
A paisagem do Brique da Redenção, em Porto Alegre, já não é mais a mesma. Se, antes, quem passeava pela feira a céu aberto no Bom Fim encontrava uma rua de passeio livre para os pedestres e uma calçada repleta de expositores, hoje tem seu espaço e sua atenção disputados por uma infinidade de camelôs que ocupam a área.
A situação desperta a preocupação dos expositores, que já não sabem mais a quem recorrer para conter a situação.
– É um desrespeito à lei. Agora, tem de tudo por aqui, e a consequência disso é a insegurança. A fiscalização vem muito raramente e faz um trabalho morno, que não tem resultado prático. Temos regras, como não poder vender produtos que não são feitos pelos profissionais, e, se não cumprimos, sofremos penalidades. Mas esse pessoal aqui na frente vende de tudo e ninguém controla – desabafa o artesão Alfredo Larre, 49 anos, membro da Comissão de Artesanato do Brique.
A artesã Magda Moroso, que trabalha na feira há uma década, faz coro e complementa:
– E o pior é que nós só podemos mostrar nossa arte aos domingos, mas, para os ambulantes, o Brique da Redenção é o sétimo dia de trabalho deles. Acaba sendo uma concorrência desleal.
A fiscalização vem muito raramente e faz um trabalho morno, que não tem resultado prático. Temos regras, como não poder vender produtos que não são feitos pelos profissionais, e se não cumprimos sofremos penalidades. Mas esse pessoal aqui na frente vende de tudo e ninguém controla.
ALFREDO LARRE
Artesão membro da Comissão de Artesanato do Brique
É por volta das 10h de domingo, pouco depois de os expositores abrirem suas barracas, que a Avenida José Bonifácio começa a ser ocupada pelos ambulantes. Aos poucos, eles instalam cabideiros recheados de casacos, mantas e gorros, colocam mesas lotadas de óculos e estendem tapetes cobertos de eletrônicos. Entre eles, uma dupla de senegaleses, que não quis se identificar, comenta que vende roupas no local há cerca de três meses, pois é a única forma de conseguir dinheiro no final de semana. Já a ambulante Mariana da Silva diz pertencer a uma comunidade caingangue e afirma que comercializa na área de passeio do Brique há anos. Recentemente, teve de mudar de ramo para seguir lucrando:
– Estou aqui desde que começou a feira. Antigamente, eu vendia artesanato, e estávamos autorizados a fazer isso, mas ninguém mais valoriza esse tipo de arte. Hoje, me considero uma vendedora autônoma e vendo casacos, mantas, polainas e outras coisas. O pessoal aí da feira pressiona para fiscalizarem a gente, mas o que vamos fazer? Temos que vender também.
Segundo Mariana, eventualmente agentes da prefeitura aparecem, e muitos ambulantes desmontam suas barracas. Mas, na semana seguinte, já retornam e seguem comercializando os produtos.
O pessoal aí da feira pressiona para fiscalizarem a gente, mas o que vamos fazer? Temos que vender também.
MARIANA DA SILVA
Ambulante
Diretor de Promoção Econômica da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SMDE), Luis Antônio Steglich explica que o órgão tem um sistema de fiscalização que passa todos os dias, inclusive aos domingos, por diferentes regiões da cidade, como a Orla do Guaíba, o Parque Moacyr Scliar e os estádios de futebol para identificar e autuar comerciantes ilegais.
O problema é que o número de camelôs aumenta a cada semana na cidade, o que dificulta o controle dos agentes.
– Diariamente, ambulantes são multados, ocorrem apreensões de mercadorias e autuações. Mas são tantos ambulantes na cidade trabalhando de forma irregular que, quando se identifica um, os outros fogem. Eles assumem o risco de perder a mercadoria, daí, o risco acaba compensando – afirma o diretor da secretaria.
Outro problema enfrentado pelos órgãos fiscalizadores, aponta Steglich, é a agressividade da população, que tenta reagir quando vê um ambulante sendo autuado:
– Por isso, necessitamos da Guarda Municipal, para nos acompanhar nestas ocasiões. Eles deslocam algumas guarnições sempre que podem. Tem também a questão de que a população compra os produtos, ela não quer saber se é ilegal ou irregular. Isso estimula os ambulantes.
Para os pedestres acostumados a caminhar na feira aos domingos, a principal reclamação gira em torno da redução no espaço de passeio.
– Está muito poluído, quem olha para o Brique não vê mais a mesma coisa. Frequento o local há 20 anos e noto que, antes, tinha um espaço muito maior para a gente caminhar. Agora, tem alguns ambulantes que estendem as toalhas até o meio da calçada – afirma o motorista Leonel Souza, 55 anos.
Está muito poluído, quem olha para o Brique não vê mais a mesma coisa. Frequento o local há 20 anos e noto que, antes, tinha um espaço muito maior para a gente caminhar.
LEONEL SOUZA
Motorista e frequentador do Brique
Indígenas têm autorização para vendas
Na área de passeio do Brique da Redenção, estão autorizadas atividades como venda de pipoca e cachorro-quente, entre outros alimentos (desde que por vendedor previamente licenciado), e também a comercialização de produtos por indígenas, independentemente da origem.
– Os índios seguem uma regulamentação específica e não estão impedidos de agir. Eles podem vender produtos industrializados. O problema é que outros ambulantes acabam se instalando também e não estão autorizados – explica Luis Antônio Steglich, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico.
Vendedor da feira desde sua inauguração, em 1978, Vanderlei Amaral da Costa, 81 anos, se diz decepcionado com a situação, que atribui à falta de cuidado dos governantes com o local:
– Hoje não é mais o que era antigamente. Os índios têm o direito à terra, isso eu entendo, mas os demais estão aqui de forma ilegal, extrapolam o bom senso, cortam o espaço dos pedestres. Eu já trabalhei em feiras em vários lugares do mundo e nunca vi algo assim acontecer.



