
As cenas de trechos da Amazônia em chamas e do céu escurecido da capital econômica do país em plena tarde de segunda-feira (19) em razão da fumaça têm potencial para prejudicar, ainda mais, a imagem externa do Brasil, já ofuscada nos últimos oito meses por sinais estranhos emitidos pelo gigante sul-americano que já foi campeão de preservação do ambiente. O mundo olha de lupa para o Brasil. A Amazônia é ícone do país, como as praias e o Carnaval. Se imagens valem por mil palavras, nenhuma pega tão mal mundo afora quanto a das chamas no verde amazônico.
O risco ambiental é um dos quesitos analisados por companhias que investem ou pretendem investir no país. O acordo entre União Europeia e Mercosul, hiato a ser celebrado em meses de relações erráticas e ideologizadas na política externa, é crivado de exigências ambientais. Um capítulo específico do documento fala de desenvolvimento sustentável em momento em que o Brasil é visto com desconfiança pela comunidade internacional.
Para se ter uma ideia, para que o acordo seja aprovado pelos 28 membros da UE, os países integrantes dos dois blocos devem reiterar compromissos multilaterais firmados, como os da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima e o Acordo de Paris, além de uso sustentável da biodiversidade e das florestas. Não bastam apenas os votos de Hungria, Polônia e Itália — países "amigos" do governo brasileiro na Europa.
Os dados sobre os incêndios na floresta são o segundo soco no nosso orgulho nacional em em três semanas. Primeiro foi o desflorestamento, que o presidente Jair Bolsonaro desqualificou, questionando a credibilidade dos números do Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe). O alerta foi parar na capa da revista The Economist, bíblia do liberalismo, que afirmou: "o mundo deveria deixar claro a Bolsonaro que não tolerará seu vandalismo".
Agora, são as estatísticas sobre incêndios que colocam o país no bastião da infâmia ambiental. Segundo o Programa Queimadas, do Inpe, o Brasil teve 72 mil focos de incêndio em 2019, 80% a mais que em 2018, e metade deles ficam na Amazônia. Desta vez, Bolsonaro não atacou os números ou a credibilidade dos cientistas. Mirou nos ambientalistas. Sem provas, disse que ONGs podem estar por trás das queimadas para chamar a atenção contra seu governo.
Só investigações dirão quem são os culpados. Enquanto isso, não desviemos o foco do que realmente importa: conter as chamas. Até porque o fogo segue. A Alemanha de Angela Merkel, elevada a malvada favorita pelo presidente de uma semana para cá, debelou rapidamente um dos maiores incêndios florestais de sua história, em julho, no Estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Cerca de 400 bombeiros trabalharam para extinguir as chamas. Capitão da reserva, Bolsonaro, que tem grande número de militares a seu lado, deveria aproveitar a proximidade com a caserna para convocar de forma urgente as Forças Armadas a atuar contra os focos de incêndios — não apenas com uso de equipes locais. Quarenta homens da Força Nacional também são quase nada diante da imensidão da floresta.
Aliás, nesse quesito, um bom exemplo a seguir seria de seu principal inspirador, Donald Trump, acostumado a lidar com fogo em florestas, especialmente na região da Califórnia. O último, o mais letal da história, foi em novembro do ano passado. Nos EUA, a essa altura, já haveria aviões e helicópteros de agências especializadas despejando toneladas de água sobre a mata.

