A definição mais conhecida de recessão é a chamada "técnica", quando um país tem dois trimestre seguidos de queda no Produto Interno Bruto (PIB). No caso do Brasil, esse diagnóstico só se confirmará em 1º de setembro, quando o IBGE anunciar o resultado do período de abril a junho.
Existe outra forma de definir início e fim de períodos recessivos, avaliada pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace). O grupo, formado por oito economistas, reuniu-se na sexta-feira (26) e avaliou que o Brasil entrou em recessão a partir do primeiro trimestre de 2020.
À coluna, um dos integrantes do grupo, Paulo Picchetti, professor da Escola de Economia da FGV em São Paulo e pesquisador do FGV/Ibre, explicou que a "recessão técnica" é uma regra de bolso, no sentido de ser fácil de aplicar, mas nem sempre corresponder à realidade:
— O Codace, como órgãos parecidos em outros países, adota um conceito mais compatível com a noção de teoria econômica do que é recessão: queda generalizada e com alguma duração da atividade em vários setores.
Quando a recessão é definida pela "regra de bolso", detalha, podem ter se sucedido dois trimestres de queda leve no PIB, como 0,1% e 0,2%. Nesses casos, o declínio pode ter sido determinado por um problema em setor específico, que puxa para baixo o resultado geral.
— Agora, temos quedas tão significativas em tantos setores que não precisa nem esperar para dizer que estamos em recessão — observa.
Em 2016, o Codace também se antecipou ao declarar que a recessão havia terminado antes que se sucedessem dois trimestre com crescimento no PIB. Apesar da segurança de que a economia vai encolher, Picchetti afirma que as certezas terminam aí. O Codace não projeta o tamanho do tombo. Embora admita que os integrantes do comitê tenham discutido o tema na sexta-feira passada, Picchetti afirma que ainda há mais dúvidas do que convicções:
— Estamos com problemas no levantamento dos dados, que não permitem continuidade precisa, e nos modelos que projetam seu comportamento. Esses modelos extrapolam padrões do passado, e o que está acontecendo agora não se parece com nada que já tenha acontecido.
Picchetti lembra da surpresa com o resultado da produção industrial em maio: quando economistas projetavam tombos de 30% e até de 40%, o resultado do IBGE foi de 18,8%.
— Esses 18,8% do IBGE não têm o mesmo padrão de coleta dos anteriores, e nem a projeção dos consultores de mercado é baseada em modelos adaptados à atual situação. Temos divergências entre estimativas que vão de 4% a 10%. Sobre a queda, só sabemos que será grande e incerta.



