Na sessão isolada desta sexta-feira (17) na B3, a bolsa de valores brasileira, além do cenário externo, os investidores precisaram processar o aumento de combustíveis, encaminhado ao longo do feriado e anunciado nesta sexta-feira (17) pela Petrobras. O fogo cruzado contribuiu para abater as ações da companhia, que fecharam o dia com perdas na casa de 7% na ON (-7,25%) e de 6% na PN (-6,09%), carregando o Ibovespa de volta para os cinco dígitos, em nível não visto desde o começo de novembro de 2020, o primeiro ano da pandemia.
Além do resultado negativo na bolsa, o dólar fechou o dia em alta. Fortalecida lá fora, a moeda americana escalou 2,35% sobre o real, a R$ 5,1443, consolidando uma sequência de resultados ruins para a divisa brasileira: uma alta de 3,12% na semana e de 8,24% no mês.
A alta da gasolina e do diesel foi recebida pelo governo como afronta do presidente da estatal, José Mauro Coelho, ainda à espera de efetivação da troca de comando na empresa. O novo ajuste de preços vem no momento em que o Palácio do Planalto pretendia capitalizar o teto do ICMS sobre combustíveis como linha auxiliar no controle da inflação, em tentativa, também, de reconquistar popularidade rumo à eleição do presidente Jair Bolsonaro.
Após rodar o dia com perdas acima de 3%, o Ibovespa encerrou esta sexta-feira em queda de 2,90%, aos 99.824,94 pontos, o menor nível de encerramento desde 4 de novembro de 2020 (97.866,81). A queda foi a maior queda em porcentual desde 26 de novembro passado (-3,39%) e, na semana, o recuo foi o mais acentuado desde outubro. Em sessão com vencimento de opções sobre ações, o giro foi a R$ 43,1 bilhões.
A quinta-feira (16) bem negativa nos mercados da Europa e dos Estados Unidos já seria o suficiente para o Ibovespa buscar alinhamento ao dia anterior neste retorno de feriado combinado à véspera de fim de semana. E com outro feriado, na segunda-feira nos EUA, sem bolsa por lá, em celebração ao encerramento definitivo da escravidão no país, em 19 de junho de 1865, após a Guerra Civil.
Retração acumulada
A Selic a 13,25% ao ano, após o aumento de 0,50 ponto porcentual confirmado na noite da última quarta-feira (15), combinada à efetivação de aumentos nas taxas de juros de referência nos Estados Unidos e no Reino Unido, por si já favoreciam a cautela dos investidores e o apetite pela renda fixa.
O mal-estar quanto à extensão, ainda incerta, da elevação dos custos de crédito ao redor do mundo — em cenário, por um lado, de inflação ainda pressionada e, por outro, de dúvida quanto ao fôlego da retomada econômica — acende o sinal de que, ao fim, o que se colherá é a recessão,
— Os mercados globais seguem precificando o cenário de elevação nas taxas de juros e de aversão a risco. O Ibovespa trabalhou em forte queda desde a abertura, com poucas ações conseguindo operar em alta na sessão, em dia também desfavorável para o petróleo e o minério de ferro — observa Leandro De Checchi, analista da Clear Corretora
— O mercado viu o reajuste dos combustíveis como insuficiente porque a defasagem, para o preço internacional, já estava muito grande. O mercado viu como pouco reajuste, o que explica parte da queda, a outra é a aversão a risco, como um todo, que pegou o petróleo também. O reajuste pesou, mas há um ambiente difícil para ações também lá fora — diz Wagner Varejão, especialista da Valor Investimentos.
Ele acrescenta que a percepção dos investidores sobre a tensão entre governo e Petrobras é ruim:
— O mercado vê com maus olhos tantas trocas de presidente (na Petrobras), em claras tentativas de mexer na política de preços da empresa. O que tem ajudado um pouco é que o governo enfrenta extrema dificuldade de fazer isso (interferir no comando para tentar influenciar os preços), o que mostra que a governança da companhia melhorou muito.





