Houve boa receptividade, no setor empresarial, da promessa de financiamento às exportações brasileiras à Argentina. Claro, não falta quem, mesmo potencialmente beneficiado, aponte risco caso a modelagem não seja adequada, mas há certo consenso sobre a necessidade da medida.
— Financiamento de exportação é algo que todos defendem, ninguém é contra — reitera José Augusto de Castro, presidente da Associação Brasileira de Comércio Exterior.
Em tempos polarizados, inclusive no setor produtivo, é bom lembrar que Castro fez parte do primeiro grupo de representantes de entidades empresariais que se reuniu com o ainda candidato favorito Jair Bolsonaro em 2018. Para explicar à coluna porque existe esse aparente consenso, o presidente da AEB diz que, no ano passado, todos os recursos do orçamento geral da União foram transferidos para o Plano Safra.
— Na época, nos disseram que estavam 'emprestando' dinheiro do Proex (Programa de Financiamento das Exportações) para o Plano Safra e depois devolveriam, porque a agricultura tem mais peso na economia do que o comércio exterior. Mas o dinheiro foi e não voltou. Foi um problema — relata Castro.
Conforme o presidente da AEB, quem informou o segmento foi o próprio ministro da Economia, Paulo Guedes, na época. Até agora, observa, não há informação sobre a dotação orçamentária de 2023 para o Proex, administrado pelo Banco do Brasil. Segundo o empresário, especialmente na venda ao exterior de produtos industrializados, o financiamento é essencial:
— Financiar exportações é indispensável para algum tipo de manufatura, especialmente de bens de capital. Sem isso, nada acontece. O pouco que foi desembolsado no Proex em 2022 foi na liquidação de negócios fechados em anos anteriores. Operação nova teve zero, e o BB nos comunicou da suspensão.
Na expectativa de detalhes sobre o prometido financiamento às exportações para a Argentina - país que concentra suas compras do Brasil em produtos industralizados -, Castro diz ter "quase certeza de que vai sair" apesar das incertezas sobre as regras. Aposta em uma solução que envolva commodities (matérias-primas básicas, como o gás natural) argentinas como garantias da operação.
— É só o que a Argentina tem para garantir, hoje. Seria viável, porque o preço flutua com o momento. É defensável, porque, ao comprar manufaturados do Brasil, estão no fundo gerando divisas para nós, mantendo empregos aqui e garantindo atividade econômica no mercado interno. Se não fizer isso, a China toma conta, porque oferece financiamento de longo prazo, por custo menor.
Financiamento à exportação, lembra Castro, é uma atividade regular no segmento, que quase todos os países adotam.
— A gente é que deixou de fazer no ano passado. E quando deixa de fazer, outros ocupam espaço, como fez a China. Se a Argentina der calote no Brasil, fecha uma das poucas portas abertas ao país. E se o Brasil fechar a porta, entrega de bandeja um mercado para a China.




