
A contradição da espera de uma nova vida sendo gerada e o medo da morte que surge após um diagnóstico de câncer é realidade para 15 ou 20 mulheres, a cada 100 mil, que engravidam no mundo inteiro. Publicado pela Universidade da Califórnia, o índice aponta, ainda, que 20% dos casos ocorrem em mulheres com menos de 30 anos. Mesmo com o avanço das tecnologias de diagnóstico e tratamento, enfrentar um câncer gestacional ainda é muito desafiador — tanto para a mãe, quanto para a equipe médica — mas torna a vitória da vida sobre a morte um motivo a ser duplamente comemorado.
Entrar na sala de cirurgia para o procedimento de mamoplastia (remoção da mama) aos quatro meses de gestação foi o momento mais difícil para a caxiense Caroline Florian da Silva. Diagnosticada com câncer de mama aos 35 anos, após detectar um nódulo durante a tão planejada gravidez, ela se viu dando início a um tratamento que, para salvar a sua vida, poderia colocar em risco a de sua filha. Isso foi em setembro de 2016. Quase quatro anos depois, os reluzentes olhos azuis e toda sapequice da pequena Laura Luiza Girardi anunciam o desfecho dessa história.
A imagem da mulher grávida e sem cabelos — pelo efeito da quimioterapia — não é comum, mas faz parte das memórias registradas em fotografias que Caroline guarda com carinho. Foram quatro sessões de quimioterapia com a Laura ainda na barriga.

— Perguntei pro médico se podia esperar e ele disse que não porque o meu tumor era muito agressivo. A maior preocupação era ela, porque eu iria fazer um tratamento que exige muitos medicamentos fortes, sendo que quando se está grávida não se pode nem tomar um paracetamol — lembra.
Os preparativos comuns a toda mãe que espera por um filho acabaram sendo deixados de lado durante o tratamento. Entretanto, Caroline conta que voltou seu olhar para a cura que tanto desejava em nome da filha, que acabou nascendo prematuramente, de 33 semanas, com a saúde intacta.
— Quando fazia as sessões com ela não tinha nenhum tipo de reação, acho que ela me protegia. Depois, segui com o tratamento e comecei a sentir os efeitos da quimioterapia, mas nunca pensei em chorar ou ficar deitada, eu tinha algo mais importante a fazer que era cuidar dela. Mesmo me sentindo mal, não queria perder esses momentos.

Além da importante rede de apoio formada pelas voluntárias do Instituto Amigas de Peito e Alma, do qual Caroline hoje faz parte, compartilhando sua história com outras mulheres que passam pelo tratamento de câncer, ela acredita que a própria maternidade tenha sido fundamental para superar a doença.
— Se tivesse câncer em outro momento da minha vida encararia diferente, com certeza. Eu precisava viver por causa da minha filha. Se eu não tivesse ela junto não sei se eu teria enfrentado uma quimioterapia, não sei se estaria viva.
O desafio do tratamento
Com 20 anos de medicina e 15 de oncologia clínica, Caroline foi uma das três pacientes com câncer gestacional que a médica caxiense Rita de Cassia Costamilan atendeu até hoje. A especialista afirma que o aumento de casos de câncer de mama e a opção pela gravidez cada vez mais tardia (a primeira gravidez após os 30 anos é um fator de risco) tendem a aumentar os índices de câncer associado à gestação, que ainda representam um desafio para a medicina.

— A oncologia mudou muito nos últimos anos, com cirurgias menos agressivas, novos tratamentos pra aumentar a chance curativa, mas durante a gravidez temos limitações do tratamento. Podemos fazer cirurgia, radioterapia não é permitida e quimioterapia somente a partir do quarto mês, caso contrário, podemos ter má formação do feto e alterações que podem ser mais graves.
A oncologista clínica relata que, por mais que não seja a responsável pelo surgimento do tumor, a gravidez, em muitos casos, pode ser um estímulo para o seu crescimento, podendo ainda dificultar o diagnóstico precoce, uma vez que exames de rastreamento não costumam (e alguns sequer podem) ser feitos durante a gestação.
— Muitas vezes, a mulher tem uma neoplasia (formação de tumor) inicial e a explosão hormonal da gravidez pode ser um estímulo para o crescimento. Também não tem idade para o câncer aparecer, por isso a importância da mulher se conhecer, fazer apalpação, autoexame, uma vez por mês e, se perceber alguma coisa diferente, mesmo estando grávida, deve procurar o médico e fazer os exames para descartar que a gente tenha um problema ainda maior.
SAIBA QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS FATORES DE RISCO
:: Idade acima de 40 anos
:: Antecedente ou histórico familiar de câncer de mama
:: Gravidez após os 30 anos, principalmente se for a primeira gestação
:: Início precoce da menstruação e menopausa tardia
:: Obesidade
:: Alta ingestão de álcool e gordura
:: Uso de hormônios
Fonte: Vero Dellaudo - Diagnóstico por Imagem
Leia também
"Temos que buscar os nossos direitos", afirma voluntária de ONG de Caxias do Sul que enfrentou o câncer de mama
"Confio no poder das minhas escolhas para a cura", diz paciente em tratamento contra o câncer de mama em Bento Gonçalves
"Causa medo, mas não é sentença de morte", afirma caxiense que venceu o câncer de mama

