
Quando Mayara Santos da Silva, 12 anos, pegou pela primeira vez nas mãos seu mais novo celular, talvez não tenha imaginado o longo caminho percorrido pelo aparelho que será seu fiel escudeiro nos estudos. O celular foi um dos 16 entregues nesta sexta-feira (28) a alunos de escolas públicas de Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo, e faz parte do projeto Alquimia II, do Ministério Público do Rio Grande do Sul.
A iniciativa teve início no ano passado, em Osório, no Litoral Norte, e consiste em recolher e consertar celulares apreendidos em presídios e operações policiais para doá-los, novinhos em folha, a alunos que não têm recursos para estudar remotamente na pandemia.
De 2020 para cá, outras 10 cidades do Estado aderiram ao projeto, que cresceu, se institucionalizou e tem beneficiado cada vez mais crianças e adolescentes. GZH “rastreou” a trajetória de um telefone específico, do início ao fim, para mostrar como um objeto de crime se tornou aliado da educação.
O que é jornalismo de soluções, presente nesta reportagem?
É uma prática jornalística que abre espaço para o debate de saídas para problemas relevantes, com diferentes visões e aprofundamento dos temas. A ideia é, mais do que apresentar o assunto, focar na resolução das questões, visando ao desenvolvimento da sociedade.
Telefone é recebido pelo MP
Tudo começou quando, após uma autorização judicial, o telefone foi entregue pela Polícia Civil de Santa Cruz do Sul à equipe do promotor Jefferson Dall'Agnol, em janeiro deste ano. Outros 189 celulares foram recebidos pelo MP da cidade desde o ano passado, mas apenas parte deles pôde ser aproveitado, já que alguns têm tecnologia obsoleta ou não estão em condições mínimas de uso.
Após a triagem, o MP aplicou atrás do celular uma etiqueta com um código para acompanhamento dali em diante. O passado dos aparelhos, entretanto, nem sempre fica vinculado a eles — no caso específico desse, o promotor acredita que possa ter sido apreendido durante uma operação policial do Departamento de Repressão e Combate ao Crime Organizado (Draco), relacionada ao tráfico de drogas na cidade.

Restauro na PUCRS
Da promotoria, os celulares são transferidos para uma instituição de ensino, onde ganham higienização, formatação e, se necessário, conserto.
Neste ano, três universidades gaúchas passaram a fazer parte do projeto: a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), de Porto Alegre, a Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), de Santo Ângelo, e a Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), de Ijuí.
Elas restauram gratuitamente os telefones e os devolvem aos municípios de origem. A primeira a fechar parceria com o MP foi a PUCRS — desde abril, a instituição já entregou dezenas celulares ao órgão, que o redistribui para as escolas. Foi o caso do aparelho que acompanhamos, que chegou ao Laboratório de Projetos em Engenharia da Escola Politécnica no mês de maio.
Lá, uma equipe técnica com formação em informática, mecânica e eletrônica faz uma nova triagem dos itens. O grupo tenta recuperar o máximo possível, com troca de peças e reinstalação do sistema operacional.
— A Engenharia, na sua essência, é resolver problemas. Neste projeto, o engenheiro tem o papel fundamental de dar novo destino a aparelhos que seriam descartados — afirma o professor Anderson Terroso, que coordena o projeto na instituição.
Após a triagem, os técnicos aplicam álcool isopropílico para higienizar os celulares e avaliam o funcionamento da bateria. Em seguida, partem para a formatação e verificação de dados — essa etapa é importante para evitar que o aluno tenha contato com arquivos antigos. Depois, é feita a instalação de aplicativos como Google Meet, Escola RS e Classroom, usados para ensino a distância. Por fim, o telefone é embalado e enviado de volta ao Ministério Público. A restauração leva, em média, de três a cinco dias.
Entrega à aluna
Quando recebe de volta um lote de telefones, o MP combina com a Secretaria Estadual da Educação uma data para entregá-los aos estudantes. São presenteados os alunos com mais dificuldades para acompanhar as aulas remotas, como Mayara, que não tem telefone ou computador em casa. Durante o período em que precisou estudar remotamente, ela usou o celular da mãe, Seledi.
A menina e outros 22 alunos foram presenteados durante uma cerimônia no auditório da Secretaria Municipal de Educação e Cultura, em Santa Cruz do Sul, na manhã desta sexta-feira (28). Parte dos telefones veio de doações da comunidade, que também destinou à iniciativa notebooks e um tablet (veja como doar ao final da reportagem).
— Agora eu tenho o meu, fiquei muito feliz. Esse celular vai me ajudar a colocar os trabalhinhos em dia — conta Mayara, que está no 7° ano da Escola Estadual de Ensino Fundamental Professor José Wilke.

Ela mora com a mãe e três irmãos no bairro Várzea, e sonha em ser militar ou policial. Assim como outros estudantes que recebem celulares do projeto Alquimia II, a menina terá os custos de internet pagos pelo Estado. Para sua mãe, que está desempregada, o presente representou esperança em meio a tempos difíceis.
— Sem emprego não consigo dar celular para eles. Somos muito gratas ao projeto — afirma Seledi Teresinha dos Santos, 50 anos.
Ampliação
Segundo o promotor Fernando Alves, um dos idealizadores do Alquimia II, 534 celulares foram recebidos pelo Ministério Público de Osório em 2020. Já em 2021, com a ampliação de municípios, foram 1.740 aparelhos.
Desse grande volume, cerca de 20% tem viabilidade de aproveitamento. Este ano, de abril para cá — quando a parceria com as universidades começou —, 73 telefones já foram restaurados e entregues. Se somadas as entregas feitas em 2020, o número chega a 489, em todo o Estado. Nas próximas semanas, 110 itens prontos serão levados a instituições de ensino de Venâncio Aires e 14 irão para escolas de Rio Grande.
Além de ter se estendido para outras cidades, a iniciativa teve avanços em outros pontos.
No começo, eram restaurados apenas telefones vindos de presídios. Com o tempo, se percebeu o baixo aproveitamento dos lotes, pois celulares que entram em instituições prisionais tendem a ser pequenos e obsoletos. Por isso, a captação foi ampliada para processos judiciais, aproveitando aparelhos que iriam para o lixo. Hoje, esse tipo de item — geralmente retirado nos fóruns — representa a maioria dos restaurados.
Com o intuito de conseguir aparelhos ainda melhores, o promotor Alves tomou outra iniciativa no Litoral Norte. Ele enviou, há algumas semanas, um ofício ao delegado Paulo Perez, da Delegacia de Polícia Regional de Osório, sugerindo uma “desburocratização do fluxo”. A ideia é que as autoridades policiais identifiquem, ainda na fase do inquérito policial, telefones que possam ser aproveitados pelo projeto. Isso agiliza o trabalho do MP, que pedirá mais rapidamente à Justiça a declaração de “perdimento” dos aparelhos. Segundo ele, cerca de 10 mil celulares são apreendidos ao ano no Estado.
— Há apreensões que não interessam mais como prova e também não são restituíveis, porque o detentor não tem como provar que o objeto é seu, não tem nota fiscal. Assim vamos pegar telefones mais novos, sem esperar todo o andamento de um processo — explica.
Além de ter crescido no Rio Grande do Sul, o Alquimia II foi replicado no Mato Grosso do Sul. Por lá, a iniciativa se chama Transforme e teve a primeira etapa iniciada em Campo Grande no início deste mês.
Na opinião do procurador-geral de Justiça, Fabiano Dallazen, a parceria firmada com Polícia Civil, Poder Judiciário e universidades é motivo de orgulho para o Ministério Público:
— Estão todos unidos em prol da segurança pública e, especialmente, em benefício dos jovens mais carentes que necessitam da tecnologia para ter acesso à educação neste momento. É algo que vem para ficar, mesmo após a pandemia.
Doações
Cerca de 5% dos telefones já recebidos pelo projeto vieram de doações. Quem quiser doar deve procurar o Ministério Público da sua cidade. Caso o município ainda não faça parte do programa, pode-se pedir que o item seja enviado à outra localidade. Estão inseridos na ação Osório, Maquiné, Tramandaí, Santa Cruz do sul, Rio Grande, Ijuí, Venâncio Aires, São Borja, Santiago, Lajeado, Bento Gonçalves e Santo Ângelo.

