
O que esperar de quem que foi vendida pela mãe para dormir com um homem (salva na última hora pela tia), de quem foi cedida como dama de companhia para a família se livrar dela e ganhar algum dinheiro, de quem vendia bombons Sonho de Valsa na rua para pagar empréstimos, de quem suportou um casamento infiel flagrando o marido na cama com sucessivas amantes, de quem penou como engraxate na saída de hotéis, de quem trabalhou em fábrica para encaixe de peças de modo insalubre, de quem faxinou escritórios na Praça da Sé até meia-noite, de quem sustentou com seu suor e esforço três filhas?
Aguardava-se que a pessoa ficasse ressentida, vingativa, amarga, mas, pelo contrário, resultou na vó Palmirinha, com o sorriso mais generoso e doce da televisão brasileira.
Ela teria motivos de sobra para justiçar suas privações e adotou o caminho contrário — o do acolhimento. Foi uma cozinheira da vida real, com fala coloquial (assumindo “erros de português”), lapsos de memória e um carisma que a tornava insubstituível. Recusava a empáfia de chef e praticava a leveza corriqueira do avental, sendo gente como a gente, com tempo apertado entre as obrigações diárias junto da família.
A simplicidade de suas receitas lhe possibilitou ganhar uma legião de fãs, suas “amiguinhas e amiguinhos”, e abrir uma franquia para licenciamento de produtos e lanchonetes, onde se provavam as delícias da "vovó Palmirinha". Do sucesso, vieram também livros de receitas, comerciais e um reconhecimento que nunca pensou alcançar.
Com passagens pela TV Gazeta, Band, Record, Globo, até protagonizar um programa seu com superestrutura do canal Bem Simples, do grupo Fox, ela se converteu num exemplo de pioneirismo da comunicação gastronômica, destacando a praticidade das suas combinações. Não havia lero-lero ou palavras afetadas. Muito menos buscava parecer culta com expressões estrangeiras de menu e condimentos exóticos. Fazia o básico com capricho.
Ela se divertia como se não existisse nenhuma câmera em sua frente. Às vezes, inclusive saía do foco e dos olhares dos cinegrafistas, escapando do cenário, para o desespero dos produtores.
Valia-se do fiel assistente Guinho, o boneco que a ajudava a recordar o que já havia posto na panela, equivalente ao papel do papagaio Louro José para a apresentadora Ana Maria Braga (aliás, a responsável pela descoberta de Palmirinha).
Seu legado prova aquela máxima budista de que a dor é inevitável, já o sofrimento é opcional. Você escolhe continuar sofrendo ou se desapegar daquilo que deu errado para tentar diferente.
Ela transformou seus pesares e percalços em sabedoria para se relacionar com todos os públicos e faixas etárias.
O tampo de vidro mais tradicional do país se fechou neste domingo (7). A culinarista Palmira Nery da Silva Onofre se despediu aos 91 anos, em São Paulo, por complicações de seus problemas renais crônicos.
Jamais esqueceremos que, com ela, sempre havia cinco bocas de fogão rindo para nós. Só com ela.
Sua gargalhada era aquela inesquecível, de quem tinha a exata noção do quanto custava cada alegria.




