
Ana Paula Renault, Marcos Harter e Tessália. Quem acompanha o Big Brother Brasil, mesmo que superficialmente, conhece o nome desses três participantes, que ficaram marcados como vilões na história do programa. No entanto, nesta reta final, a sensação é de que o BBB 20 não tem ninguém com vilania no sangue, tampouco um mocinho predestinado a levar R$ 1,5 milhão na próxima segunda-feira (27).
Como nos outros anos, contudo, a edição tem um papel muito importante para determinar os personagens dentro do reality. Valmir Moratelli, pesquisador de teledramaturgia e doutorando pela PUC-Rio, aponta que esse é um dos trunfos do programa:
— O Big Brother é uma ficção com contornos de realidade, expressões, emoções reais. (…) É claro que não é novela clássica, porque não tem o roteiro de um autor escrito ali, mas o conjunto de edição que promove esse lado bom e mal é algo que existe nos folhetins. É preciso se apaixonar pelo mocinho, torcer por eles e odiar alguém.
Para o especialista em personal branding (gestão estratégica de marca pessoal) Higor Gonçalves, essa lógica foi perdendo força com o avançar das semanas dentro do programa. Na novela Amor de Mãe, por exemplo, a autora Manuela Dias defende que o mundo não é feito de vilões e mocinhos. Isso aconteceu também no reality.
— As duas naturezas, de vilão e mocinho, convivem dentro de todo mundo. Todo mundo tem um potencial de ter atitudes honradas e louváveis — reforça Gonçalves.
Isso ficou visível no discurso de eliminação de Gizelly, na semana passada. Leifert comparou a postura da advogada, que colocava sua personalidade “nos lados bom e ruim da força”, fazendo referência a Star Wars.
— A responsabilidade é sua, de colocar a energia de um lado ou de outro. A pessoa que sai hoje tem muita força, mas muita força. Quando ela colocou do lado da luz, brilhou demais. Mas quando colocou no sombrio, ficava escuro e incomodava um pouco — pontuou o apresentador.
Vilões?
O clássico vilão, o chamado antagonista da trama, é aquele que acaba indo contra o lado do bem. Nesta edição em específico, um dos poucos momentos em que isto ficou visível foi quando os homens planejaram o chamado "teste de fidelidade". Assim, brothers como Hadson, Gallina, Prior e Chumbo podem ser considerados os vilões deste ano.
O próprio programa mostrou, em transmissão na Globo, Lucas Gallina mentindo sobre a existência de tal estratégia, alimentando sua postura maldosa.
— Foi uma bola fora deles e a edição enfatizou isso, uma ideia de jerico. Eles apenas se esqueceram que estão sempre sendo vigiados — destaca Gonçalves, entre risos.
Mesmo assim, aos poucos, os vilões conseguem transformar isso em vitimismo. Moratelli reforça também que este aspecto é outro indício de que a narrativa do reality se assemelha às novelas:
— As pessoas que passam como vítimas acabam ganhando a aceitação do público e qualquer rejeição cai por terra. A vítima, o vilão que acaba isolado e sofredor, tende a ser perdoado no final. Aqui pode ser o Babu e, no meio caminho, podia ter sido o Prior, em um discurso de “ninguém me quer, ninguém gosta de mim”. Quase deu certo para o Prior e talvez funcione para o Babu.
Mocinhas, mas nem tanto

Por outro lado, não vemos mocinhas dentro do programa agora em 2020. No BBB 18, por exemplo, a acreana Gleici Damasceno representava esta figura, liderando contra as estratégias de Diego e Patrícia – e venceu aquela edição.
Diante do "teste de fidelidade", as mulheres peitaram o plano, que caiu por terra logo que Marcela descobriu tudo e avisou as sisters. Assim, elas ganharam força dentro do programa, representando o bem enfrentando o mal.
— Os perfis delas são interessantes, porque cada uma desenvolve um arquétipo feminino distinto — reforça Moratelli. — Elas são muito fortes, com opinião, e ajudaram a reforçar a discussão do empoderamento, que cresceu nos últimos anos.
Gonçalves concorda que toda a ala feminina é forte dentro da casa. Entre as participantes restantes, no entanto, ele acredita que Rafa Kalimann é a que mais se aproxima de uma mocinha clássica de novela das nove. O especialista lembra que a influencer já se envolveu em brigas com outras personalidades nas redes e que Rafa deve ter visto, no BBB, uma chance de limpar a sua imagem.
— Ela não é essa santa que ela projeta, mas ela viu no reality a possibilidade de aumentar o valor de mercado dela, para poder cobrar mais em seus posts — aposta Gonçalves. — Ela vende a imagem de boa samaritana. E, sinceramente, não existe alguém perfeito, nenhum ser humano é perfeito. Ao menos, essa estratégia tem surtido efeito.



