
O ex-senador gaúcho Sérgio Zambiasi (PTB) teria sido beneficiado por pagamentos sistemáticos para auxiliar a Odebrecht a receber por contratos de obras no Porto de Rio Grande (RS). A informação foi dada por dois dirigentes da empreiteira, João Borba Filho e Valter Lana, em depoimento à Procuradoria-Geral da República (PGR). Eles mencionam também que teriam ajudado dois outros parlamentares gaúchos, os deputados federais Darcísio Perondi (PMDB) e Paulo Pimenta (PT). Por ter considerado que faltam provas para abrir inquérito contra os três políticos, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), solicitou investigações adicionais por parte da PGR.
Em depoimento prestado em dezembro, Valter Lana disse que Zambiasi recebeu doações mensais de R$ 11 mil no ano de 2012, referentes a ajuda para que a Odebrecht conseguisse receber pagamento pelo prolongamento dos molhes do porto de Rio Grande. Ele era então senador. A obra foi iniciada em 2001, paralisada e concluída em 2012, quando Zambiasi já tinha voltado a ser radialista, sem cargo político.
– Os pagamentos objetivavam apoio político e eram feitos a uma instituição de caridade no bairro Serraria, em Porto Alegre, indicada por Zambiasi –acrescentou o dirigente da Odebrecht.
Como prova, Lana repassou tabela do Drousys (sistema de informática montado na Suíça, que contabilizava pagamentos ocultos da Odebrecht a políticos) em que consta repasses a Zambão (esse seria o apelido de Zambiasi dentro da empreiteira).
Lana ressaltou que era usual a Odebrecht fazer contribuições a políticos para que eles garantissem, via emendas, apoio a pagamentos atrasados ou retomada de obras por parte da União. O dirigente da empreiteira definiu a situação como "um caos" - um mês se recebia pagamento do governo, depois a empresa ficava cinco ou seis meses sem receber. Ele lembrou de pedidos de doações feitos, na época de eleições (2012), por Zambiasi e os deputados Paulo Pimenta e Darcísio Perondi. As doações aos deputados seriam institucionais (regulares):
– Paulo Pimenta tenho certeza de que ajudei. Pode ter sido doação oficial. Com relação ao Perondi, tenho quase certeza.
Lana salienta que para Zambiasi as doações mensais da Odebrecht eram "não contabilizadas" (caixa 2), canalizadas a um albergue para idosos e dependentes de drogas. Isso foi feito para evitar vínculo da empresa com o político, esclareceu o dirigente da empreiteira.
– Não tenho conhecimento se o senador sabia dessa forma de pagamento (que era caixa 2) – falou Lana.
O dirigente da Odebrecht informou que os pagamentos eram em espécie e entregues em escritório na Avenida Borges de Medeiros, em Porto Alegre, a um emissário de Zambiasi chamado Brasil. "O albergue existia, visitei e fiquei penalizado com a situação", descreveu Lana.
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Zambiasi também é citado em uma investigação da Polícia Federal a respeito dos molhes. Em buscas, a PF conseguiu cópia de e-mail, de 3 de outubro de 2004, de João Borba (dirigente da Odebrecht) para Benedicto Junior (então presidente da Odebrecht). A mensagem está intitulada "Assunto: recebimentos realizados". A transcrição dela:
"Dr. Júnior, em função dos recebimentos já realizados em setembro, solicito, se possível, para 5/10, os seguintes valores:
1 - PORTO DO RIO GRANDE - por conta de recebimento
Recebido - R$ 4.500
Compromissos:
BETÃO - 36 SC (Santa Catarina)
ZAMBÃO -36 BSB (Brasília)
LEGISLADOR - 18 BSB
OPERADOR - 22,6 BSB
O delator João Borba confirmou a autenticidade do e-mail e disse ter sido encarregado de repassar R$ 112 mil, em 2004, a políticos com aqueles apelidos. O objetivo era garantir apoio para pagamentos à Odebrecht de contratos que estavam paralisados no governo federal, entre eles o dos molhes de Rio Grande. A dívida do governo com a empreiteira era de R$ 4,5 milhões. Ele disse que os pagamentos aos parlamentares foram feitos via caixa 2 (não declarados à Justiça Eleitoral) e que recorda apenas que Zambão era Zambiasi – dos demais, não sabe a quem se referem os codinomes. A PGR deve se pronunciar em breve se pedirá inquérito contra os três políticos.
CONTRAPONTOS
O que diz Paulo Pimenta
"Recebi contribuições da Odebrecht, sim. Mas tudo oficializado, nada por baixo do pano. Do jeito que critico a Lava-Jato, se tivessem algo concreto contra mim, teriam aberto inquérito. E não fizeram isso, porque agi dentro da lei".
O que diz Darcísio Perondi
"Não tenho ideia do que estão falando. Sempre agi dentro da lei, não recebi contribuições ilegais".
O que diz Sérgio Zambiasi
"Desconheço os codinomes. mas sobre a entidade é verdadeiro. Em final de 2009 ou 2010, me encontrei com o Valter (Lana) e sugeri que ele conhecesse uma entidade periférica que precisava de muita ajuda. Eram mais de cem pessoas em situação de abandono. Pedi que, se ele pudesse, oferecer algum tipo de ajuda. Fiz isso com muita gente. Mas a partir de então minha intervenção terminou, não tive mais contato. Sei que ele visitou pessoalmente a entidade, colaborou imediatamente, inclusive mandou uma geladeira que funciona até hoje lá. Pelo que me informei, ele contribuiu também por alguns meses, mediante recibo. Mas isso não passou por mim."




