Pelas mãos de Iracema Lourdes Antunes passaram primeiras-damas, misses, debutantes da alta sociedade, noivas famosas e até a mãe de um presidente da República. A cabeleireira de Porto Alegre fez a cabeça de gerações de mulheres, das mais tradicionais famílias gaúchas. Em 2022, aos 94 anos, Iracema celebra oito décadas de profissão. Detalhe: em plena atividade.
Ainda menina, em 1942, ela passou a ajudar a irmã, Antenisca Maria Salvi, a Nica, no Instituto de Beleza Salvi. Aprendeu olhando.
Casou-se em 1947, com o empresário Nelson Antunes e, durante cerca de um ano, dedicou-se ao lar. À época, recorda ela, "achavam feio mulher trabalhar”, mas a pausa durou pouco: em 1951, com o apoio do marido e a parceria de Nica (de quem se tornou sócia), nasceria o Salão Joana D’Arc, que fez história na Capital (veja as fotos).
A habilidade das irmãs correu de boca em boca. A fama cresceu ainda mais quando Iracema passou a viajar ao centro do país para participar de congressos atrás das últimas tendências em penteados, cortes e tinturas. Ela foi até ao Japão (sem saber uma palavra em inglês!) em 1981. As incursões renderam aprendizado e novas técnicas, algumas ainda desconhecidas por aqui.

Não deu outra: o salão se tornou um sucesso. À cadeira de Iracema, sentaram-se, entre outras clientes ilustres, quatro esposas de governadores do Rio Grande do Sul (leia mais detalhes abaixo). Em um único final de semana, o estabelecimento chegou a atender 32 debutantes do Country Club, enviadas pela requisitada modista Mary Steigleder, autoridade no mercado da moda em Porto Alegre, requisitada por famílias abastadas.
— Faço o vestido, mas o penteado tem de ser com a Iracema — repetia Mary, a quem a procurasse.
A pedido da freguesia, o Joana D’Arc manteve filial em Torres, no Litoral Norte, por 30 anos, durante os veraneios. A praia gaúcha era uma das preferidas da alta sociedade porto-alegrense.
Até hoje, Iracema cuida de antigas clientes, agora na estética dirigida por uma de suas quatro filhas. A cabeleireira já não tem mais o marido e a irmã ao seu lado (Antunes faleceu em 1986 e Nica, em 2002), mas segue empunhando a tesoura com firmeza - e enchendo de orgulho os nove netos e oito bisnetos.
— Amo o que faço. Vou seguir trabalhando até quando minhas pernas aguentarem — avisa Iracema, que não quer deixar nenhuma freguesa em apuros.
Madrinha ilustre

A foto acima, de 1969, é uma das relíquias guardadas com carinho por Iracema, entre dezenas de outras fotos e recortes de jornais.
Na imagem, a então primeira-dama do Estado, Stella Aloise Barcellos (que era casada com Walter Peracchi Barcellos, governador do RS entre 1966 e 1971), descerra a logomarca do Salão Joana D’Arc. O estabelecimento acabava de se mudar para o bairro Moinhos de Vento, na esquina das ruas Mariante e Dona Laura, na Capital.
Além de Stella, foram clientes assíduas do instituto de beleza outras três mulheres de chefes de Estado do Rio Grande do Sul: Neusa Goulart (esposa de Leonel Brizola), Judite Meneghetti (companheira de Ildo Meneghetti) e Neda Triches (esposa de Euclides Triches).
Vicentina Goulart, a dona Tinoca, mãe do ex-presidente João Goulart, o Jango, também foi habitué, assim como Sandra Hervé, miss RS nos anos de 1950.






