
No centro de um caso que vem causando risco e transtornos a ciclistas em Porto Alegre, um condutor teve a prisão preventiva solicitada há mais de um mês. Segundo a Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil, o pedido foi encaminhado ao Judiciário em 18 de agosto, mas ainda aguarda resposta.
Na última quinta-feira (17), um jovem de 21 anos foi atacado no bairro Cidade Baixa e ficou ferido. Pelo menos outras 10 vítimas contam ter sido perseguidas e ameaçadas pelo mesmo motorista em um Voyage branco.
Responsável pela investigação do caso, o delegado Marco Antonio Duarte de Souza, da Core, afirma que desde o mês passado o motorista está identificado, sendo reconhecido pelas vítimas. Segundo o policial, foi encaminhado pedido de prisão porque havia suspeita de que o condutor pudesse voltar a agir e colocar outros ciclistas em perigo.
— Estamos no aguardo de uma decisão judicial que ainda não veio. Infelizmente, este último caso poderia ter sido evitado — diz.
No dia 1º de setembro, segundo o delegado, a polícia fez um pedido de urgência para incluir novos fatos no mesmo processo — após registros realizados por outras vítimas. Isso ocorreu mais duas vezes, conforme a polícia, em 9 de setembro e 15 de setembro.
O pedido de prisão encaminhado ao Judiciário é referente a crimes contra o código de trânsito, periclitação da vida (por gerar perigo à vida de outras pessoas) e tentativa de lesão corporal. Não se descarta que o suspeito possa responder por tentativa de homicídio. Segundo a polícia, o condutor tem 44 anos e possui antecedentes por crimes do código de trânsito.
— Temos provas robustas da autoria. Não só deste fato, como dos demais — afirma o delegado sobre o último caso.
GZH procurou o Judiciário para entender o motivo da demora na resposta ao pedido. Segundo esclarecimento enviado pela assessoria de imprensa, o juiz da 3ª Vara Criminal da Capital, Sidinei Brzuska, informou que a demora aconteceu por haver "inexatidão no pedido", fazendo com que ele fosse parar na Vara da Violência Doméstica.
Conforme o Tribunal de Justiça, o caso foi enviado pela Polícia Civil como um fato de lesão corporal, ameaça, direção perigosa, perigo à vida e à saúde de outrem e trafegar com velocidade incompatível a via. A solicitação foi encaminhada equivocadamente ao 2° Juizado da Vara da Violência Doméstica. Por isso, no dia 19 de agosto, foi solicitada redistribuição.
Assim, o caso seguiu para a 3ª Vara Criminal, mas o Ministério Público (MP) entendeu ser caso de homicídio. Por isso, o processo seguiu para a 3ª Vara do Júri. No entanto, a magistrada concluiu que os elementos naquele momento não revelavam um crime de tentativa de homicídio. Por isso, o caso foi submetido ao Tribunal de Justiça, para definir de quem era a competência.
O TJ ainda não definiu quem deve seguir com o processo, mas em 17 de setembro decidiu que a 3ª Vara Criminal deve apreciar as medidas urgentes. Nesta mesma data, o caso foi encaminhado ao MP, para se manifestar. Segundo o Judiciário, a decisão será tomada assim que o processo retornar da Promotoria.
Na tarde desta terça-feira (22), o MP informou que já examinou o expediente e devolveu na data de hoje ao juiz.
Os ataques
A maioria dos casos registrados na polícia ocorreu na Avenida Edvaldo Pereira Paiva, a Beira-Rio, na orla do Guaíba. Segundo as vítimas, o motorista costuma agir em horário entre 6h e 7h30min. Ele se aproxima em alta velocidade e derrapa os pneus, obrigando os ciclistas a saírem da pista para não serem atingidos. Em um dos episódios, o condutor teria descido do veículo com uma chave inglesa na mão, ameaçando um jovem.

Na quinta-feira, um entregador de 21 anos foi atacado na Rua José do Patrocínio, no bairro Cidade Baixa. Ao frear para evitar o atropelamento, o jovem caiu e feriu o pé esquerdo. A bicicleta, que era usada para o trabalho, teve que ser encaminhada para conserto.
— Trabalho todo dia, abaixo de chuva, tentando juntar um dinheiro. Preciso trabalhar, não posso parar. Mas ontem (domingo) à tarde não aguentei mais de dor, não conseguia ficar mais em pé. Um amigo meu buscou a bicicleta para tentar arrumar, está toda torta. Mas o pior é que esse maníaco poderia ter me matado — contou o entregador a GZH na segunda-feira.




