
Um ex-dirigente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio Grande do Sul foi denunciado pelo Ministério Público Estadual por suspeita de desviar mais de R$ 8 milhões da entidade. Segundo o MP, os recursos viriam de direitos de transmissão de jogos de futebol e deveriam ter sido distribuídos aos jogadores de todas as divisões.
O promotor Flávio Duarte afirma que Jorge Ivo Amaral da Silva, goleiro do Grêmio nos anos 1970 e 1980, teria desviado mais de R$ 8 milhões do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio Grande do Sul quando era vice-presidente. Hoje, ele é auditor do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), a corte máxima que julga processos disciplinares do futebol brasileiro.
A investigação aponta que os supostos desvios teriam ocorrido entre 2015 e 2020. Os investigadores dizem que a maior parte das mais de 500 transferências bancárias de até R$ 70 mil iriam direto pra conta do auditor e da empresa da qual é sócio.
— O que era importante é que o denunciado, na condição de vice-presidente do Sindicato Estadual, tinha acesso às contas bancárias do Sindicato e fazia uma série de operações, muitas vezes mais de uma por dia, em benefício dele, na empresa dele — disse o promotor de justiça Flávio Duarte.
Conforme a investigação, outra parte do dinheiro — R$ 2,3 milhões — teria sido transferida para outro Sindicato de Atletas Profissionais de Porto alegre — presidido por Jorge Ivo Amaral da Silva. Ainda segundo o MP, serviu pra pagar salários anuais de até R$ 800 mil que ele se auto concedia. Uma forma de lavar o dinheiro supostamente desviado, conforme o promotor:
— Ele depois recolhia esse mesmo valor que foi depositado pelo Sindicato Estadual no Municipal em prol dele a título de salário. Não teria motivo, (o sindicato) não tinha atividade alguma, não tinha funcionário, estava inativo.
O Ministério Público pede a suspensão de todas as atividades sindicais de Jorge Ivo Amaral da Silva. A atual gestão do Sindicato dos Atletas do Estado cobra na justiça os valores supostamente desviados pelo ex-vice-presidente. E diz que o dinheiro fez falta durante a pandemia.
— Em um momento no auge da pandemia, muitos atletas foram atingidos, principalmente aqueles que estavam disputando a Divisão de Acesso. Aproximadamente 416 atletas ficaram naquele momento sem competir e, consequentemente, sem trabalho. Teve muitas consequências que o Sindicato poderia ter ajudado na parte assistencial, na parte que mais atinge o atleta que está na situação de desemprego. Infelizmente a gente não conseguiu e está limitado para atuar na assistência pra quem mais precisa — afirma Gabriel Schacht, presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio Grande do Sul.
Pelas normas, o dinheiro supostamente desviado do Sindicato deveria ser repassado aos jogadores de futebol profissional pelo chamado direito de arena. Os recursos têm origem no pagamento feito aos clubes pelas emissoras de TV, em troca do direito de transmissão das partidas. Esses repasses vão de pequenas quantias até valores maiores, como os R$ 66 mil que o Luan, ex-jogador do Grêmio, deixou de receber. O valor agora foi quitado pela atual gestão.
O presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado diz que o cargo de Jorge Ivo Amaral da Silva no Superior Tribunal de Justiça Desportiva não é compatível com a denúncia feita contra ele.
— Totalmente descabido. Comprovadamente uma pessoa que lesou os atletas está nesse momento julgando atletas nesse órgão superior da Justiça Desportiva do nosso país — afirma Schacht.
Contraponto
O STJD disse que ainda não foi comunicado da denúncia do Ministério Público. Jorge Ivo Amaral da Silva não quis gravar entrevista e pediu que procurássemos o advogado dele.
— Nós tomamos informação através desta reportagem sobre o ambiente de uma denúncia criminal contra o senhor Jorge Ivo, então é importante que tenhamos acesso aos termos desta denuncia para que, conforme a narrativa, possamos nos defender. De antemão, posso afirmar que, observando os expedientes da investigação, se admite a existência de muitos mitos, muitas ideias que ainda não estão firmadas na lógica dos acontecimentos. Sobre este tema, o Jorge Ivo terá condições de explicar e esclarecer todos os aspectos — afirma o advogado Lúcio de Constantino.


