Em parques, praças, escolas e até nos shoppings. Pioneira no país nas discussões sobre meio ambiente, Porto Alegre vive uma expansão acelerada de feiras agroecológicas. Levantamento feito pela reportagem identificou pelo menos 14 espaços de comercialização de alimentos orgânicos na Capital, a maior parte surgida nos últimos dois anos.
O fenômeno também vem sendo observado pelo interior do Estado, onde existem cerca de 90 feiras ecológicas, conforme pesquisa feita pela Comissão da Produção Orgânica do Estado do Rio Grande do Sul (CPOrg-RS).
Três décadas depois da primeira iniciativa do gênero, a Tupambaé – Feira Ecológica, precursora da Feira dos Agricultores Ecologistas (FAE), o terreno está mais fértil do que nunca. Como uma área de transição que fica em repouso para desintoxicação.
Isso porque o Brasil tem registrado uma das maiores taxas mundiais de crescimento de consumo de alimentos cultivados sem o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos nos últimos anos.
De acordo com o diretor-executivo do Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável (Organis), Ming Liu, o mercado brasileiro deve continuar aquecido. Estimativas da entidade indicam crescimento entre 20% e 25% ao ano até 2020, impulsionado pela crescente preocupação com saúde e ambiente. Nos Estados Unidos, maior consumidor mundial, esse índice é de 11% ao ano, mesmo 15 anos após a regulamentação. Atualmente, oito em cada 10 famílias americanas consomem orgânicos.
Por aqui, ainda há vasta fatia de mercado a ser conquistada. A primeira pesquisa nacional de consumo, feita pela Organis e divulgada no mês passado, mostra que 15% da população urbana brasileira inclui alimentos orgânicos na sua dieta. A maior procura por este tipo de produto (34%) está na Região Sul, que ultrapassa o dobro do consumo nacional. Das nove capitais pesquisadas, Porto Alegre é que apresenta o maior percentual: 39%.
Super e feira lideram vendas
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O levantamento também aponta que supermercados e feiras são os principais locais de compra desses produtos, mas formas alternativas, como grupos de compras coletivas, vêm conquistando espaço. Falta de preços acessíveis e de lugares próximos são apontados como os principais limitadores para aumentar as compras. O faturamento do setor no país é estimado em R$ 3 bilhões, um número, no entanto, tido como conservador.
– Esse consumo não é moda. É uma tendência que veio para ficar, de mudança de hábitos do consumidor, que busca produtos mais seguros e saudáveis – avalia Liu.
Na esteira da alta na demanda, a produção de alimentos orgânicos também vem crescendo. Dados do Ministério da Agricultura indicam aumento de 88,5% nos últimos cinco anos na área cultivada no país, que passou de 603,2 mil hectares em 2013 para 1,13 milhão de hectares neste ano (veja quadro na página 5). O número de produtores mais que dobrou no período, de 6,7 mil para 15 mil. Por enquanto, não há dados sobre a produção no Rio Grande do Sul – a Emater deve realizar levantamento neste mês e divulgá-lo em agosto.
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Segundo Ari Uriartt, assistente técnico estadual da Emater na área de agroecologia e produção orgânica, a expectativa é de que a curva – tanto do consumo quanto da produção de orgânicos – continue em ascensão.
– Existe muita preocupação com a segurança dos alimentos e há um movimento de resgate da identidade alimentar e cultural. As pessoas estão redescobrindo o prazer de cozinhar, de experimentar receitas. Vão buscar alimentos na feira, mas encontram muito mais do que isso. É um processo de reeducação do ponto de vista alimentar.
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Cultivo sem agroquímico substitui o convencional
Quando Vitor, o filho mais velho de Denise e Romildo Schardosim, começou a apresentar alergias, aos seis meses de vida, o casal de agricultores de Dom Pedro de Alcântara, no Litoral Norte, decidiu que era hora de mudar. A família resolveu abandonar o cultivo tradicional, com o uso de agrotóxicos, e investir na produção orgânica. Romildo ouviu falar em cultivo agroecológico durante um curso que havia feito quando tinha 17 anos. Foi uma semente que demorou para germinar. Mas brotou e vingou.
O primeiro passo do casal, que plantava tomates em terras arrendadas, foi comprar uma área de oito hectares. No início, enfrentaram dificuldades, do plantio à comercialização, mas persistiram no ideal. As primeiras vendas eram feitas de porta em porta, um processo exaustivo, onde os agricultores ouviam mais não do que sim. Até que surgiu a oportunidade de dividirem com produtores do município uma banca na tradicional feira agroecológica do bairro Bom Fim, em Porto Alegre.
Na estreia na feira, o grupo levou 70 caixas de banana, mas só vendeu 20. Os vizinhos de Romildo e Denise foram desistindo aos poucos – achavam que não valia a pena percorrer cerca de 300 quilômetros todo o sábado. Até o momento em que restou apenas a família Schardosim. Hoje, a banca deles é considerada uma das mais diversificadas. Além da banana, a grande estrela, vendem alface, couve, gengibre, açafrão-da-terra, inhame, batata yacon, milho-pipoca, limão, pimentão, entre outros.
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Todos os sábados, Romildo e o filho Vitor, hoje com 17 anos e prestes a se formar técnico agropecuário, acordam às 2h e partem em direção à Capital com o caminhão carregado com 80 caixas, sendo 30 de banana. Denise tem ficado em casa cuidando da pequena Raiane, de dois anos, mas não vê a hora de voltar para a feira. Para a família, o contato e a troca com os clientes é a melhor parte da semana.
– Eles valorizam o nosso trabalho, nos colocam para cima – resume Romildo.
Falta mão de obra
Na Feira dos Agricultores Ecologistas, os Schardosim vendem 98% de sua produção e o restante entregam em loja e restaurante de Porto Alegre.
Eles também estão cadastrados em uma rede de consumo colaborativa. A família cultiva hoje cerca de 40 itens em uma área de seis hectares (a propriedade tem 12 hectares), mas a diversidade já foi maior. Romildo conta que a oferta vai se adequando à demanda, pois "é o mercado que faz o agricultor".
Segundo Romildo, a falta de mão de obra é hoje o principal limitador. Ele calcula que a procura e a renda aumentam de 15% a 20% ao ano, mas a família não dá conta de atender.
Três décadas anos depois de participar do curso que mudou sua vida, hoje é Romildo quem recebe jovens agricultores em sua propriedade e procura incentivá-los a trilhar o caminho da agroecologia, paixão que já transmitiu ao seu primogênito. Vitor pretende seguir os passos dos pais e ajudá-los a diversificar e aprimorar ainda mais a produção.
Entregas facilitadas encurtam tempo entre colheita e consumo
Se o cliente não vai à feira, a feira vai até ele. Produtores e consumidores de alimentos orgânicos estão se organizando e formando redes que encurtam a distância das hortas e lavouras até a mesa das famílias das áreas urbanas. Os pedidos são feitos por sites, redes sociais e aplicativos, como Whatsapp. Menos de 24 horas depois da colheita, frutas, legumes e verduras são entregues nas casas dos consumidores pelo próprio produtor ou retirados pelos clientes em pontos de coletas, no caso de redes de consumo colaborativo.
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Há um mês, o agricultor Arnaldo Soares Borges, 42 anos, também passou a oferecer seus produtos em um site, o Junta Pedido. Por enquanto, o "movimento" da feira virtual está fraco, mas o assentado de Nova Santa Rita acredita que o "espaço tende a se fortalecer". Borges cultiva orgânicos há 10 anos e começou a vender arroz, frutas e hortaliças em feiras há cinco anos. Hoje, tem banca em três feiras da Capital: no bairro Petrópolis, no shopping Iguatemi e no bairro Três Figueiras.
Conforme a assistente social Sandra Rodrigues, que acompanha as propriedades de assentados da Cooperativa de Trabalho em Serviços Técnicos (Coptec), as 200 famílias certificadas como produtoras de orgânicos na Região Metropolitana precisam de alternativas para ampliar os espaços de comercialização.
A quantidade de feiras ecológicas deve continuar crescendo, mas é preciso ir além. E a venda por sites, aplicativos e redes sociais pode, segundo ela, preencher lacunas:
– Apesar do número crescente de feiras, o mundo urbano é muito grande. Há condomínios com a população de cidades do Interior. Muitas pessoas não vão às feiras. Então, há um grande número de famílias para atender.
Uma das vantagens dos mecanismos alternativos de comercialização, na opinião de Sandra, é que eles possibilitam que os agricultores tenham um planejamento em função da garantia de venda. Além disso, estimulam a diversidade da produção, já que o cliente tem de escolher os itens que compõem as cestas.
É orgânico mesmo?
– Segundo o Ministério da Agricultura, para ser considerado orgânico, o produto deve ser cultivado em ambiente que considere sustentabilidade social, ambiental e econômica e valorize a cultura das comunidades rurais.
– A agricultura orgânica não utiliza agrotóxicos, hormônios, drogas veterinárias, adubos químicos, antibióticos ou transgênicos em qualquer fase da produção.
Conforme a legislação brasileira, de janeiro de 2011, o consumidor reconhece o produto orgânico por meio do selo brasileiro ou pela declaração de cadastro do produtor orgânico familiar.
– Todo produto orgânico vendido em lojas e supermercados tem que apresentar em seu rótulo o selo federal do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica (SisOrg). Se for vendido a granel, deve estar identificado corretamente, por meio de cartaz ou etiqueta.
– Nas feiras, o produtor deve apresentar um documento chamado Declaração de Cadastro, que demonstra que ele está registrado junto ao Ministério da Agricultura e é ligado a uma Organização de Controle Social. Neste caso, só o produtor, alguém de sua família ou de seu grupo pode estar na barraca, vendendo o produto.
– Para consultar o Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos, acesse agricultura.gov.br/assuntos/sustentabilidade/organicos/cadastro-nacional-produtores-organicos e baixe a lista com os nomes de todos os agricultores que produzem orgânicos no país.