
Quem primeiro balançou o galho para derrubar o presidente da Petrobras, Pedro Parente, foram pelo menos três ministros do governo Temer, Eliseu Padilha, Carlos Marun e Moreira Franco, quando reclamaram da "falta de previsibilidade" no reajuste dos preços dos combustíveis. Ainda era o início da greve dos caminhoneiros e ninguém no Planalto imaginava que tomasse as proporções que tomou. Os três ministros, fazendo coro a deputados e senadores do MDB, reconheciam ali que os caminhoneiros tinham razão quando reclamavam dos ajustes quase diários, ditado pela variação do dólar e do preço do barril no mercado internacional.
Acossado pela pressão dos caminhoneiros, o governo tirou a escada de Parente. Moreira Franco sumiu. Padilha assumiu a linha de frente da negociação com os grevistas. O discurso oficial era de que "a política de preços da Petrobras não muda". Mudou na prática, até porque o governo não tinha saída: ou cedia ou a greve se estenderia com risco de provocar convulsão social pelo desabastecimento que se alastrava. O governo cedeu, não apenas reduzindo o preço do diesel, com a retirada da Cide e do PIS/Cofins, como garantindo o congelamento do preço por 60 dias e reajustes mensais a partir do final desse prazo.
Mesmo com a garantia de que a Petrobras seria ressarcida dos prejuízos com recursos do orçamento, Parente ficou desautorizado. A independência prometida quando Temer o convidou para assumir o cargo foi substituída pela interferência política. De executivo genial, passou a ser tratado como vilão da crise com os caminhoneiros. Para piorar a situação, os petroleiros decretaram greve de 72 horas, tendo como principal reivindicação a queda de Parente.
Os petroleiros, apoiados pela Central Única dos Trabalhadores e por partidos de esquerda, abominam a política de venda de ativos adotada pelo executivo que Temer foi buscar fora da empresa e das hostes políticas com o pedido para que gerisse a Petrobras com as regras de governança do setor privado. Parente caiu em desgraça com a esquerda e com parlamentares da base ao defender o desmonte do polo naval de Rio Grande com o argumento de que a Petrobras não tem papel de assistente social e que, portanto, iria encomendar plataformas de petróleo onde o preço fosse melhor.
Na carta de demissão entregue ao presidente Michel Temer nesta sexta-feira (1) (leia íntegra abaixo), fica evidente que a decisão estava tomada há vários dias dias. Não é texto escrito de afogadilho. Nas linhas e nas entrelinhas, o executivo defende a política que implantou, destaca os acertos de outras medidas que tiraram a empresa do vermelho e sugere que o sucessor siga na mesma linha.
Parente é um executivo disputado no mercado. Não precisa de emprego na Petrobras, mas tinha a recuperação da empresa como um desafio pessoal. Se chegasse ao final do ano com essa conquista no currículo, sairia do governo com o passe ainda mais valorizado. Foi atropelado pela greve e pelas injunções políticas.
O maior indício de que a saída da Petrobras não manchou sua reputação de gerente foi a alta das ações da BRF, empresa da qual é presidente do Conselho de Administração, no mesmo momento em que os papeis da Petrobras despencavam dentro e fora do Brasil.
Petroleiros e caminhoneiros celebraram a queda do homem que virou o vilão da crise. O que será da Petrobras a partir de agora é um ponto de interrogação para acionistas, empregados da estatal, governo e sociedade. Também não está claro por que Parente não esperou o fechamento do mercado financeiro para anunciar a demissão, nem por que o governo não pediu que esperasse algumas horas, para evitar a queda nas ações.
Leia a íntegra da carta de Pedro Parente a Michel Temer:
"Excelentíssimo Senhor Presidente da República,
Quando Vossa Excelência me estendeu o honroso convite para ser presidente da Petrobras, conversamos longamente sobre a minha visão de como poderia trabalhar para recuperar a empresa, que passava por graves dificuldades, sem aportes de capital do Tesouro, que na ocasião se mencionava ser indispensável e da ordem de dezenas de bilhões de reais. Vossa Excelência concordou inteiramente com a minha visão e me concedeu a autonomia necessária para levar a cabo tão difícil missão.
Durante o período em que fui presidente da empresa, contei com o pleno apoio de seu Conselho. A trajetória da Petrobras nesse período foi acompanhada de perto pela imprensa, pela opinião pública, e por seus investidores e acionistas. Os resultados obtidos revelam o acerto do conjunto das medidas que adotamos, que vão muito além da política de preços.
Faço um julgamento sereno de meu desempenho, e me sinto autorizado a dizer que o que prometi, foi entregue, graças ao trabalho abnegado de um time de executivos, gerentes e o apoio de uma grande parte da força de trabalho da empresa, sempre, repito, com o decidido apoio de seu Conselho.
A Petrobras é hoje uma empresa com reputação recuperada, indicadores de segurança em linha com as melhores empresas do setor, resultados financeiros muito positivos, como demonstrado pelo último resultado divulgado, dívida em franca trajetória de redução e um planejamento estratégico que tem se mostrado capaz de fazer a empresa investir de forma responsável e duradoura, gerando empregos e riqueza para o nosso país. E isso tudo sem qualquer aporte de capital do Tesouro Nacional, conforme nossa conversa inicial. Me parece, assim, que as bases de uma trajetória virtuosa para a Petrobras estão lançadas.
A greve dos caminhoneiros e suas graves consequências para a vida do País desencadearam um intenso e por vezes emocional debate sobre as origens dessa crise e colocaram a política de preços da Petrobras sob intenso questionamento. Poucos conseguem enxergar que ela reflete choques que alcançaram a economia global, com seus efeitos no país. Movimentos na cotação do petróleo e do câmbio elevaram os preços dos derivados, magnificaram as distorções de tributação no setor e levaram o governo a buscar alternativas para a solução da greve, definindo-se pela concessão de subvenção ao consumidor de diesel.
Tenho refletido muito sobre tudo o que aconteceu. Está claro, Sr. Presidente, que novas discussões serão necessárias. E, diante deste quadro fica claro que a minha permanência na presidência da Petrobras deixou de ser positiva e de contribuir para a construção das alternativas que o governo tem pela frente. Sempre procurei demonstrar, em minha trajetória na vida pública que, acima de tudo, meu compromisso é com o bem público. Não tenho qualquer apego a cargos ou posições e não serei um empecilho para que essas alternativas sejam discutidas.
Sendo assim, por meio desta carta, apresento meu pedido de demissão do cargo de Presidente da Petrobras, em caráter irrevogável e irretratável. Coloco-me à disposição para fazer a transição pelo período necessário para aquele que vier a me substituir.
Vossa Excelência tem sido impecável na visão de gestão profissional da Petrobras. Permita-me, Sr. Presidente, registrar a minha sugestão de que, para continuar com essa histórica contribuição para a empresa — que foi nesse período gerida sem qualquer interferência política — Vossa Excelência se apoie nas regras corporativas, que tanto foram aperfeiçoadas nesses dois anos, e na contribuição do Conselho de Administração para a escolha do novo presidente da Petrobras.
A poucos brasileiros foi dada a honra de presidir a Petrobras. Tenho plena consciência disso e sou muito grato a que, por um período de dois anos, essa honra única me tenha sido conferida por Vossa Excelência.
Quero finalmente registrar o meu agradecimento ao Conselho de Administração, meus colegas da Diretoria Executiva, minha equipe de apoio direto, os demais gestores da empresa e toda força de trabalho que fazem a Petrobras ser a grande empresa que é, orgulho de todos os brasileiros.
Respeitosamente,
Pedro Parente"




