Por Jorge Barcellos, doutor em Educação/UFRGS

A Câmara Municipal realizou nesta segunda-feira audiência pública sobre Projeto de Lei do Executivo que desemprega os cobradores de ônibus para aumentar os lucros dos empresários. A promessa é a redução insignificante de R$ 0,05 no preço da tarifa e o preço é o desemprego de 3.500 pais de família, o aumento do stress dos motoristas e o prejuízo no cuidado com usuários.
A iniciativa é desumana: trata trabalhadores como objetos a disposição dos donos das empresas, produz desemprego em massa e vai contra as tendências do setor. Dos 5.420 municípios do país, apenas 64 não tem cobrador. Para o vereador Paulinho Motorista, que é do ramo, "não se pode trabalhar sem cobrador em nenhuma hora do dia". O Prefeito acha que pode.
O projeto deve ser derrubado por dois motivos. O primeiro é por que consolida a precarização do setor de transporte. As empresas já estão reduzindo o número de viagens para aumentar o lucro e agora retiram o cobrador que auxilia o motorista a entrar em ruas. O segundo é por que contraria a história do transporte público da capital. Nas primeiras referências a cobradores constantes do Regulamento Interno da Cia Carris Porto Alegrense, de 1929, os "condutores", em oposição aos motoristas – os "motorneiros", tinham como função principal "atender a perfeita comodidade todos os passageiros", o que incluía arriar as cortinas em caso de chuva, atender desejos e reclamações e dar atenção ao passageiro na hora do desembarque. As origens da função do cobrador estão na ética do cuidado: criados para para cuidar do passageiro que habita o ônibus, nunca se tratou apenas de "dar o troco", mas uma forma de sociabilidade.
Extinguir o ofício quase centenário é mais do velho projeto ultraneoliberal da busca do lucro a qualquer preço, sem ética e sem valores. Os empresários irão diminuir o preço da passagem depois das demissões? É claro que não e os problemas oriundos da extinção dos cobradores permanecerão. Devemos lutar para surgirem empregos e não fazê-los desaparecer. Nem tudo é economia. Se hoje permitirmos sua extinção, amanhã será a vez dos enfermeiros, cuidadores, aeromoças, etc. Aonde isso irá parar?




