
Em uma casa de classe média, na zona norte de Porto Alegre, uma mulher recebe a RBS TV. A sala é pouco iluminada, as cortinas estão fechadas. Ela é mãe de uma menina que desapareceu há quase três anos, quando tinha 12 anos.
Segundo a investigação da polícia e com base nos relatos do delator, a adolescente foi morta com golpes de machado em uma rua do bairro Mario Quintana, por volta das 15h de 24 de setembro de 2016. O motivo: andava com amigas que moravam na vila e que tinham relação com outros jovens de um bairro rival.
Os criminosos que mataram a garota de 12 anos entendiam que ela repassaria informações sobre a facção. O corpo dela é mais um que, segundo os relatos do delator, está no cemitério clandestino aos pés do Morro Santana.
— Essa é minha tristeza: ela não pode ser sepultada, não pode ser enterrada como um ser humano merece. Não pude velar minha filha, não pude fazer nada com minha filha. Não pude fazer uma despedida pra ela. Isso dói demais. É injusto, é desumano saber que existem pessoas que não podem ser enterradas, que estão desaparecidas e que estão lá naquele lugar jogadas como bichos — desabafa a mãe, que não será identificada por questões de segurança.
O delator, que está em um programa de proteção, confessou que também participou desse crime contra a menina. Ele e mais 12 criminosos foram denunciados pelo Ministério Público e aguardam julgamento desse e outras dezenas de assassinatos que acabaram levando mais vítimas para o cemitério clandestino.
Não pude velar minha filha, não pude fazer nada com minha filha. Não pude fazer uma despedida pra ela. Isso dói demais.
Entre os crimes que seriam ordenados por um líder da facção que está confinado em uma penitenciária federal e executados por membros da facção, estaria a morte de um policial militar, que está desaparecido.
— Esse policial militar teria sido morto pelo grupo criminoso e enterrado lá. Escavamos lá. A máquina não entrava, mas escavamos no local que foi apontado, mas é difícil precisar exatamente o local da cova, em virtude de eles entrarem à noite, a mata crescer de um momento para o outro — conta a delegada Luciana Smith, que não informou o nome do PM desaparecido.
A mãe da menina que segue desaparecida e que estaria no cemitério clandestino fez um desabafo, que pode retratar o sentimento de muitos familiares que, hoje, apenas queriam sepultar com dignidade seus familiares.
— Esse cemitério existe e as autoridades sabem que existe. Esse cemitério está lá, e é um depósito de pessoas que são descartadas lá. Isso não pode continuar em Porto Alegre —lamenta a mãe.