
Na comparação entre 2011 e 2019, Caxias do Sul encerrou mais de 20 mil postos na indústria, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Na década que se encerrou no ano passado, foram registradas 28.834 demissões no setor, que, contudo, continua como principal empregador e matriz econômica da cidade.
Entre os principais motivos atribuídos para a mudança está a considerável adesão à tecnologia e inovação.
Ainda assim, os mais otimistas acreditam que parte dos postos de trabalho fechados possam retornar conforme o rearranjo produtivo indique novamente a necessidade de intervenção humana para manusear os próprios sistemas tecnológicos. Para a coordenadora do Observatório do Trabalho da Universidade de Caxias do Sul, Lodonha Maria Portela Coimbra Soares, entretanto, mesmo essa esperança de possível retomada não deve acomodar a reflexão em busca de uma matriz econômica alternativa.
— Essa reflexão não deve deixar de lado, não vamos só com a indústria manter a nossa cidade por muito tempo. Não precisamos pensar numa matriz nova, mas uma alternativa, que possa se aliar com a indústria. A adesão à tecnologia resulta, inevitavelmente na destituição de postos de trabalho. Acontece nos serviços, já acontece no setor do comércio. A mão de obra precisa se readequar a isso.
Com intuito de justamente pensar em alternativas econômicas para uma cidade com perfil consolidado industrial surgiu o movimento Mobilização por Caxias (MobiCaxias), há cerca de três anos.
— O Mobi surge desta constatação de que precisamos repensar a matriz econômica de Caxias e quais segmentos podem absorver essa mão de obra que ficou ociosa. Nós entendemos que a indústria ainda tem fôlego. As quedas no setor são sazonais. Mas é uma preocupação, não há dúvida. Uma das alternativas é buscar o desenvolvimento de empresas na área do turismo e temos de correr atrás de empresas que possam vir a Caxias estimular a economia e o emprego. Simultaneamente também fazemos cobranças para melhorar nossa infraestrutura, que é um gargalo que prejudica a indústria da Serra — comenta Carlos Zignani, coordenador do Mobi Caxias.
Entre as principais reivindicações do movimento, Zignani destaca o Aeroporto da Serra gaúcha, o projeto do Porto do Litoral Norte e a melhoria na condição das estradas.
Serviços como tendência
A aposta mais exaltada como matriz econômica substituta é o setor de serviços, que apresenta crescimento sólido. Entre 2009 e 2019 foram geradas mais de 15 mil vagas em Caxias. O setor fechou 2019 empregando 60.415 pessoas e já representa 37% do total dos postos de trabalho em Caxias.
— O setor de Serviços é o que mais tem oportunidades, não há dúvida. A prova são os aplicativos, que têm absorvido boa parte da mão de obra, embora se questione muito a remuneração. Mas tem segmentos mais especializados, principalmente com essa mudança de processos e produtos tecnológicos. O mercado está requisitando analistas para entender e ler esse mundo tecnológico. Serviço de educação, financeiros, turístico, entregas e produtos. Tudo que facilita cada vez mais a vida do consumidor — destaca a coordenadora do Observatório do Trabalho da Universidade de Caxias do Sul, Lodonha Maria Portela Coimbra Soares.
Empreender não é para todos
Diante do desespero da falta de emprego e um mercado que fecha portas, o contingente de mão de obra demitido nos últimos anos aposta também no empreendedorismo. Embora 95% da economia brasileira seja baseada em micro e pequenas empresas, empreender requer muito estudo.
De acordo com Lodonha, os desempregados geralmente são motivados a investir em nova área por vocação, mas, principalmente, em razão da necessidade.
— Existe uma precarização na renda média do município, nós tínhamos uma renda muito maior do que hoje. Isso em grande parte porque os microempreendedores individuais (MEIs) buscam empreender para sobreviver e acabam ganhando bem menos do que ganhavam no mercado de trabalho.
Ainda assim, ela ressalta a existência de mecanismos de qualificação:
— Há várias entidades, como Sebrae, que ajudam o empreendedor a fazer aquilo que estão empreendendo. Não adianta investir se não encaixa no perfil. Tem de ter a vocação. A maioria é por necessidade, mas é possível aliar os dois.
Segundo o Sebrae, até maio de 2019, Caxias contabilizava mais de 25 mil microempreendedores individuais.





