Pelo menos 17 mulheres já procuraram a Polícia Civil para relatar supostos abusos sexuais que teriam sido cometidos pelo cirurgião plástico Estevão José Rodrigues, 68 anos, durante atendimentos em Porto Alegre. Uma delas, que conversou com GZH nesta segunda-feira (15), conta que observou um comportamento inapropriado desde o primeiro contato com o homem, e que o médico teria tentado beijá-la à força e chegado a baixar a própria calça durante uma consulta.
O homem está preso preventivamente desde o dia 9 e é investigado pela polícia por crimes sexuais. A defesa nega as acusações — veja a manifestação abaixo.
De acordo com o relato da mulher, que preferiu não se identificar, as investidas ocorreram quando ela acompanhava a mãe — que fez procedimento para remoção de excesso de pele nas pálpebras — em consultas. Durante os atendimentos, enquanto ela e Rodrigues estavam sozinhos, ele teria se esfregado na mulher e proposto procedimentos estéticos em troca de sexo:
— No começo, eram olhares e comentários que me intimidavam. Mas eu tinha que acompanhar minha mãe. Depois, foi piorando. Ele pegava na minha cintura. Ficava medindo força comigo — conta.
No dia em que a cirurgia era realizada, a vítima conta que uma investida teria sido mais violenta. Ela afirma que a mãe e o médico foram para a sala e a cirurgia foi iniciada. Cerca de 40 minutos depois, o cirurgião teria voltado à recepção e atacado a mulher:
— Eu estava sentada, apoiada no braço do sofá e ele apareceu. Se jogou em cima de mim, eu não conseguia sair dali. Ele aproveitou que eu estava vulnerável, porque sou mais alta que ele, mas eu estava sentada. Eu lembro que disse: "Minha mãe é idosa, está na mesa, anestesiada". Mas ele não se importava.
A mulher afirma que teve receio de contar à mãe sobre as investidas e que, em uma das consultas, pediu para um amigo que a acompanhasse. Ela conta que soube que mais mulheres haviam entrado com processo contra Rodrigues e decidiu procurar a delegacia para registrar o caso.
De acordo com a delegada Jeiselaure Rocha de Souza, titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), o relato das vítimas ouvidas até o momento se assemelha. Elas afirmam que foram tocadas em partes íntimas pelo cirurgião durante atendimento médico.

No dia 9, quando o médico foi preso, a polícia cumpriu também mandados de busca e apreensão nos bairros Três Figueiras e Chácara das Pedras, na zona norte da Capital. O consultório do cirurgião estava em más condições, e foram apreendidos no local armas, documentos, medicamentos, lubrificantes íntimos, preservativos e outros objetos. Rodrigues também é investigado por erros médicos nas cirurgias, causando lesões em pacientes durante o procedimento. Ele atua há cerca de 30 anos na área.
Após a prisão, o Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers) afirmou ter aberto sindicância para apurar os fatos, que deve durar pelo menos 180 dias — podendo ser prorrogada por mais seis meses.
"Ele achava que tinha direito de fazer aquilo", diz mulher
Segundo a mulher, os supostos abusos ocorreram por tanto tempo e com diferentes mulheres porque o médico "tinha certeza de que não responderia pelos atos". Ela conta que, como estavam sozinhos quando aconteciam as investidas, tinha medo de não conseguir provar seu relato:
— Ele tinha certeza da impunidade, não tinha medo, não pedia para manter segredo. Nada. Mandava coisas até pelo WhatsApp, que fica registrado. Ele também queria que eu colocasse silicone com ele, e deixou bem claro que eu não precisava me preocupar com dinheiro, que poderia pagar de outra forma.
Além dos supostos abusos, a mulher afirma que ficou sabendo de erros médicos que teriam sido cometidos, o que a fez ter ainda mais vontade de denunciar o caso. Ela afirma que, após a cirurgia, realizada em 2019, a pálpebra da mãe ficou deformada.
— O assédio me traumatizou, mas não me matou. Só que ele seguia operando diariamente em um local clandestino, colocando as pessoas em risco — ressalta.
Mulher afirma que recorreu a acompanhamento psicológico após episódio
Depois do caso, a mulher conta que passou a sofrer com crises de ansiedade, procurou acompanhamento psicológico e começou a usar remédios para aliviar os sintomas. Depois de ter procurado a polícia e ver o médico ser preso, ela afirma que espera por justiça.
— Tem dias em que sinto nojo, dias em que sinto raiva. Em outros, me sinto culpada. Mas eu ia lá para acompanhar minha mãe, ia de agasalho, estava inverno. Não pode ser culpa minha. Lembro que chegou uma hora em que eu não aguentava mais aquela situação. Mas sentia que precisa coletar provas porque seria a minha palavra contra a de um cirurgião que atua há anos. O abalo psicológico é muito forte — relata.
Defesa nega acusações
GZH entrou em contato com a defesa do cirurgião nesta segunda e aguarda retorno. Na última semana, o advogado Rafael Alvim afirmou que tem buscado provas que sustentem a inocência do seu cliente e afirma ter sido procurado por 52 pessoas, entre pacientes e ex-pacientes, que se colocaram à disposição para testemunhar a favor do médico.
— Todas as pessoas que me procuraram confirmam que ele era um médico digno e respeitoso com as pacientes. São provas contundentes que comprovam a inocência e demonstram a má intenção em prejudicar o médico, seja por questões que vislumbram um bem econômico, financeiro ou por simples vingança por ilusões criadas pela própria vítima— disse o advogado na semana passada.
Onde pedir ajuda
Casos de abuso devem ser comunicados à Delegacia da Mulher de Porto Alegre (Rua Professor Freitas e Castro, junto ao Palácio da Polícia), no bairro Azenha. O telefone é (51) 3288-2173, 3288-2327 ou 3288-2172.
Caso tenha sido vítima de outro tipo de violência contra a mulher, o indicado é procurar qualquer Delegacia de Polícia próxima. Para situações emergenciais, deve-se buscar atendimento da Brigada Militar, pelo 190.