
Na primeira semana de maio, Janaína dos Santos, 42 anos, visitava Caxias do Sul quando deslizamentos de terra na RS-122 impediram o retorno para São Leopoldo, sua cidade natal. Quando pôde voltar e ver as condições da casa própria, atingida pela enchente, Janaína não acreditou. O salão de beleza, recém reformado no primeiro pavimento, foi destruído.
Por já conhecer Caxias e vislumbrar novas oportunidades na maior cidade da Serra, a mãe solo de uma menina de cinco anos optou por dar início a um processo de mudança. Instalada em um apartamento emprestado, já matriculou a filha na rede municipal de ensino e agora procura uma solução para o contraturno.
— Quando parei de chorar fui em busca das soluções, procurei escola para ela e no outro dia já consegui. No começo foi o caos, um perrengue, mas vamos indo um dia de cada vez — diz.
A vinda de Janaína faz parte de um movimento já previsto pela Defesa Civil e apresentado à Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul (CIC). A projeção é de que cerca de 25 mil famílias possam migrar, até o ano de 2028, para municípios como Caxias do Sul, Farroupilha, Flores da Cunha e São Marcos.

A prefeitura já sente a demanda crescer, e no último final de semana um mutirão no Centro de Referência da Assistência Social (Cras) atendeu 25 famílias que foram cadastradas nos programas Volta por Cima RS e Auxílio Reconstrução. De acordo com o poder público, a procura principal é de moradores vindos do Vale do Taquari e Região Metropolitana.
Encontrar vagas na rede municipal de ensino é um dos primeiros passos de quem desembarca em Caxias, e a demanda já foi notada. De acordo com dados da Central de Matrículas, dos dias 7 a 28 de maio foram inscritos cerca de cem estudantes que mudaram de endereço em função das enchentes. Estudantes vindos de municípios atingidos, como Canoas, Muçum, Novo Hamburgo, Porto Alegre, Roca Sales e São Leopoldo.
No Sine de Caxias, serviço onde estão as vagas de emprego disponíveis na cidade, o volume de pessoas afetadas pela enchente que chegam em busca de trabalho começou já na primeira semana de maio. De acordo com a coordenação, são atualmente mais de 350 vagas abertas.
Há duas semanas em Caxias do Sul, na casa de parentes, Neimar da Silva, 43, foi logo no primeiro dia procurar uma vaga de açougueiro, profissão que desempenha desde a juventude.
— Vou ter que recomeçar. Taquara não é um lugar ruim, mas foram as águas que fizeram a gente sair. Já tentei morar em Caxias anos atrás, mas era muito difícil comprar uma casa, então fui pra lá, onde fiquei mais de 15 anos, mas não vou suportar uma nova enchente — lamenta Silva.
Impactos na saúde e educação
Colocar em funcionamento os 40 novos leitos do Hospital Geral, renegociar as responsabilidades da educação com o Estado e lutar por repasses da União são as formas encontradas pelo prefeito caxiense, Adiló Didomenico, para poder acolher os novos migrantes.
A cidade que, de acordo com o Centro de Atendimento ao Migrante, recebeu no ano passado 4,8 mil pessoas tem o desafio de atender uma demanda que só cresce. Para o prefeito, a maior preocupação está em adequar a rede de ensino com o ano letivo em andamento:
— Nos esforçamos para incluir cerca de 5 mil novos alunos nos últimos anos. Mas precisamos que o Estado assuma as séries finais como era feito no passado e existe a boa vontade da Secretaria Estadual de Educação, só que o processo não atende a velocidade de procura que estamos tendo — diz.
De acordo com o cálculo da prefeitura, caso o Estado assumisse os oitavos e nonos anos do Ensino Fundamental, seria possível abrir novas turmas de séries iniciais.
Quanto à saúde, a preocupação está em absorver ainda mais atendimentos para além dos 49 municípios que têm Caxias do Sul como referência. A expectativa de receber novos moradores faz o pleito para que o governo federal aporte mais recursos ser ainda mais necessário.
— Precisamos que a tabela MAC (para média e alta complexidade) seja corrigida. É o maior déficit de todos os municípios. É uma injustiça com Caxias. O recurso que aportamos para atender 49 municípios é um reforço que deixamos de empregar em pavimentação e soluções do trânsito. Nosso percentual, que seria 15%, já está quase em 28%, porque precisamos complementar as diferenças sob pena de parar o atendimento — diz Adiló.
Impactos na habitação
A possibilidade de crescimento desordenado e ocupação irregular de terrenos é a preocupação de especialistas em arquitetura e urbanismo. De acordo com o professor da Universidade de Caxias do Sul Carlos Eduardo Pedone, o mercado da habitação está regulado para a demanda do crescimento vegetativo da população, e movimentos migratórios podem distorcer o setor.
— O maior impacto é na habitação de baixa renda. Temos em Caxias uma situação de muita irregularidade fundiária, e a vinda de novas famílias pode agravar a situação. Terreno barato em locais com infraestrutura de transporte público, segurança, saúde e educação vão ficando cada vez mais restritos, e podemos ter a perspectiva dessas pessoas deixarem locais irregulares ainda mais populosos — diz.
Nas imobiliárias as primeiras sondagens já começaram. De forma discreta, de acordo com o presidente da Assimob, Gabriel Rocha, mas que criam um momento de negócios fechados com mais agilidade. O receio de perder a oportunidade fez, segundo ele, clientes indecisos tomarem suas decisões:
— O mercado como um todo já se prepara para uma demanda maior e a percepção do cliente é a mesma. Temos a expectativa de aumento da inflação, então além de aumento de preço existe a percepção de escassez que gera um movimento mais agressivo do mercado.
