
Caminhar pelas ruas de Petrópolis nesta quinta-feira (17) se assemelha a filmes nos quais um tsunami passa arrastando o que vê pela frente. GZH chegou por volta de 9h30min no município da região serrana do Rio de Janeiro. Na estrada, do aeroporto Santos Dumont, na capital, até a entrada da cidade, o trânsito é livre. No entanto, quando se entra na área urbana, os estragos aparecem.
Praças e ruas estão cobertas de lama. Veículos destruídos pela enxurrada, capotados em vias públicas, se acumulam. O engarrafamento nas vias em direção ao Morro da Oficina, local com mais mortos e onde as buscas se concentram mais, é enorme. A reportagem foi até determinado ponto de carro e seguiu o restante do trajeto a pé. Trabalhadores do município e moradores tentam fazer a limpeza de ruas e calçadas. Retroescavadeiras ajudam a retirar a lama do caminho.
Na base do Morro da Oficina, uma residência acabou virando ponto de apoio e solidariedade. Lideniu Márcia Canelas abriu as portas para ajudar voluntários e servidores públicos que trabalham na tentativa de encontrar sobreviventes e corpos. O cardápio perto do meio-dia era massa com salsicha, feijão com linguiça e bolacha doce, além de café e água. Tudo a vontade. Todos os mantimentos chegaram na residência por doação.
— Começou tudo porque no dia da tragédia duas famílias ficaram acampadas na frente da minha casa — conta Lindenir. — Dessas duas famílias, eu comecei a ajudar a todos. Nós nos unimos.
Na base do morro, uma parte está isolada. Trata-se do local onde as buscas ocorrem com maior intensidade. Muitos moradores, apesar dos riscos, não deixam suas residências, algumas delas danificadas pelos deslizamentos. Parte do morro veio abaixo, levando lama, vegetação e casas.
Moradores da região, em busca de parentes, chegam a cavar com as próprias mãos o monte de lama que cobriu e destruiu casas. O vaivém nas íngremes vielas é constante.
A família da gaúcha de Viamão Cristiane Gross da Silva, 48 anos, balconista, morava em quatro casas conjugadas no morro. Todas vieram abaixo. Restaram somente ela, o marido e uma das filhas, que estavam no trabalho.
— Tenho oito pessoas da minha família desaparecidas desde terça. Um neto de cinco, uma filha de 19, minha sogra, quatro sobrinhas e uma cunhada. Até agora nada — lamenta. — O que eu tô vendo aqui é que quem está ajudando, quem está subindo, cavando com a mão, são os moradores e os nossos amigos.
Cristiane foi uma das primeiras pessoas a buscar apoio na casa de Lindenir.
— Troca equipe, troca equipe, e a gente não está vendo resultado. Eles não deixam a gente subir, meu marido está subindo na marra, só que não tem ferramenta, ele está cavando com a mão, está todo machucado — desabafa.
A vista do topo do morro, onde GZH esteve, é de destruição. As pedras à mostra nas encostas significam que tudo que existia ali foi abaixo. Pelas escadas e muros, é comum encontrar voluntários exaustos descansando um pouco para retomar as buscas, como Rômulo de Jesus Destro, 28 anos.
— Estou sem cessar desde o momento da tragédia até agora, sem dormir. Já salvei várias pessoas, consegui salvar com vida minutos depois da tragédia. Estamos nessa busca sem cessar, na esperança de achar mais pessoas com vida — relata.
Rômulo morava com a família toda no local.
— Veio esse desastre aí e acabou com tudo. A única pessoa que eu consegui resgatar com vida foi meu irmão. Infelizmente, minha avó não consegui salvar. Perdi muitos amigos, muitos conhecidos — diz, entre lágrimas.
Em cada esquina, um abraço e uma palavra de conforto de quem se encontra. Além do choro que ecoa pela região. O som do desabafo e da dor parece mais alto que as sirenes das viaturas e os apitos dos bombeiros.
Com mais de uma centena de mortos e outra centena de pessoas desaparecidas, Petrópolis vai precisar de ajuda para se reconstruir e para voltar a ser acolhedora como sempre foi.





