
A indústria não ficou imune ao choque provocado pelo coronavírus. Diante da recomendação médica para que a população permaneça em casa, grandes empresas tiveram de reduzir ou suspender atividades no Rio Grande do Sul. Representantes do setor reconhecem a importância do isolamento social, mas temem que o freio forçado pela pandemia cause uma espécie de efeito cascata, abalando também as fábricas menores, com calibre financeiro inferior para encarar períodos de crise.
Tradicional polo metalmecânico do Estado, a Serra é uma das regiões onde grandes companhias confirmaram a interrupção de atividades. Em conjunto, Marcopolo e Randon, de Caxias do Sul, anunciaram férias coletivas de 20 dias para funcionários a partir desta segunda-feira. Outras marcas conhecidas da região, como Tramontina e Soprano, também comunicaram pausa nas operações. Em Gravataí, na Região Metropolitana, a fabricante de veículos General Motors (GM) seguiu o mesmo caminho.
– Ninguém esperava esta situação provocada pelo coronavírus. As indústrias têm muita dependência entre si. Quando as grandes têm de parar, as pequenas também sentem, vão na mesma linha, só que o caixa delas é menor. O fator determinante agora é a busca dos governos para oferecer linhas de crédito muito baixas. As taxas de juro ainda estão altas – analisa Paulo Spanholi, presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul (Simecs).
Na visão do dirigente, o problema sanitário pode causar “reflexos muito grandes” na operação das fábricas por “dois ou três meses”. Diante da situação, reforça a importância de a população seguir à risca recomendações para conter o avanço do coronavírus o mais breve possível.
O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Caxias do Sul e Região, Assis Melo, afirma que o momento requer foco na “questão da saúde”:
– O cenário é muito difícil e complexo. Vivemos uma guerra contra o vírus. Depois dessa crise, vamos olhar para a economia.
Financiamento
André Nunes de Nunes, economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), avalia que, no geral, medidas anunciadas pelo governo Jair Bolsonaro para amenizar impactos do coronavírus na atividade “vão no caminho certo”. Mas alerta que o Planalto precisa intensificar ações nos próximos dias para atenuar estragos da pandemia nos negócios.
Para Nunes, um dos focos de atenção deve ser a oferta de linhas de crédito reduzidas para capital de giro. Ou seja, condições mais atrativas para que, em um momento de queda brusca no faturamento, as empresas consigam financiamento mais barato para quitar despesas, incluindo o pagamento de funcionários.
– Este é um período em que o governo tem de gastar mais. Os bancos públicos precisam oferecer linhas mais favoráveis. A principal preocupação é para que as empresas saiam vivas deste cenário – afirma.
Nunes também reconhece que, em razão do coronavírus, há risco de as dificuldades vividas pelas grandes companhias se espalharem por todo o setor industrial.
– Esse é um dos principais temores. As pequenas e médias empresas dependem das maiores – diz o economista.
No quarto trimestre do ano passado, a indústria empregava 898 mil funcionários no Rio Grande do Sul, indicam dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso significa que o setor abrigava, à época, 15,7% de toda a população ocupada no Estado, incluindo tanto trabalhadores formais quanto informais.
Em 2019, a atividade da indústria subiu 1,5%, conforme o Departamento de Economia e Estatística (DEE), vinculado ao governo estadual. A elevação foi influenciada pelo desempenho das fábricas no primeiro semestre. Na reta final do ano passado, o setor perdeu fôlego. De acordo com o DEE, no quarto trimestre, houve baixa de 3,9% em relação a igual período de 2018.
Com base em indicadores preliminares de janeiro e fevereiro, Nunes comenta que a indústria gaúcha sinalizou desempenho positivo na largada de 2020. A questão é que, em março, o avanço do coronavírus trouxe uma enxurrada de preocupações.
Especialistas sugerem linhas de crédito
A paralisação de atividades em razão do coronavírus vai além da indústria. Grandes redes varejistas também aderiram a medidas de prevenção da pandemia.
Com DNA gaúcho, a Lojas Renner comunicou na quinta-feira o fechamento, por tempo indeterminado, de suas unidades no Brasil, na Argentina e no Uruguai.
Para tentar reduzir estragos do coronavírus, o governo federal vem anunciando, desde o último dia 16, uma série de ações na área econômica. Mas, segundo analistas, é preciso ir além. Entre as medidas propostas pelo Ministério da Economia, estão a entrega de vouchers de R$ 200 para trabalhadores informais, prorrogação do prazo de pagamento de tributos do Simples Nacional e corte de até 50% na jornada e nos salários de funcionários em meio à crise.
Em uma pandemia como a do coronavírus, o fundamental é enfrentar o problema
PEDRO DUTRA FONSECA
Economista
Na sexta-feira, professores da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS lançaram manifesto em que sugerem 32 ações para amenizar os impactos do coronavírus. A criação de linhas de crédito para micro e pequenas empresas, condicionada à manutenção de empregos e “com baixo custo e prazos adequados”, é uma das recomendações. O documento também sugere a ampliação do Bolsa Família em 20% e a suspensão do pagamento de serviços de utilidade pública, como energia e água.
– O que o governo tem de fazer agora, e está se antenando, é buscar medidas emergenciais. Não vou dizer que concordo com todas as propostas já anunciadas. Ações de controle fiscal ficam para outro momento. Em uma pandemia como a do coronavírus, o fundamental é enfrentar o problema – diz o economista Pedro Dutra Fonseca, um dos que assinam o manifesto.
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