
Quem circula pelo interior de Paim Filho, no norte gaúcho, pode se deparar com bois e vacas diferentes do habitual: um pouco menores e com aspecto menos musculoso do que as raças habituais de gado de corte, os bovinos Wagyu são criados em uma fazenda há pelo menos 20 anos e se destacam por ter a carne mais cara do mundo.
Além da estrutura física, o que os diferencia de outras raças é o fato de que, por trás de cada cabeça de gado, existe pesquisa, ciência e melhoramento genético.
Quem trouxe os primeiros embriões para o sul do Brasil foram os médicos veterinários Ricardo e Eraldo Zanella. Em 2002, o pesquisador Jerry Reeves, um dos responsáveis por levar a raça japonesa aos Estados Unidos, questionou se os irmãos tinham interesse em criar a espécie no Brasil.
Eles aceitaram o desafio e, com o material genético em mãos, fizeram as primeiras inseminações. Desde então, o gado tem se adaptado às condições do campo gaúcho.
— Selecionamos algumas características que acreditamos ser importantes, como a resistência a carrapatos. Outra questão importante é a da adaptabilidade, com o clima e nutrição. Isso porque a pastagem que temos aqui é completamente diferente de onde esses animais estiveram — disse Ricardo Zanella, que também é professor na Universidade de Passo Fundo (UPF).
Chegar nessas características é um trabalho em diversas frentes. Uma delas é a reprodução. A embriologista Mariana Groke Marques atua junto dos irmãos Ricardo e Eraldo e, segundo ela, a reprodução vai muito além de gerar novos animais. Para que um filhote se desenvolva e atinja todo seu potencial, existem muitos fatores que precisam ser analisados e trabalhados.
— A sanidade, parte nutricional e o bem-estar impactam muito na reprodução, então o primeiro passo sempre é acertar todos esses fatores para adequar a raça. Na parte genética, selecionamos os melhores animais que vão ser aqueles que vão reproduzir mais do que outros para ter mais filhos e, por consequência, uma genética melhor — explicou.

O cuidado que vai desde a alimentação de cada animal até a seleção genética tem dado resultados. Uma fêmea premiada na Expointer foi vendida para criadores argentinos e, em outra ocasião, a genética presente na fazenda em Paim Filho também foi para o Paraguai.
— Temos tido resultados muito bons, melhorando a cada ano, conseguindo adequar os protocolos... Produzimos tanto embriões quanto animais de boa qualidade, e isso deixa a gente bastante satisfeito — destacou a embriologista.
Mais pesquisas sobre o Wagyu
Enquanto professor da UPF, Zanella orienta mestrandos e doutorandos na pesquisa de bovinos Wagyu. Uma das pesquisadoras é a médica veterinária Carla Alba, que se dedica ao estudo sobre os machos da raça e a capacidade reprodutiva no mestrado.
Segundo ela, o objetivo é entender probabilidade do animal ser um bom reprodutor da raça a partir do peso de cada touro ainda no nascimento.
— A partir desse peso e de outros testes, junto com dados que coletamos, identificamos um animal que seja mais propício para ser o reprodutor. A ideia é dar a segurança de que o produtor vai ter um reprodutor adequado na propriedade — explica.
Outro estudo que envolve o Wagyu está sendo feito na tese de doutorado da Caroline Gallas. Ela busca informações sobre conhecimento do público em relação a carne de Wagyu, consumo, avaliações e outros pontos. A ideia é encontrar formas de aumentar a presença de produtos da raça no mercado e o consumo.
— A maior parte do público gaúcho já conhece a raça Wagyu. Muitos já até consumiram essa carne, mesmo tendo valor mais agregado. E eles estão dispostos, sim, a consumir o produto. Até 30% desse público aceitou consumir uma carne com valor mais alto — relatou a pesquisadora.
Conforme Zanella, expandir a presença de mercado do Wagyu não visa tomar o espaço da carne normal, de raças europeias. Não é por acaso: hoje 1kg de carne de bovino Wagyu pode chegar a R$ 1 mil, dependendo do corte.
— A raça Wagyu não é uma raça que vai competir com uma raça como uma raça Angus ou Hereford. É um nicho premium de mercado, de uma carne para ser consumida em momentos especiais, e não no dia a dia — explicou o produtor.

Genética Wagyu nas propriedades gaúchas
Além do mercado de genética de animais puros para criadores do país e de outros lugares do mundo, existem ações para criar bovinos mesclados. Ainda que a carne de um animal que nasce do cruzamento com um Wagyu ser mais barata, ainda é um produto de maior qualidade em relação ao tradicional.
Para ir além da porteira, já existem ações práticas para disseminar a genética de Wagyu. Em 2024, Zanella iniciou uma parceria com a prefeitura de Paim Filho para fornecer genética da raça japonesa aos criadores de gado de leite.
O método, já utilizado em outros países, é conhecido como "beef on dairy" e consiste no cruzamento de vacas de leite com machos de gado de corte, no caso, o Wagyu.
— Com isso vem outra forma de rentabilidade. Isso porque, para o produtor de leite, quando nasce um terneiro macho geralmente é um problema (já que não produz leite). Então, com o cruzamento, há uma alternativa para ter outra fonte de rentabilidade na propriedade — explica o produtor.

O criador Olando Caus, também de Paim Filho, decidiu investir no gado cruzado. Há quatro anos ele tem animais que são uma mistura do europeu Angus (uma das principais raças de gado de corte) e Wagyu. A mescla de características gera um animal grande, que produz bastante carne com a maciez e marmoreio japonês.
— A qualidade que a gente impôs foi a melhora do marmoreio da carne. O entremeado de gordura que veio para ser colocado em cima do angus foi sensacional — relatou.
O gaúcho, claro, gosta de churrasco. O corte favorito é a costela e, segundo o agricultor, os animais mesclados geram uma carne especial.
— A costela do cruzado tem um marmoreio sensacional. E além de ter o marmoreio, tem uma maciez e uma qualidade sem igual — celebrou Caus.