
Eduardo Coutinho e Eduardo Escorel apresentaram em Cabra Marcado para Morrer uma das mais felizes parcerias do cinema brasileiro. A perseverança do diretor em levar adiante como documentário, a partir de 1981, o filme de ficção interrompido pelo golpe militar de 1964 foi abraçada pelo montador com soluções engenhosas. Escorel se tornou um dos mais destacados profissionais do cinema nacional assinando a edição de cineastas como Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman.
- Eu conhecia o Coutinho muito bem. Ele escreveu comigo o roteiro do primeiro filme de ficção que dirigi, Lição de Amor (1975), adaptação do romance do Mário de Andrade. Tínhamos uma relação de trabalho e amizade.
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Como diretor, Escorel realizou os documentários Paulo Moura - Alma Brasileira (2013) e O Tempo e o Lugar (2008). Um de seus mais recentes trabalhos é Posfácio - Imagens do Inconsciente, montagem de um filme inacabado de Hirszman - trata-se de uma entrevista com a psiquiatra brasileira Nise da Silveira, aluna de Carl Jung.
- Ele fez a entrevista em 1986 e faleceu em 1987. Se não for a única, é uma da das raríssimas entrevistas filmadas dela. Vai ser exibido no (festival) É Tudo Verdade, agora em abril.
Confira trechos da entrevista de Escorel a ZH
Zero Hora - Eduardo Coutinho aprimorou a técnica de entrevista da qual ele se tornaria mestre, próximo do entrevistado e sem receio de aparecer em quadro. Em Cabra Marcado para Morrer ele parecia meio inseguro nessa abordagem. Como o senhor acompanhou essa evolução?
Escorel - Ele mesmo dizia que depoimento a gente dá à polícia. O Coutinho não gostava de chamar de entrevista, chamava de conversa. Na época da segunda filmagem do Cabra..., de 1981 a 1983, ele ainda não tinha desenvolvido plenamente essa aptidão. Vai fazer isso a partir do Santo Forte (1999), pouco a pouco. No Cabra... tem a cena em que ele entrevista o camponês João Mariano. O Coutinho está muito nervoso porque o camponês não quer falar, está relutante. E acaba interrompendo a fala do entrevistado. Naquele momento o Coutinho ainda estava desenvolvendo a aptidão para conversar com as pessoas.
ZH - O Coutinho dizia ser esta interrupção um dos grandes arrependimentos da vida dele. Seria uma ansiedade dos tempos de repórter?
Escorel - Exato. Depois, ele jamais interromperia um filmagem ou gravação daquela forma. Ele dizia que muita gente acreditava que a relutância do personagem em falar veio da interrupção que ele fez.
ZH - A montagem do Cabra... parece complexa diante da quantidade e diversidade de material que você tinha em mãos. Foi complicado encontrar a espinha narrativa do documentário?
Escorel - Não havia tanto material assim, sobretudo se comparado com o que se costuma ter hoje. Tinha entre 12 e 13 horas de material, do qual tiramos as duas horas de duração do filme. É uma proporção pequena para o documentário. O filme tem vários tempos, lugares diferentes e uma galeria de personagens. Tem um estrutura narrativa relativamente complexa, mas que foi possível resolver com o objetivo de torná-lo o mais simples e compreensível possível. O fato de o Coutinho ter se disposto a projetar as imagens de 1962 e 1964, tanto para Elizabeth e seus filhos quanto para os camponeses da Galileia, deu a imagem que abre e pontua o filme. Essa imagem serviu de espinha dorsal e permitiu o cruzamento de tempos e personagens diferentes. O material de arquivo foi sendo conseguido aos poucos. O Coutinho ainda trabalhava no Globo Repórter e fazia outras coisas. O filme foi sendo montado aos poucos ao longo de dois, três anos.
ZH - Uma das características aperfeiçoadas por Coutinho também trabalhar com os chamados tempos mortos, aqueles momentos que antecedem o início da filmagem, com ele chegando de surpresa para pegar o entrevistado desarmado. É um estilo que traz dificuldades para o montador?
Escorel - Não chega a criar dificuldade. Muitos documentaristas vêm desenvolvendo essa técnica, a de dar atenção ao que normalmente não é filmado nem gravado. E são muitas vezes momentos interessantes, ricos, preciosos. Hoje em dia é possível isso. Na época da película, não, porque era muito caro. Antigamente, a gente usava a expressão "limpar o material", tiras esses chamados tempos mortos. Nos últimos anos, descobrimos e nos convencemos de que essa limpeza pode eliminar as melhores coisas do material. É preciso estar muito atento para esses momentos que, aparentemente, não havia a intenção de se usar.
ZH - Um das questões mais discutidas sobre o Cabra... diz respeito ao seu final. Após a sequência em que Coutinho se despede de Elizabeth Teixeira, com ela retomando o discurso político inflamado, segue-se a breve cena que informa da morte do camponês João Virgínio. Essa opção de desfecho foi dissecada pelo crítico Jean-Claude Bernardet em um celebre artigo de 1985, no qual ele contrapõe o desfecho "para cima" com Elizabeth com o "para baixo" que foi usado. Qual sua lembrança desta opção de desfecho?
Escorel - Quando este assunto voltou a ser discutido, com o lançamento, cópia restaurada do Cabra... (em 2012), escrevi um artigo na (revista) Piauí. Eu o Coutinho nunca conseguimos chegar a um acordo sobre isso. Ele, a meu ver, gostou da interpretação do Jean-Claude e passou considerar que esse final foi feito deliberadamente, para não acabar o filme "para cima". Mesmo quando eu lembrava disso de um outra forma, ele continuou discordando. Minha lembrança é a de termos discutido em que momento deveria ser informado ao publico que o João Virgínio tinha morrido logo depois da filmagem. Lembro de usar o argumento de que, se isso fosse informado durante o filme, depois da última sequência em que o João Virgínio aparece, poderia ser um fator de perturbação ao espectador. Porque, além de todas as idas e vindas no tempo, teria no meio do filme a informação de uma coisa que aconteceu depois da filmagem, uma espécie de projeção do futuro. O espectador teria um informação que a equipe de filmagem e as pessoas filmadas não tinham. Eu lembro desse como um argumento muito forte para deixar a morte dele para o fim, dentro de uma certa cronologia. Acho a leitura do Jean-Claude interessante, que dá ao filme um final menos heroico, mas eu não consigo me convencer de que tenhamos feito isso de forma pensada. Às vezes, a gente faz coisas por razões corriqueira e elas ganham outras interpretações. Fizemos uma opção corriqueira de montagem, não lembro de termos discutido a opção de colocar o filme para cima ou para baixo. Até porque o plano do Coutinho indo embora, se despedindo da Elizabeth, foi evidentemente filmado com pleno conhecimento de causa dele para ser o final. Assim como o plano que abre o filme, no qual se acende os refletores e se vê a projeção sendo preparada, foi feito pensado para ser o primeiro plano.



