
A história industrial de Porto Alegre é marcada por iniciativas de inovação e ousadia. Um dos exemplos do pioneirismo da Capital hoje é um prédio fechado no bairro Navegantes. Ali, onde hoje há mato crescendo, um vigilante e uma dupla de cachorros brabos, já foram produzidos milhares de chocolates e doces a partir de 1904. Antes disso, em outro local do mesmo bairro, a família Neugebauer começou a fabricar as primeiras barras industrializadas do país conforme o livro Indústria de Ponta, editado pela Fiergs, que conta a história das indústrias do Rio Grande do Sul.
Era 1891, Franz e Max Neugebauer, ao lado do sócio Fritz Gerhardt, começaram a fabricar os primeiros chocolates e saíram a vendê-los, de porta em porta, sobre o lombo de cavalos. O aumento da demanda motivou a mudança para a fábrica da Avenida Cairu no começo do século 20, onde funcionou até esta década.
Mariana Silva da Silva, 75 anos, testemunhou parte dessa história. Ex-funcionária da Neugebauer, ela ainda mora ao lado do prédio vazio deixado para trás no bairro Navegantes.
— Havia uma variedade imensa de produtos que eram feitos aqui. Boa parte dessa vizinhança era tomada por gente que trabalhava na fábrica. Mas hoje já foi quase todo mundo embora — lembra Mariana.
O pioneirismo porto-alegrense também se estendeu aos eletrodomésticos. Originada em uma carpintaria, a Steigleder produziu as primeiras "caixas de gelo" do país — uma espécie de baú de madeira com recipiente para colocar o gelo. Com sede na Voluntários da Pátria, a Steigleder também fabricou algumas das primeiras geladeiras elétricas a partir da década de 1950. Algumas fontes também apontam o surgimento do eletrodoméstico, mais ou menos pela mesma época, no município catarinense de Brusque.

O gosto pela inovação provocou outro fenômeno: a disseminação da Pepsi em solo gaúcho por iniciativa de um português chamado Heitor Pires. Radicado no Brasil por volta de 1925, reuniu dinheiro e lançou em 1953 a primeira fábrica do refrigerante no país. Com um tino natural para o marketing, criou inúmeras estratégias de venda — como pintar os pontos de venda com as cores da marca, realizar promoções com tampinhas premiadas e associar a bebida a um estilo gaúcho e familiar, enquanto a concorrente Coca-Cola procurava se associar à "juventude transviada" da época. Como resultado, Porto Alegre era um dos únicos lugares no mundo em que a Pepsi vendia mais do que a Coca.

A identificação com a fábrica local era tão grande que era comum, segundo o livro Pepsi-Tchê - A Grande Vitória da Pepsi na Guerra das Colas, gaúchos acreditarem que se tratava de uma marca gaúcha. Por isso, quando aparecia uma garrafa da Pepsi em algum filme americano, porto-alegrenses de peito estufado se orgulhavam de ver a bebida sendo vendida em outros países.
