
Duas semanas depois de nascer, Arthur Lenzi Reche já conseguia ficar com o pescoço e a cabeça firmes. Aos seis meses começou a engatinhar e, com apenas 10 meses de vida, estava dando os primeiros passos. Além do desenvolvimento da capacidade motora relativamente precoce, ele sempre teve facilidade em identificar as cores, apresentando boa memória desde cedo e articulando corretamente as palavras. Aos três anos, Arthur, com um livrinho com as letras do alfabeto, apresentado pela avó, passou a conhecer o alfabeto. O incentivo fez com que, antes de completar quatro anos, o menino que mora com os pais e a irmã no bairro Esplanada, em Caxias do Sul, já soubesse escrever pequenas palavras.
A capacidade excepcional de Arthur em determinadas atividades nunca foi problema para a família, mas acabou tornando-se um desafio em um dos momentos mais cruciais para o desenvolvimento de qualquer criança: a inserção escolar. Identificado como superdotado (pessoa que possui capacidades acima da média em uma ou mais áreas), ele — assim como outros estudantes que possuem a mesma condição — têm o ensino especial garantido pelo Plano Nacional de Educação (PNE), mas ainda enfrentam barreiras em relação ao acolhimento considerado adequado por especialistas.
O assunto, pouco difundido a nível regional, vem sendo levantado por um grupo de mães que tem como co-fundadora Aline Pegoraro Lenzi, 38, mãe de Arthur. Pelas redes sociais, o grupo AHSD Caxias do Sul e Serra Gaúcha, criado em outubro de 2020, reúne atualmente 110 participantes, incluindo profissionais das áreas da psicologia, da pedagogia e da educação; e está formalizando uma associação para promover ainda mais atividades no município.
A mobilização iniciada por ela, juntamente com Sirley Sonda Massoni e Tassiana Livi, tomou forma com o projeto intitulado "Mães que Lutam", que propõe uma série de medidas que possam garantir o atendimento adequado na cidade. A demanda chegou ao âmbito político, em Projeto de Lei protocolado em fevereiro pela vereadora Marisol Santos (PSDB) e que agora tramita na Câmara de Vereadores.
O movimento das mães, assim como de outras pessoas e instituições que surgem para apoiar a rede, se volta para um objetivo em comum: dar mais visibilidade à causa para garantir a identificação e, consequentemente, o pleno desenvolvimento de pessoas superdotadas ou com altas habilidades — nomenclaturas que podem variar dependendo do referencial teórico utilizado pelo especialista que faz a avaliação.
Identificação para inclusão
— Os médicos diziam que o Arthur era precoce e por muito tempo aceitamos essa explicação. Mas quando ele estava com três anos e meio comecei a pesquisar na internet e vi que ele poderia ser superdotado. A dificuldade veio no momento de matriculá-lo na escola. Aí me dei conta da situação, ao ver que nem na rede particular ele seria suficientemente estimulado, que precisaria de adaptações específicas para as suas necessidades e, para isso, precisaria da identificação feita por algum especialista — relata Aline, que diz ter encontrado somente em Porto Alegre o olhar que seu filho precisava.
— A identificação mudou a nossa visão sobre as atitudes dele, a interpretação do comportamento dele diante das situações, o jeito de poder conversar na escola sobre ele. Mas ainda estamos buscando junto à escola a melhor forma de adequação pra ele, que tem o cognitivo avançado, mas a socialização ainda imatura — explica a mãe.
Arthur foi matriculado na Rede Caminho do Saber, escola da rede particular de Caxias do Sul, em 2020, quando tinha cinco anos. No início, foi direcionado à turma de pré-escola, mas ainda antes do final do ano letivo foi para a turma de primeiro ano, tendo em vista seu nível acadêmico avançado. De acordo com a mãe, agora, no segundo ano, ele estaria apto ao 3º, mas o quesito "maturidade", assim como as alternações presenciais geradas pela situação de pandemia, tornam o processo ainda desafiador.

— No caso do Arthur, a família foi uma grande parceira durante todo este processo de inclusão e adaptação, sempre atenta às necessidades dele, assim como aberta a encaminhamentos e trocas de turno ofertadas pela escola. Sem dúvida alguma isso faz toda a diferença quando se trata de trabalhar com alunos de inclusão — afirma Fernanda Henz, orientadora educacional da Caminho do Saber.
De acordo com ela, assim como os demais alunos de inclusão que chegam à Caminhos do Saber, Arthur conta hoje com um planejamento feito de modo diferenciado, por meio do Plano de Desenvolvimento Individual (PDI). Nesses casos é disponibilizada uma sala com recursos e um atendimento educacional especializado.
Projeto propõe política municipal
Ainda que presente nas diretrizes nacionais de Educação Inclusiva, o acolhimento adequado de crianças com superdotação, na prática, nem sempre é realidade. Procurada por Aline e as demais integrantes do grupo de mães que está levantando o debate na cidade, a vereadora Marisol Santos (PSDB) protocolou na Câmara de Vereadores o Projeto de Lei 20/2021, que tem como objetivo criar a Política Municipal de Educação Especial, na perspectiva da Educação Inclusiva para atendimento especializado aos estudantes identificados com altas habilidades e superdotação.
— Essas mães me procuraram em janeiro e doeu saber que se sentem invisíveis nas escolas e na sociedade — comenta Marisol.
A vereadora afirma que a criação de uma política municipal com atendimento especializado é algo "mais do que urgente".
— A partir de uma política pública local, estamos apontando o quanto é necessário este acompanhamento especializado, pensando também em uma forma de qualificação permanente dos professores para facilitar essa identificação. Nossa ideia é trazer o assunto à tona e fazer com que as pessoas compreendam a necessidade deste atendimento — complementa.
O projeto passa atualmente por avaliação da Comissão de Constituição, Justiça e Legislação (CCJL) e, depois, será encaminhado para análise de outras comissões pertinentes, sem previsão, ainda, para ser votado pela Câmara de Vereadores.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), pessoas consideradas superdotadas representam de 3,5 a 5% da população. Em Caxias do Sul, o percentual de estudantes identificados é de 0,04%, conforme dados da Secretaria Municipal da Educação — percentual equivalente a 17 alunos.
A titular da pasta, Sandra Negrini, garante que todos os estudantes do Atendimento Educacional Especializado têm atendimento por profissionais especializados, no contraturno da escola, de forma individual ou em pequenos grupos. Segundo ela, todas as escolas são atendidas por profissionais de Educação com pós-graduação em Atendimento Educacional Especializada, conforme prevê a legislação, sendo que a quantidade de profissionais e a carga horária é equivalente à necessidade de cada escola.
De acordo com Sandra, o professor especialista pesquisa, estuda, planeja intervenções individualizadas, bem como colabora com o professor da turma para as adaptações e flexibilizações curriculares necessárias. Ainda assim, ela assume que situações de diversidade costumam colocar o sistema à prova, motivando adequações.
— A diversidade de situações tem nos desafiado, cotidianamente, a ultrapassar nossas certezas. A rede municipal de educação é vanguarda em muitos processos inclusivos, contudo, temos certeza que a cada dia podemos avançar cada vez mais — afirma a secretária.
Por que olhar para isso?

Psicóloga com mais de 20 anos de atendimento a pessoas superdotadas em Porto Alegre e com pesquisa acadêmica na área, Larice Maria Bonato Germani foi a profissional que confirmou a condição de Arthur a partir da identificação dos comportamentos de superdotação por ele apresentados. As informações obtidas na avaliação, segundo ela, possibilitam a compreensão e conclusão das condições cognitivas, emocionais, sociais e psicomotoras, que são diferentes para cada indivíduo, e que possibilitam um melhor direcionamento das ações a serem seguidas no contexto familiar, escolar e social.
— Assim como o apoio da família e das pessoas que estejam por perto, as instituições de ensino precisam estar capacitadas e instrumentalizadas para, efetivamente, realizarem a inclusão, que não é somente pedagógica, mas também deve considerar a interação social deste aluno — afirma a psicóloga, que presta assessoria e capacitação a escolas na área, além de ser sócia-fundadora do Conselho Brasileiro para Superdotaçao (ConBRASD) e membro do Conselho Técnico da Associação Gaúcha de Apoio às Altas Habilidades/Superdotação (AGAAHSD).
— Quando a superdotação não é identificada pode acabar gerando um sofrimento à pessoa no sentido da exclusão. Em outros casos, como o da escola, pode levar o aluno a não querer mais frequentar as aulas, por se ver entediado e até impaciente diante de conteúdos que ele já domina. Isso tudo pode causar um sofrimento emocional e desencadear outras complicações ao longo da vida — complementa a especialista.
Além disso, ela explica que a identificação de um superdotado trata-se de um processo contínuo, que deve ser iniciado o mais cedo possível, justamente para favorecer o pleno desenvolvimento dos comportamentos detectados por meio dos indicadores utilizados na avaliação, paralelo ao desenvolvimento social e emocional.
Saiba como é feita a identificação
Segundo Larice, a superdotação é identificada a partir de uma avaliação que deve privilegiar uma visão global da pessoa e dos contextos nos quais ela está inserida, observando se ela apresenta um desenvolvimento acima da média quando comparada com as demais pessoas daquela mesma faixa de desenvolvimento; elevados níveis de aprofundamento, motivação e persistência sobre alguma ou mais áreas de interesse; além da criatividade aplicada à resolução de problemas. Além disso, a avaliação também detecta em quais inteligências a pessoa se desenvolve, podendo ser em apenas uma ou diversas delas, algo que varia a cada indivíduo. Nesta etapa, Larice se baseia na Teoria das Inteligências Múltiplas, criada pelo psicólogo Howard Gardner, compreendendo oito tipos de inteligência: linguística, lógico-matemática, corporal/cinestésica, espacial, musical, interpessoal, intrapessoal e naturalista.
A especialista ressalta que as características podem variar a cada pessoa e que a identificação só pode ser feita a partir da avaliação de um profissional qualificado, mas que, em geral, crianças superdotadas apresentam as seguintes características:
:: Facilidade e rapidez para aprendizagem, em uma ou mais áreas do saber ou fazer.
:: Costumam fazer perguntas que não são próprias para sua idade, questionamentos inusitados.
:: Possuem bom vocabulário e facilidade para articular palavras desde cedo.
:: São curiosas e, por isso, tendem a ser muito questionadoras.
:: Têm ideias originais, criatividade, fluência de ideias e são bastante imaginativas.
:: Pouca tolerância com falhas.
:: Podem apresentar conduta irrequieta, algumas vezes confundidas com hiperatividade.
:: Apresentam pensamento divergente do convencional, inovador.
:: Preferem, às vezes, se relacionar com crianças mais velhas ou mais novas.
:: Na escola, costumam optar por atividades individuais.
:: Entediadas com a rotina, estão sempre em busca de novos desafios.
:: São persistentes em suas ideias e interesses e, muitas vezes, autodidatas.
:: Apresentam profunda sensibilidade e intensidade emocional.
:: Boa memória e capacidade de compreensão.
:: Bom senso de humor.
:: Alta capacidade de julgamento em relação a si e aos demais.
:: Senso de justiça e forte ligação com questões filosóficas e sociais.
:: Habilidades na resolução de problemas.
:: Costumam descuidar da caligrafia.



