
O duro recado enviado ao governo pelo presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de que não incluiria na pauta aumento de impostos para baratear o diesel, deixou o Palácio do Planalto imobilizado mais uma vez. Assim como fizera nas negociações com os caminhoneiros, o Executivo recuou e precisou afirmar que o desconto no combustível será custeado com a redução de benefícios fiscais e não com novos tributos.
Além disso, para cobrir o rombo de R$ 13,5 bilhões da medida anunciada no último domingo (27), será preciso abrir crédito extraordinário e fazer cortes no orçamento. A arrecadação com o projeto que reonera empresas de 28 setores da economia também irá para a nova despesa.
— Ele (ministro da Fazenda, Eduardo Guardia) sabe muito bem que no Congresso não haverá aumento de impostos. O que ele deveria ter proposto é algumas saídas onde se possa conseguir receita sem precisar mexer num assunto tão delicado. Ele está colocando gasolina, com a pouca gasolina que o governo tem, na sociedade brasileira — bradou Maia, reforçando o discurso de pré-candidato à Presidência.
Guardia havia mencionado a hipótese de alterar tributos em entrevista coletiva na última segunda-feira (28). Na terça (29), após a manifestação do presidente da Câmara, mudou o tom. Em audiência no Congresso, disse que "em nenhum momento o governo trabalha com a hipótese de aumento de impostos".
O episódio escancara a dificuldade de interlocução entre governo e Legislativo. Aliados avaliam que o presidente Michel Temer não conseguirá recuperar o poder de negociação e barganha para impor pautas de interesse do Executivo na Casa.
— A falta de habilidade do presidente (Michel Temer) para sair da situação com os caminhoneiros enfraquece ainda mais a liderança dele sobre a Câmara — opina um parlamentar da base.
Críticas da oposição
A leitura é de que a situação irá fortalecer um fenômeno observado desde que Temer precisou da Câmara para congelar as duas denúncias apresentadas pela Procuradoria-Geral República (PGR) que poderiam afastá-lo da Presidência, no ano passado. Fiador da vitória do presidente, Maia conseguiu ampliar sua influência na Casa e aumentar a bancada de seu partido, o DEM, que dobrou o número de cadeiras em relação à eleição de 2014.
Entre os parlamentares da oposição, há dúvidas sobre o tom dos ataques ao governo, já que as manifestações apresentaram focos de defensores de intervenção militar. Uma das hipóteses é manter as críticas à administração, sem reforçar o pedido de saída imediata de Temer.
No Senado, embora conte com um correligionário no comando, a sorte do presidente da República não é diferente. Eunício Oliveira (MDB-CE) demonstra publicamente contrariedade em relação a medidas do governo, comportamento potencializado pela proximidade das eleições. Mirando o pleito de outubro, o senador defende a proximidade com o PT em seu Estado natal.
Para evitar derrotas, a avaliação é de que o Executivo não deverá apostar em novas pautas polêmica até o final do ano, quando acaba a legislatura atual.


