Durante quase dois anos inteiros, Lula, a presidente de seu partido e as facções mais extremistas do governo comandaram o linchamento público do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Seu mandato tinha começado na gestão anterior, de maneira que ele não podia ser demitido; Lula, mais de uma vez, declarou-se revoltado com a lei que estabelece a independência do BC. Não podendo fazer mais do que discursos coléricos, entregou-se a uma das mais sórdidas campanhas de assassinato de reputação contra um servidor do Estado brasileiro.
Campos Neto, até pouco tempo atrás, era chamado por Lula de sabotador da economia nacional, inimigo do povo brasileiro, serviçal dos “ricos”, exterminador de “pobres”. A presidente do PT e toda a ala histérica da esquerda se juntaram ao xingatório. Os puxadores de saco correram para bater também. Não era divergência em termos de política econômica, mesmo porque Lula e essa gente não têm ideia do que possa ser política econômica. Era simplesmente um esforço para destruir o trabalho do BC — defender o valor da moeda nacional contra a inflação, através do aumento da taxa de juros.
Os juros, evidentemente, só têm aumentado para responder ao desastre provocado pelo governo Lula
Os juros, evidentemente, só têm aumentado para responder ao desastre provocado pelo governo Lula. O BC não aumenta os juros porque se diverte ao fazer isso, mas porque vê a inflação ameaçando a economia. O presidente diz que gasto público é “vida”, que “o mercado” quer destruir o Brasil e que a grande missão do poder público é aumentar imposto e combater o lucro. É óbvio que o BC tem de apertar os juros para enfrentar a instabilidade causada por tudo isso.
Mas Campos Neto está chegando ao fim do seu mandato; seu sucessor já está escolhido, sacramentado e com o terno pronto para a cerimônia de posse. É ele, o escolhido de Lula, que vai ter de encarar a partir de agora a desordem inflacionária — e aí tudo mudou num passe de mágica. O BC, com a óbvia anuência do presidente nomeado por Lula e de toda a sua diretoria, teve de aumentar os juros mais uma vez — uma pancada de 1 ponto inteiro logo de uma vez, mandando a taxa Selic de 11,25% para 12,25%. É claro que aconteceu então o milagre: o novo aumento foi recebido com o maior silêncio que um governo federal já dedicou à questão na história da República.
A presidente do PT não deu um pio; o juro vai a 12,25% e ela não dá um pio. Lula já parou de falar nisso há tempo. A ministrada mais neurastênica não abriu a boca. Aumento de juro, a partir de agora, vai fazer parte das “políticas públicas destinadas ao crescimento da nação, à justiça social e ao combate à fome”. O governo Lula é isso.