
A bailarina e coreógrafa Marina Fedossejeva cumpriu um percurso de peripécias e imprevistos até se transformar em uma das principais referências do balé clássico de Porto Alegre, entre as décadas de 1960 e 1980. Mais de 35 anos após sua morte, a trajetória da professora russa, que formou gerações de bailarinos gaúchos, ainda guarda uma aura de mistério.

Nascida em São Petersburgo, em 1918, em uma família de aristocratas ligada ao czar Nicolau II (um dos avós dela foi ministro militar do regime czarista), ela estava sendo preparada para atuar como solista da Kirov – escola por onde passaram lendas do balé como Vaslav Nijinski, Anna Pavlova e Rudolf Nureyev – quando foi alvo de perseguição do regime bolchevique.
Há relatos de que enfrentou noites gélidas e tenebrosas em campos de concentração da Sibéria. Às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Marina partiu para o exílio na Alemanha, onde nasceu sua filha única, Olga, em 1940.

– No vaivém dos exércitos em meio às batalhas, (Marina) adormecia sob domínio russo e despertava sob controle alemão – relata Antônio Carlos Cardoso, aluno de Marina nos 1960 e um dos primeiros homens a se tornar bailarino profissional no Estado.
Em Sempre Marina Fedossejeva (1918-1984): Trajetória de Vida Descrita por Feitos e Afetos, TCC para Licenciatura em Dança da UFRGS, de 2018, Rossana Scorza registra que Marina atuou também na Áustria e na Itália antes de desembarcar, em 1947, na Argentina, onde fez parte da companhia de dança do Teatro Colón, de Buenos Aires. Em 1951, atravessou a fronteira para trabalhar no conservatório de música de Rosalina Pandolfo Lisboa, de Uruguaiana. Lá, montou o balé Quebra-Nozes, de Tchaikovski, que foi sua última aparição como bailarina no palco.

Radicada em Porto Alegre a partir de 1957, deu aulas de balé clássico no Clube dos Caixeiros Viajantes e na Sociedade Leopoldina Juvenil, além de ministrar disciplinas como expressão corporal, dança e mímica no Curso de Arte Dramática da UFRGS, de 1960 a 1967. Participou também dos programas Encantamento e Sempre aos Domingos, da TV Gaúcha (atual RBS TV), e criou a Escola Russa de Ballet Clássico Marina Fedossejeva, que perambulou por dois ou três endereços antes de se fixar no segundo andar de uma casa da Rua Riachuelo, no centro da Capital.
Alguns alunos de Marina construíram exitosas carreiras. Na lista, além de Cardoso, que foi diretor artístico do Balé da Cidade de São Paulo, estão Liege Villanova, bailarina da Deutsch Oper am Rhein, de Düsseldorf, Alemanha; Miriam Toigo, dançarina da Metropolitan Opera, de Nova York, e Geraldo Lachini, que atuou no Ballet Stagium, de São Paulo, e no Guaíra, de Curitiba. Professora detalhista e rigorosa, Marina tinha o hábito de bater de leve com uma varinha nas pernas dos pupilos para ditar o ritmo dos movimentos. Acendia um cigarro atrás do outro e, durante as aulas, deixava um copo de vodca ao alcance da mão para bebericar.
– Champanhe e cerveja afrouxam os joelhos. Só a vodca enrijece a musculatura – dizia ela, segundo Maricê Cramer, aluna nos anos 1970.
Marina morreu de câncer de pulmão, em 1984, um ano após receber a Medalha Cidade de Porto Alegre, reconhecimento da prefeitura da Capital. Olga, professora do Instituto de Letras da UFRGS, faleceu após infarto fulminante, em 1990. Assim, mãe e filha partiram para o exílio definitivo, sem deixar vestígios.





