
Quando relações entre dois países se deterioram, chegando a ponto de se fechar fronteiras, qualquer fato isolado, fora do controle — uma escaramuça, um tiro para o alto, uma morte — tem potencial para abrir a caixa de Pandora.
Salvo exceções, conflitos raramente começam com um grande acontecimento: o estopim da I Guerra Mundial não foi uma invasão, mas o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando. Mais recentemente, a Primavera Árabe que derrubaria, um a um, os ditadores de Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen, teve início com a imolação de um simples jovem vendedor de frutas que sustentava a família de oito pessoas com menos de R$ 300 por mês.
Episódios isolados dão início a catástrofes. Quando isso acontece é porque todo o cenário já está montado para o caos. Falta apenas alguém riscar o fósforo.
Este é o risco que está posto a partir da decisão, já esperada, de Nicolás Maduro de fechar a fronteira com o Brasil. Entre Pacaraima (Roraima) e Santa Elena de Uairén, militares brasileiros e venezuelanos podem ficar frente a frente. Basta um tiro, uma troca de farpas, ou, mais simples, que um caminhão com ajuda humanitária force a passagem sobre soldados venezuelanos para que o barril de pólvora exploda.
O Palácio do Planalto tem resistido até agora à pressão americana para o uso de força militar para entregar ajuda humanitária à Venezuela. Os generais brasileiros sabem que, se isso ocorrer, a situação rapidamente pode descambar para um conflito.
As promessas de alinhamento automático entre Brasília e Washington param no círculo militar que assessora o presidente brasileiro. O Departamento de Estado dos EUA também dava como certa a presença de tropas americanas na operação no Brasil, neste sábado (23), na fronteira, mas o bom senso e a experiência dos generais de Jair Bolsonaro têm falado mais alto.
Racionalmente, a Defesa e o Itamaraty sabem que é hora de evitar uma escalada. O problema é que, quando as situações estão sensíveis como agora, o irracional entra em cena. Aí, ocorrem os pequenos episódios que levam ao abismo.
Chama a atenção nessa crise que Maduro engrossou a voz com o governo Bolsonaro, enquanto com o presidente Iván Duque, da Colômbia, as ameaças ficaram até agora na retórica — digo até agora porque, ao menos até a noite desta quinta-feira (21), a fronteira entre os dois países permaneciam abertas.
Embora a situação na fronteira brasileira preocupe, é entre Cúcuta e o Estado venezuelano de Táchira o ponto nevrálgico no sábado. É do lado colombiano do rio Táchira, que marca o limite entre os dois países, que está concentrada a maior parte dos carregamentos de comida e remédios. É lá que está a maioria dos venezuelanos que deixaram o país. É lá que Juan Guaidó estará presente no sábado. É com o governo Duque que Maduro tem maiores divergências. E é na Colômbia que estão cerca de mil militares americanos prontos para auxiliar na entrada de remédios e comida.
Ao fechar a fronteira com o Brasil e não com a Colômbia — o que, acredito, será feito nas próximas horas —, Maduro dá o troco da decisão de Bolsonaro de reconhecer Guaidó no dia 23 de janeiro.
Naquele dia, a oposição perdeu o timing para desbancar o venezuelano do Palácio Miraflores. Não tinha o poder militar a seu lado — e até hoje não se sabe se o tem. A tentativa de usar a ajuda humanitária como pressão política, exatamente um mês depois, é a segunda chance. Mas o risco é altíssimo. Ou Maduro sai ou cresce a chance de guerra. Talvez não haja uma terceira chance. Nem uma terceira opção.


