela tornou-se a primeira atriz a receber pessoalmente o troféu de galhofa criado por um jornalista de Hollywood.
No filme da Tela Quente, Halle interpreta Karla Dyson, garçonete de uma lanchonete e mãe dedicada do pequeno Frankie (Sage Correa). Um dia, ao atender o telefone em um parque, ela descobre que o garoto simplesmente desapareceu. Ao vê-lo sendo colocado dentro de um carro, Karla parte em uma busca desesperada. A direção de O Sequestro é do espanhol Luis Prieto, o mesmo de Pusher (2012), refilmagem da obra homônima do dinamarquês Nicolas Winding Refn.




