
Um crime que chocou São João do Polêsine, na Região Central, desafia a polícia. Há pouco mais de uma semana, a freira Maria Ana Dal Santo, 79 anos, foi assassinada na residência da família na área rural do município de 2,5 mil habitantes. A religiosa foi encontrada com um corte profundo na parte de trás do pescoço dentro do quarto que ocupava na casa. Desde então, a investigação tenta compreender quem teria motivo para matar a irmã Ana, como era conhecida.
Responsável pelo caso, o delegado regional Sandro Meinerz já ouviu mais de 20 pessoas nos últimos dias, em busca de pistas do assassinato da freira. Irmã Ana vivia há mais de 40 anos no Paraná, mas retornara recentemente ao Rio Grande do Sul para cuidar de uma familiar. A irmã mais velha, de 82 anos, estava adoentada e precisou ser internada em uma casa de idosos. A casa onde ela estava era uma herança de família e pertencia às duas.
O delegado acredita que a hipótese mais provável seja de que a irmã Ana tenha sido vítima de homicídio. O motivo é o que a investigação tenta elucidar. Uma possível desavença ou motivação patrimonial estão entre as possibilidades apuradas. Conforme o policial, as irmãs não possuem herdeiro direto da propriedade. A freira pretendia, inclusive, prever em seu testamento a doação da parte dela da propriedade de 37 hectares para a Congregação do Imaculado Coração de Maria, da qual fazia parte desde a adolescência. Ela foi morta antes de concluir essa vontade.
— Ainda é um mistério. Há alguns pontos que precisamos esclarecer: se em todo esse tempo que a irmã dela vive lá nunca teve um atrito com ninguém. Outro ponto é se, por ventura, não havia alguém muito interessado na compra dessa propriedade ou em benefícios a partir dessa propriedade. Esse poderia ser um motivo. A terceira situação é saber se, nesse lapso temporal em que esteve aqui, a irmã Ana não se atritou com alguém — detalha o delegado.
A irmã mais velha da freira já foi ouvida pela polícia na semana passada. Ela relatou que nos 30 anos em que reside na propriedade nunca houve qualquer tentativa de furto ou roubo. A idosa foi internada em Paraíso do Sul após ser encontrada caída dentro da residência, com ferimentos no rosto. Segundo o delegado, a polícia apurou a possibilidade de que ela tivesse sido agredida, o que poderia indicar algo contra as duas irmãs. No entanto, a própria idosa apresentou outra versão.
— Ela diz que caiu sozinha porque tem dificuldade de andar. Os vizinhos, que a socorreram, também relataram que ela andava muito fraca ultimamente e com dificuldade de equilíbrio. Já tinham encontrado ela antes duas ou três vezes caída — explica Meinerz.
Para a polícia, a possibilidade de um ladrão ter entrado na casa para roubar e ter matado a idosa é a hipótese menos provável. Não havia nada revirado dentro da moradia, e a irmã havia deixado a bolsa sobre a mesa da cozinha, com R$ 6 mil dentro. Ainda assim, o delegado não descarta totalmente a hipótese de que o criminoso tenha fugido após matá-la, sem conseguir roubar nada.
Nessa linha, chegou até a polícia a informação de que no dia 11 de janeiro houve uma possível tentativa de arrombamento da casa. Uma das portas da moradia teria sido forçada, no período em que a irmã Ana não estava na propriedade.
— Se fosse no momento em que ela estava lá, poderíamos imaginar que era algo direto contra ela. Mas não foi e nada foi levado. Ela reportou isso às irmãs e aos vizinhos, mas não chegou a registrar isso na polícia — explica o delegado.
O crime
Irmã Ana foi encontrada morta no início da tarde do domingo, dia 17, na casa que pertence à família em Linha da Glória. Embora haja residências próximas, o imóvel está em um ponto isolado, cercado por mato no entorno. A casa estava com as portas e janelas abertas, algo que era habitual. Uma outra religiosa da Casa de Retiro Nossa Senhora de Lourdes foi até o local e deparou com a idosa já sem vida.
O golpe na parte de trás do pescoço da vítima foi tão forte que a freira foi quase decapitada. A suspeita é que se tenha usado algum tipo de faca, facão ou foice. Não havia marcas no corpo da idosa que indicassem qualquer resistência, como cortes ou hematomas de defesa. A cena leva a polícia a acreditar que ela pode ter sido pega de surpresa pelo criminoso e golpeada sem perceber a presença do assassino.
A polícia acredita que o assassinato tenha acontecido ainda pela manhã. Isso porque a freira manteve contato com um trabalhador que realizava obras na propriedade por volta das 10h15min, mas não chegou a almoçar.
Comunidade chocada no Paraná
No último sábado (23), a comunidade de Iporã, no Paraná, participou de mais uma homenagem à freira. Era no município de 13,7 mil habitantes que ela vivia desde 20 de setembro de 1977. Residia e atuava na Escola Nossa Senhora Aparecida, da congregação das Irmãs do Imaculado Coração de Maria, da qual fazia parte. Uma missa de sétimo dia foi realizada no Santuário Diocesano Santo Antônio. No início da semana, já havia ocorrido na escola ato simbólico.
— Todos nós estamos muito mexidos com tudo que aconteceu. Não esperávamos, principalmente desta forma, um fato tão brutal desse. As irmãs aqui têm o carinho de toda a comunidade. Elas têm uma dedicação absoluta às crianças, às famílias, à comunidade — afirma a professora Alessandra Beltramim, 39 anos, que reside em Iporã e tem sido responsável por organizar homenagens para a irmã Ana.
Todos nós estamos muito mexidos com tudo que aconteceu. Não esperávamos, principalmente desta forma, um fato tão brutal desse. As irmãs aqui têm o carinho de toda a comunidade. Elas têm uma dedicação absoluta às crianças, às famílias, à comunidade
ALESSANDRA BELTRAMIM
Professora
Maria Ana Dal Santo nasceu em Restinga Seca, em 6 de agosto de 1941. Aos 14 anos, em 22 de fevereiro de 1956, ingressou na Congregação do Imaculado Coração de Maria, no município de Rio Pardo. Em sua trajetória no RS, esteve em Porto Alegre e em Arroio Grande, na Região Sul. Nos anos seguintes, passou por comunidades no Paraná e em São Paulo. Irmã Ana atuou como professora de português, diretora e secretária.
Na comunidade de Iporã, era considerada espécie de patrimônio, por conta do tempo em que estava lá e do carinho com que tratava a comunidade. A freira tinha uma memória aguçada e costumava recordar detalhes sobre a vida escolar dos alunos, mesmo anos após terem deixado a instituição.
— Sabia o nome de cada um, filho de quem é, se era bom aluno, se tinha facilidade de leitura, se tinha dificuldade na tabuada. Uma marca da irmã Ana era saber conciliar a exigência, o rigor, mas sempre com muito amor e muito carinho. Ela vivia com roupas bem simples, na lida doméstica. O prédio tem dois andares, de madeira. A escola é a menina dos olhos da comunidade — descreve Alessandra.
Mais recentemente, irmã Ana se dedicava aos afazeres e manutenção da escola. Aos fundos da instituição, as irmãs mantêm uma área com pomar e criação de animais. Mesmo com a idade avançada, a freira tinha disposição para as atividades. Ela também cuidava com outra irmã, com quem convivia desde que chegou a Iporã, do coral da escola.
— A irmã Hilda e irmã Ana sempre cuidaram do coral. A manutenção dos instrumentos é a irmã Hilda e a irmã Ana cuidava das vestimentas. Se uma criança precisava, ela mesma fazia o conserto da roupa. As irmãs são uma referência. Uma autoridade na cidade para todo mundo. Nos sentimos a família delas aqui. Tentamos fazer de tudo para ajudar a amenizar o sofrimento, essa imensa dor que elas sentem — diz a professora.
Na mesma data em que planejava regressar ao Paraná, no início da semana passada, a freira teve o corpo sepultado em Vale Vêneto.

