
A conjugação de esforços de uma jovem idealista de 18 anos, aliado ao apoio do Poder Judiciário e da sociedade civil, promoveram, neste sábado (23), uma iniciativa de impulso à adoção de crianças e adolescentes que vivem em casas de passagem e abrigos de Porto Alegre.
O projeto, batizado "Missão Diversão", reuniu 30 meninos e meninas órfãos e, no mesmo evento, os colocou em contato com 24 adultos que já cumpriram requisitos legais e estão aptos a concretizarem a adoção. Criadora da ação, Marcella Cesa Bertoluci explica que a intenção é aproximar, em um ambiente acolhedor, os interessados daqueles que aguardam pela chance de ter uma família.
Com supervisão de técnicos e magistrados do 2º Juizado da Infância e da Juventude, os adultos tiveram oportunidade de conhecer as crianças, conversar, trocar impressões e gestos de carinho como um abraço ou um sorriso. Enquanto a sensibilização ocorria, havia programação de brincadeiras, jogos e uma mesa farta de comes e bebes. O Colégio Farroupilha, onde Marcella estudou, abriu suas dependências para a realização. Ex-colegas da jovem apareceram para ajudar, o Sicredi ofereceu camisas estilizadas do Missão Diversão, a Super Labs doou sucos e o Bar do Zé, que atende ao público da escola, entrou com salgados e bolos. No clima colaborativo, os próprios adotantes levaram os doces.
— Foi bom porque pensaram em nós. Gostei das brincadeiras e da comida — diz N. S., 13 anos, que vive em um abrigo vinculado à Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc) enquanto aguarda por uma família.
A idade de N. S. – o nome foi preservado em respeito ao Estatuto da Criança e do adolescente (ECA) – revela uma característica marcante do Missão Diversão: impulsionar a adoção de meninos e meninas entre oito e 17 anos, alguns deles com demandas específicas de saúde física ou mental, que tradicionalmente não estão entre as preferências de quem se habilita.
— São casos de difícil adoção, eles são mais velhos. Queremos mostrar que existem esses jovens. É uma nova visão. Antes, eles eram escondidos nas casas de passagem e abrigos — diz a juíza Mirtes Blum, do 2º Juizado da Infância e da Juventude, explicando a rejeição que atinge o grupo.
— Criança com até oito anos, sem problema de saúde, a gente consegue encontrar adotante. Acima de oito anos, mesmo para os saudáveis, já se torna difícil — esmiúça Mirtes.
Atualmente, em todo o Brasil, há 9.386 crianças e jovens cadastrados para a adoção, sendo que 5.964 estão na faixa etária de oito a 17 anos, público atendido pelo Missão Diversão. Os números são do Cadastro Nacional de Adoção (CNA). Isso significa que 61% dos inscritos estão no grupo dos que têm mais dificuldade para encontrar um lar.
A iniciativa de Marcella produziu resultados na tentativa de amenizar o quadro. Nas três edições anteriores do evento, cinco adoções foram realizadas. E, neste sábado, houve duas manifestações formais de interesse. Agora, os adotantes irão iniciar um processo de aproximação, supervisionado pela Justiça e que costuma se estender por cerca de 90 dias, período em que ocorrerão atividades de adaptação, como passeios e saídas de fim de semana. Mirtes explica que os jovens, embora estejam aptos a serem adotados, também precisam se habituar com as mudanças: — Muitos têm apego a funcionários dos abrigos em que vivem, são acostumados a conviver com várias crianças no mesmo ambiente, e daqui a pouco eles estão em casa com um ou dois adultos.
Casados há 20 anos e sem filhos, Juareaz Pluceno e Terezinha Scheffer, 58 e 60 anos, foram "se aproximar da ideia" de concretizar a adoção.
— Preencher a própria existência, trocar aprendizado, cuidar, formar família — diz Pluceno, listando as razões que o movem neste caminho.
Marcella já planeja a próxima edição do Missão Diversão, prevista para acontecer no segundo semestre de 2019.
— Hoje posso dizer que essa causa virou o propósito da minha vida — diz a mentora.
Projeto nasceu em atividade da escola

Natural de Porto Alegre, Marcella Cesa Bertoluci conta que a ideia de criar o Missão Diversão surgiu há dois anos, quando um programa desenvolvido no Colégio Farroupilha, onde ela estudava, incentivou os alunos a criarem os seus projetos sociais, mas com enfoque inovador.
— Quando a gente pensou em quem ajudar, surgiu a ideia de olhar para as crianças. Eu nunca tinha ouvido falar muito de uma proposta focada na adoção. Ouvia sobre asilos, amparo aos refugiados, mas não adoção — relata a jovem.
A vida de Marcella é cheia de compromissos. Ela é estudante de Administração com ênfase em Gestão para Inovação e Liderança na Unisinos, bolsista de iniciação científica e voluntária da Junior Achievement, organização que incentiva o empreendedorismo. Filha de um médico e de uma nutricionista, é a caçula da família, tendo duas irmãs. Quando sobra um tempo, curte música e toca piano, mas a retórica de Marcella dá pistas de que a prioridade está no anseio de expandir suas atividades profissionais e sociais.
— Tenho várias ideias para avançar com o projeto (Missão Diversão), levar ele para o Brasil inteiro — diz ela, que também faz planos para exercer sua veia empreendedora.


