Depois de sete meses de ofensiva, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, intensificou nesta quarta-feira (21) o conflito na Ucrânia, com a mobilização de 300 mil reservistas e a ameaça de utilizar armamento nuclear. A seguir, um resumo do que provocou a escalada no conflito:
Por que agora?
Desde que a Rússia iniciou o ataque à Ucrânia, em 24 de fevereiro, o Kremlin não para de repetir que tudo acontece "de acordo com o planejado". Mesmo quando se viu obrigado a abandonar a ofensiva em Kiev e recuar para o leste.
No início de setembro, as coisas mudaram: as forças ucranianas, armadas pelo Ocidente, forçaram os russos a sair da região de Kharkiv (nordeste) e a recuar na bacia do Donbass (leste) e em Kherson (sul).
Além disso, os grandes países emergentes, cujo apoio Putin espera obter para sua causa anti-Ocidente, começaram a demonstrar impaciência.
Na semana passada, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, disse a Putin que não é o momento de fazer guerra. E o chefe de Estado russo afirmou que o presidente chinês, Xi Jinping, expressou suas "inquietações".
"Recebeu, dos países não ocidentais, o sinal de que deve terminar o mais rápido possível", escreveu Alexander Baunov, que já foi analista do Centro Carnegie de Moscou, fechado pelo governo russo este ano.
Anexação e bomba atômica
Com a atual situação, a Rússia tenta retomar a iniciativa e, na terça-feira (20), anunciou a organização de referendos de anexação em quatro regiões da Ucrânia, controladas ao menos parcialmente por Moscou, que acontecerão de 23 a 27 de setembro.
Como a doutrina militar russa prevê o uso da arma nuclear se o território do país for atacado, para o Kremlin este seria o cenário em caso de anexação — mesmo sem o reconhecimento das fronteiras por qualquer outro Estado do mundo.
Com as votações, que o Ocidente chama de "farsas", o que a Rússia pretende é interromper a contraofensiva ucraniana e as entregas de armas ocidentais.
Na terça-feira, a diretora do canal de televisão público russo RT, Margarita Simonian, escreveu no Twitter que esta semana seria o "prelúdio da nossa vitória iminente", ou então, da "guerra nuclear".
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Mobilizar quem e por quê?
A mobilização parcial anunciada envolve 300 mil reservistas, com prioridade para pessoas com experiência militar.
Não foram divulgados muitos detalhes, exceto que os convocados serão treinados e receberão equipamentos adequados. O governo não divulgou um calendário.
Os estudantes e recrutas do contingente não serão enviados à frente de batalha, prometeram as autoridades russas.
De acordo com o presidente da Comissão de Defesa do Parlamento, Andrei Kartapolov, a medida vai afetar principalmente soldados e suboficiais reservistas de menos de 35 anos, assim como os suboficiais reservistas de menos de 45 anos.
O ministro da Defesa, Serguei Shoigu, explicou que a mobilização é necessária para manter os territórios ocupados na Ucrânia. A linha de frente "é de mais de mil quilômetros".
— Evidentemente temos que reforçar esta linha e a retaguarda — disse.
Uma aposta de Putin?
Desde o anúncio dos referendos de anexação, na terça-feira, o Kremlin parece apostar na escalada do conflito para obter uma rendição da Ucrânia — e isso inclui a opção nuclear sobre a mesa.
"É um ultimato da Rússia à Ucrânia e ao Ocidente: ou a Ucrânia recua ou acontecerá uma guerra nuclear", afirmou a analista independente Tatiana Stanovaya no Telegram.
Nesta quarta-feira, Vladimir Putin fez questão de ressaltar que "não é um blefe".
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O Ocidente expressa apoio à Ucrânia há sete meses, com ajuda militar e financeira.
No plano militar, a mobilização pode ser insuficiente para mudar a realidade dos combates, ao menos de maneira imediata, porque formar, equipar e enviar 300 mil militares à frente de batalha representa um enorme desafio logístico para a Rússia.
Putin elevou a tensão internacional no entorno do conflito justamente antes de o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, discursar na Assembleia-Geral da ONU, que ocorre em Nova York. Joe Biden usou a fala para tecer duras críticas à Rússia. Segundo ele, o país viola a Carta da organização "descaradamente" ao invadir e tomar território à força da Ucrânia.
— Essa guerra quer acabar com o direito da Ucrânia existir, simples assim — alertou Biden.