
– Putz: o Grêmio vai pegar o River num mata-mata da Libertadores.
A frase dita por um amigo meu traduz essa mistura de otimismo exacerbado e de angústia debilitante que caracteriza alguns de nós, os que vestem azul, preto e branco aqui no Estado. Não ganhamos um título importante há quase 15 anos, um peso que, a cada ano, parece agrilhoar as pernas dos jogadores quando chegam perto de quebrar essa maldição, justamente porque todos os que são criados ou desembarcam, seja no Olímpico, seja na Arena, sabem que precisam quebrá-la para inscrever seus nomes na história (a tal angústia debilitante); mas (e aqui vem o tal otimismo exacerbado), mesmo com esse passado recente de derrotas, mesmo que nenhum craque tenha sido contratado para a principal competição da temporada, mesmo que os rivais da primeira fase não sejam bolinho, confiamos no sucesso tricolor.
Ou confiávamos.
Pois a frase do meu amigo traduz outra característica nossa: o temor de encontrar D'Alessandro pela frente.
Esse argentino xarope é – corrigindo: era (pontos de exclamação para comemorar) – meu vilão preferido. Como Shakespeare e os gibis do Batman nos ensinaram, ojeriza e fascínio podem andar lado a lado. Iago e o Coringa são personagens perversos, mas também são dotados de encanto. Talvez porque eles se permitem fazer coisas que nós apenas sonhamos em fazer.
D'Alessandro fez coisas que nós apenas sonhamos em fazer. Foi hegemônico em Gre-Nais – venceu 13, empatou nove e perdeu apenas cinco, com oito gols marcados. Ergueu títulos – Libertadores, Sul-Americana, Recopa. Como Iago e o Coringa, assumia o papel de vilão – tocava flauta, garganteava a superioridade em clássicos, botava as mãos no caixão gremista que os colorados levam aos estádios.
Iago instigou Otelo a desconfiar de Desdêmona. D'Alessandro fez o mesmo conosco em relação a Victor – estávamos diante de um baita goleiro, mas, a cada Gre-Nal em que o argentino roubava a cena, colocávamos sob suspeita as virtudes de Victor.
O Coringa não seguia regras – criava suas próprias regras. Mais ou menos como D'Alessandro fazia em campo (e quantas vezes nós desejamos ter um D'Alessandro no nosso lado do campo, um cara que peitasse o árbitro, comprasse briga com o adversário, inflamasse a torcida).
Agora, vai, some daqui, e que nunca mais um pé esquerdo como o teu pise a grama do Beira-Rio, que nunca mais se escute "é campeão!" de uma voz esganiçada como a tua, que nunca mais apareça por aquelas bandas da Zona Sul um camisa 10 com tanta gana de vencer.
Adeus, meu velho inimigo.
*ZHESPORTES
