
Outro dia, comentei aqui sobre o prazer que sinto ao caminhar pelas ruas, especialmente da Cidade Baixa, o bairro mais antigo da Capital depois do Centro Histórico. Por essas bandas, a paisagem sugere lembranças e revela significados, como se contasse histórias ao pé do ouvido.

É como se a arquitetura e a história andassem de mãos dadas, como mostra o livro Porto Alegre, Cidade Baixa: Um Bairro que Contém seu Passado (Editora Marcavisual), de Renato Gama Menegotto. A obra lança luz sobre edificações erguidas nas primeiras décadas do século passado por arquitetos, engenheiros e “práticos com licença para construir” (profissionais sem formação acadêmica, figuras bastante comuns à época). Uma das constatações do trabalho é que, mesmo com problemas de conservação, esse conjunto de casas dos anos 1920, 1930 e 1940 ainda preserva sua identidade.
— Apesar das perdas ocorridas principalmente a partir da segunda metade do século 20, nota-se algo que histórica e articuladamente se conserva, conferindo uma condição de patrimônio cultural edificado ao bairro — afirma Menegotto, professor aposentado e um dos fundadores do curso de Arquitetura da PUCRS.
Um achado da pesquisa é reconstituir os elos de sociabilidade do bairro histórico a partir de suas características arquitetônicas e urbanísticas. Exemplo? Uma das peculiaridades das casinhas antigas é o plano das fachadas colado ao passeio público, composição que diz muito acerca da relação estabelecida ali entre o âmbito público e o privado. Segundo Menegotto, esse cenário estimula desde cumprimentos e acenos de saudação até breves paradas para uma boa prosa entre moradores e transeuntes, o que faz a gente pensar em que medida a configuração urbanística preserva (ou dificulta) os hábitos de convivência social.
Pena que, já há algumas décadas, essa escala de sociabilidade esteja sendo deixada de lado. Não que a paisagem urbana seja intocável, como se fosse um museu a céu aberto. Nada disso. Afinal de contas, preservar a memória arquitetônica não significa resistir à passagem do tempo, tentando inutilmente trazer o passado de volta até o presente.
— A questão não é fazer ou não fazer, e sim como fazer. A cidade pode evoluir sem perder a essência histórica, com sobreposições graduais, reveladoras da vida e do tempo — afirma Menegotto, citando o Centro Comercial Olaria como exemplo de construção que concilia patrimônio histórico e vida contemporânea.
Porto Alegre, Cidade Baixa: Um Bairro que Contém seu Passado pode ser adquirido nas livrarias Bamboletras (na Capital) e Letras & Cia (em Novo Hamburgo) ou por e-mail (livro.cidadebaixa@gmail.com).




