
No próximo sábado (23), apoiadores do autodeclarado presidente da Venezuela Juan Guaidó, líder da Assembleia Nacional, e do presidente Nicolás Maduro vão fazer um duelo musical nas fronteiras do país. Enquanto apoiadores de Guaidó organizam o "Venezuela Aid Live" para arrecadar US$ 100 milhões em ajuda humanitária, na cidade de Cúcuta, na Colômbia, apoiadores chavistas armam o "Hands off Venezuela" (Tirem as mãos da Venezuela), com atrações ainda não confirmadas.
Os shows vão acontecer a 300 metros da fronteira com a Colômbia. O show "Venezuela Aid Live" será realizado em Cúcuta, em um extremo da ponte Tienditas. O espetáculo é organizado pelo bilionário Richard Branson, da Virgin. A oposição venezuelana espera as presenças do presidente colombiano Iván Duque e do chileno Sebastián Piñera.
Em contrapartida, o governo anunciou concertos na quinta, na sexta e no sábado no outro extremo da mesma ponte, bloqueada por militares venezuelanos com caminhões de contêineres, e que liga Cúcuta à cidade de Ureña, no Estado de Táchira. O show será realizado na ponte Simón Bolívar, principal passagem de pedestres binacional entre Colômbia e Venezuela.
O show oposicionista contará com artistas do porte dos espanhóis Alejandro Sanz e Miguel Bosé, o dominicano Juan Luis Guerra, os colombianos Carlos Vives e Juanes, e o porto-riquenho Luis Fonsi. Ainda não foram anunciadas as atrações do show chavista.
— O que fizerem do outro lado da fronteira é problema deles. Nós defenderemos nosso território — disse nesta quarta à imprensa o líder chavista Darío Vivas na entrada da ponte.
Mobilização de voluntários e fronteiras fechadas
Guaidó anunciou que brigadas de voluntários vão buscar a ajuda humanitária em vários pontos nos estados de Táchira e Bolívar, que ficam na fronteira com Cúcuta (Colômbia) e Roraima (Brasil), e também nos principais portos do país, Puerto Cabello e La Guaira.
— Por mar e por terra... Devemos abrir o canal humanitário seja como for — afirmou Guaidó, reconhecido por cerca de 50 países — inclusive o Brasil — como presidente interino da Venezuela.
O governo de Maduro, entretanto, ordenou a suspensão de partidas em todos os portos do país. Ele determinou também o cessar dos voos privados e comerciais com Aruba, Bonaire e Curaçao, ilha onde também se armazena ajuda, além do fechamento do tráfego marítimo com essas ilhas caribenhas.
— É um show que procura e pretende apenas a intervenção (militar) da Venezuela — declarou a vice-presidente Delcy Rodríguez, ao anunciar o fechamento das fronteiras marítimas com Curaçao.
Guaidó, que também é chefe do Legislativo, convocou manifestações para acompanhar as caravanas e uma mobilização até as guarnições militares. O governo também convocou seus seguidores a irem às ruas.
— Apesar de nos apontarem armas (....) não temos medo, seguimos de peito aberto na rua, exibindo a liberdade de toda a Venezuela — disse Guaidó, a quem o presidente Jair Bolsonaro garantiu nesta quarta-feira pelo Twitter que a ajuda estará à sua disposição.
A grande incógnita, porém, é como os caminhões de ajuda humanitária vão passar. Maduro, apoiado pelas Forças Armadas, rejeitou o apoio por considerar "esmola", além de uma porta de entrada à invasão militar americana.
— Senhores da Força Armada, vocês têm três dias para se colocar ao lado da Constituição. Esta ajuda é para salvar vidas — assegurou Guaidó.
Pressão sobre militares venezuelanos
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não descarta uma ação armada na Venezuela. Na segunda-feira, ele advertiu os militares que continuam apoiando Maduro que "vão perder tudo".
Altos comandos militares de Estados Unidos e Colômbia aumentaram a pressão nesta quarta-feira sobre os militares venezuelanos em um encontro, em Miami, no qual pediram-lhes para "fazer o correto" e permitir a entrada de ajuda humanitária ao seu país no sábado.
— A cada dia isto fica mais difícil, tudo está mais caro. Têm que deixar a ajuda entrar. Tem muita gente morrendo porque não consegue remédio — disse Richard Quintero, de 19 anos, na ponte Simón Bolívar.
Em reação ao que considera uma ameaça, o governo de Maduro convocou os 46 países que o apoiam na ONU a pedirem juntos ao secretário-geral da organização, António Guterres, que "freie todos os chamados a uma solução militar" para pôr um fim à crise na Venezuela.
— Pela fronteira com a Colômbia entra e sai todos os dias mercadoria debaixo do nariz das autoridades dos dois países, pela montanha, por trilha, pelo rio. Não tem como controlar essa gente se leva uma bolsa de ajuda humanitária — afirmou o analista Luis Vicente León.
Maduro, que também enviará a Cúcuta alimentos e atendimento médico gratuito, anunciou que nesta quarta-feira chegam 300 toneladas de remédios comprados dos russos, após as 933 toneladas que entraram na semana passada, vendidas por China, Rússia e Cuba.
— É um 'damage control' (controle de danos). O governo não tem como ganhar este jogo, está buscando minimizar os danos — avaliou León.
A Anistia Internacional pediu nesta quarta-feira que Maduro reconheça a grave crise socioeconômica e permita a entrada da ajuda humanitária ao seu país.



