Qual é o esporte preferido do brasileiro? Se a métrica utilizada for minimamente convencional, o futebol encabeçará qualquer lista de preferências. Mas seria absurdo supor que, mais do que ver, o que nós realmente gostamos é de falar (e ouvir) sobre futebol?
Há de fato "esporte" mais popular do que esse? Talvez não. O público que fica pregado à TV para ouvir conversas intermináveis após cada rodada, aventurando-se na audiência de mesas redondas que surgem em progressão geométrica, parece passar um atestado de que não existe mania mais difundida. Mas o que está sendo dito na TV, no rádio e nas ruas?
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Do que se fala nas conversas cotidianas sobre futebol? Será que, via de regra, conseguimos ultrapassar a superficialidade e nos livrar dos clichês? A resposta de cada leitor à última pergunta pode variar, é verdade, mas se a sinceridade marcasse nossos entrevistados de ocasião, é certo que ouviríamos muitos "nãos".
Nos últimos tempos, multiplicaram-se os sinais de que já não é no Brasil que se joga o melhor futebol do mundo. Mas e as ideias sobre o jogo, as melhores, onde estão? Tudo indica que nesse campo também estamos perdendo terreno.
Existem, é claro, diversas abordagens possíveis para se tentar recuperar as glórias perdidas, e muitas frentes terão que ser abertas, mas elevar o nível dos nossos debates, elaborar melhor nossos conceitos e olhar para o que está sendo feito em outras partes do mundo é indispensável. O conforto é que existe, sim, muita gente pensando e escrevendo a fundo sobre futebol mundo afora, e o Brasil começa aos poucos a fazer parte desse circuito de ideias transformadoras.
A excelente receptividade do público brasileiro ao livro Guardiola Confidencial, lançado no país em julho de 2015, é prova de que a curiosidade e o desejo de conhecimento existem, e de que o futebol ainda é capaz de produzir encantamento. Se o catalão é um personagem magnético, isso sem dúvida acontece porque suas ideias cativam, e se manifestam no jeito de jogar dos seus times. É de ideias que estamos carentes.
Se Mourinho Rockstar e os novos títulos que estão por vir, sempre com o futebol como fio condutor, provocarão o mesmo efeito, só o tempo dirá. Mas o salto à frente no conhecimento do jogo é a aspiração que move as publicações citadas - e que parece estar instigando também um público que busca, seja nos debates na TV ou em conversas entre amigos, algo mais do que ouvir que o futebol segue sendo uma caixinha de surpresas.
