
Quando viram os valores abaixo do mercado de televisores e aparelhos de ar-condicionado ofertados pelo site Ta di Zuera, alguns clientes até desconfiaram, mas vídeos publicados pelo humorista Dilson Alves da Silva Neto, o Nego Di, reforçavam que a negociação era séria. Nas redes sociais, o ex-BBB afirmava ser um dos proprietários da loja e que não se tratava de golpe. Sem receberem os produtos, os consumidores se sentiram enganados e, por isso, começaram a procurar delegacias. O caso está sob investigação da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, que já recebeu pelo menos 126 registros.
As compras foram realizadas entre os meses de março e abril por meio da loja virtual, que só aceitava pagamento em Pix ou boleto. Eram anunciados produtos como televisores, aparelho de ar-condicionado, smartphones. Tudo com preços acessíveis — em média, pela metade do valor do mercado. Sem receberem os itens, os consumidores começaram a se reunir em grupos de WhatsApp. Em um deles, há pelo menos 74 pessoas, que alegam ter sofrido prejuízo total de R$ 228 mil. As quantias pagas pelos clientes variam bastante, desde cerca de R$ 600 até quase R$ 30 mil.
— Uma das vítimas decidiu comprar os eletrodomésticos para revender na sua cidade porque tinha despesas médicas para pagar. E para isso fez um empréstimo. Ficou sem os bens, com as despesas médicas e o empréstimo. Está endividado e desesperado — diz o delegado Rafael Pereira, da 1ª Delegacia de Polícia de Canoas, onde pelo menos 35 registros foram feitos.
GZH conversou com alguns desses clientes, que acreditam terem sido ludibriados. Todos eles afirmam que só decidiram comprar do site porque confiaram da imagem do humorista por trás das vendas.
Nas redes sociais, Nego Di apresentou diferentes versões até o momento. Durante as vendas, dizia ser um dos proprietários da loja, depois alegou que houve problema na logística e, por isso, as entregas atrasaram. Com a demora, prometeu estornar os valores aos clientes e, mais recentemente, indicou o nome de outra pessoa como sendo o proprietário da loja. Sua defesa afirma que ele foi contratado somente para fazer a publicidade do site (confira nota na íntegra no fim da reportagem).
Em um dos vídeos enviados a reportagem de GZH pelas vítimas, o humorista afirma que a loja é dele e que os valores se justificaram porque decidiram não ter altos lucros.
— Eu não tô divulgando loja de terceiros, essa loja é minha. A Ta di Zuera é minha loja. Eu que estou vendendo ar-condicionados para vocês. Tem gente que pergunta “Di, é confiável comprar lá?”. Não, não é lá. É aqui, é comigo que tu está comprando o ar-condicionado. Então pode confiar porque estou te dizendo: tu vai receber o ar-condicionado. Acontece que a gente não está botando um valor exorbitante no nosso lucro para ganhar no montante. E é por isso que o ar-condicionado está tão barato. Os caras estão ganhamos 100% e a gente está ganhando 10% — afirma, na gravação.
Confira os relatos abaixo
“Quem me vendeu foi ele”
Moradora de Porto Alegre, Juliana Balejo, 30 anos, afirma ter adquirido dois aparelhos de ar-condicionado, no valor de R$ 1.599,80, além de uma televisão 65 polegadas, por R$ 2.190. Quem indicou a loja foi o marido da empresária, que seguia o humorista nas redes sociais. A primeira compra foi feita em 25 de março e a segunda, da televisão, em 29 de abril. Após inúmeras tentativas de contato com a loja, ela decidiu fazer o registro online na Polícia Civil e no Procon-RS.
Não acredito que vá receber esse valor de volta. Ao menos, acredito que ele pode pagar pelo que fez.
JULIANA BALEJO
— É uma sensação de raiva. Não acredito que vá receber esse valor de volta. Ao menos, acredito que ele pode pagar pelo que fez. Quem me vendeu foi ele. E ontem (domingo, 17) vi matéria dizendo que foi pago para fazer. Tem vídeos dele fazendo entrega. Dizendo: “Compra que é comigo”. O valor era muito baixo. Se fosse de outra pessoa, ninguém ia comprar. Compraram porque era dele – afirma Juliana.
“Caí no golpe”
Fã de Nego Di, o vendedor Gabriel Vidal, 37 anos, morador de Cachoeirinha, foi alertado por um amigo sobre os produtos. Quando soube das ofertas dos televisores, decidiu adquirir um aparelho de 70 polegadas, por R$ 2.490. Em 1º de maio, realizou a compra.
— Minha esposa ainda me falou: “Não compra”. Mas eu comprei. Estava com tudo planejado para mudar minha sala – recorda.
Ele falou em vários vídeos, bateu no peito, dizendo que era dele a loja. Se fosse outro, um desconhecido, eu não compraria.
GABRIEL VIDAL
Após o prazo de entrega estourar, o cliente tentou contato com a loja e recebeu o número de telefone de uma transportadora. A nova promessa foi de que receberia a televisão em 20 de junho, mas está aguardando até agora. Na sexta-feira (15), Vidal, que agora é administrador nos grupos de vítimas no WhatsApp, foi um dos que participou de uma manifestação.
— A imagem te levava a crer. Ele falou em vários vídeos, bateu no peito, dizendo que era dele a loja. Se fosse outro, um desconhecido, eu não compraria. Mas caí no golpe — afirma.
“É uma figura pública”
Morador de Eldorado do Sul, Leandro Kohls, 29 anos, adquiriu um ar-condicionado de 2 mil btus no mês de março, por R$ 799,99 — o mesmo aparelho pode ser encontrado por R$ 1,4 mil a R$ 1,6 mil. Foi pelo WhatsApp que o gerente comercial ficou sabendo da promoção.
Habituado a fazer compras pela internet, decidiu fazer série de pesquisas antes de concluir a negociação. Um dos pontos que levantou desconfiança era o fato de o pagamento só ser aceito em Pix ou boleto.
— Inicialmente, fiquei com bastante receio. Era um preço bem diferente do mercado. Aí, resolvi pesquisar, ir mais a fundo — recorda.
É uma figura pública. Jamais pensei que mancharia o nome dele. Ele nunca falou que a loja não era dele.
LEANDRO KOHLS
Intrigado, Kohls chegou a consultar o CNPJ da chave Pix e passou a acompanhar as publicações do humorista nas redes sociais. Também fez contato com o suporte do site, que respondeu as mensagens.
— O Nego Di postava stories, vídeos, quase todo dia, falando, comentando. Daí foi quando, na época, pensei: “Um influenciador, mora aqui na região, três milhões de seguidores, tem negócios”. Tipo, é uma credibilidade que ele passou. É uma figura pública. Jamais pensei que mancharia o nome dele. Ele nunca falou que a loja não era dele. Sempre falou: “A loja é minha”.
Em 24 de março, o gerente comercial fez a compra, com prazo de entrega de 45 dias, mas o produto nunca chegou. Atualmente, ele faz parte de um grupo de WhatsApp com 250 pessoas. Nele, há uma lista com 140 que afirmam terem sido lesados.
“Alguma coisa tinha de errado”
Administradora em três grupos de consumidores, Patrícia Bitencourt, 37 anos, de Gravataí, adquiriu uma televisão 70 polegadas por R$ 2.490. A indicação foi do irmão, que já havia comprado dois smartphones, que foram entregues pela loja. Atualmente, ela acompanha o relato de centenas de pessoas que afirmam terem sido lesadas. Além do RS, há clientes de outros Estados, como São Paulo e Santa Catarina.
O que revolta as pessoas é que ele não poderia falar que a loja é dele. Primeiro diz que a loja é dele, agora não é mais.
PATRÍCIA BITENCOURT
— O que revolta as pessoas é que ele não poderia falar que a loja é dele. Primeiro diz que a loja é dele, agora não é mais dele — diz Patrícia, que chegou a entrar em contato com Nego Di e com as pessoas que ele indicou como os proprietários da empresa.
Sem receber o produto, atualmente ela reconhece que o valor tão abaixo do mercado deveria ter gerado desconfiança.
— Alguma coisa tinha de errado. Todo mundo entrou nisso. E agora está todo mundo no mesmo barco — lamenta.
Prejuízo de quase R$ 1 mil
Em 21 de março, Jonas Zmuda Tissiani, 33 anos, adquiriu um ar condicionado de 18 mil btus, por R$999,99, para o avô de sua namorada. O idoso tem 95 anos. Ele relata que em momento algum suspeitou de possível golpe já que acreditava que a loja era de Nego Di.
Após o prazo estipulado para a entrega, a mercadoria não chegou. Jonas entrou em contato com a loja que alegou problemas de logística, mas garantiu que o produto estava a caminho. Segundo o cliente, houve promessa de entrega em quatro ou cinco vezes. Por fim, ele desistiu e pediu o estorno, que também não aconteceu.
Em 10 de junho, registrou ocorrência por meio da Delegacia Online. A partir daí verificou que existiam inúmeros relatos de clientes que sentiam lesados, no site Reclmae Aqui. Ele foi um dos responsáveis por organizar um grupo de WhatsApp, onde atualmente há 75 participantes que relatam R$228 mil em prejuízo.
O que diz o Procon-RS
Segundo o Procon-RS, a orientação ao consumidor em casos de suspeita de estelionato é primeiro fazer o registro da ocorrência e depois realizar a reclamação junto ao Procon Municipal ou Estadual. O Procon poderá atuar no caso, para além do que a polícia dará de andamento. Neste caso, poderá ser aberto processo administrativo para sanção contra a empresa, podendo ser aplicadas diversas medidas, como multa.
O advogado criminalista Guilherme Moraes, em conjunto com os advogados Mateus Marques e Bruna Melgarejo, que representa algumas vítimas do golpe, sustenta que há evidente indício de autoria e de materialidade na atividade criminosa perpetrada por Dilson e por seus cúmplices.
O que dizem advogados de parte das vítimas
Os advogados Guilherme Moraes, Mateus Marques e Bruna Melgarejo, que representam algumas vítimas, enviaram nota a GZH:
Os advogados Guilherme Moraes, Mateus Marques e Bruna Melgarejo, que representam algumas vítimas do golpe, sustentam que há evidente indício de autoria e de materialidade na atividade criminosa perpetrada por Dilson e por seus cúmplices.
Diante dos fatos apurados até o momento, fica clara a intenção de Dilson, e de seus comparsas, de lucrar de forma extremamente rápida e fácil às custas da decadência de suas vítimas, e, ainda, de participar veemente e incentivar a venda de supostas mercadorias.
Frisa-se que a cada dia surgem mais vítimas e mais relatos dos golpes e prejuízos sofridos, fazendo com que, atualmente, os valores envolvidos no esquema criminoso de Dilson seja ainda inestimável, haja vista que a todo momento dezenas de pessoas continuam registrando ocorrências policiais e relatando os atos criminosos dos envolvidos pelo país.
Estamos trabalhando em sintonia com a Autoridade Policial, que tem se mostrado incansável e certeira em suas decisões e abordagens e enfatizo que, visando não prejudicar a investigação em trâmite e seus possíveis desdobramentos, ainda não é possível revelar maiores detalhesda empreitada delitiva.
Por fim, reiteramos que inúmeras pessoas e diversas famílias foram - e estão sendo - cruelmente afetadas pelos crimes investigados e que não cabe a ninguém, nunca, expor o sofrimento destas por meio de “piadas”, “sátiras” ou “ridicularizações”, como já expostos em diversos vídeos pelo próprio investigado. Se faz não apenas necessário, mas imprescindível, que o Judiciário responda à altura dos fatos e da postura que os investigados assumem, protegendo e amparando essas tantas famílias.
Contraponto
O escritório Fortini & Volcato Advogados, que representa Nego Di judicialmente, emitiu a seguinte nota:
"Dilson Alves da Silva Neto, conhecido profissionalmente pelo nome artístico Nego Di, foi contratado para realização de publicidade da loja virtual chamada Tá di Zuera. Ocorre que existem atrasos nas entregas da loja e falta de retorno adequado aos consumidores. Diante disto, passou a receber ataques nas redes como se proprietário fosse ou tivesse a administração e gerenciamento da referida loja.
Diante destes fatos, sua assessoria jurídica está averiguando a situação, já estando em contato com a autoridade policial para ter acesso ao inquérito, bem como para colaborar com a investigação e acelerar a elucidação dos fatos."



