
Ouviu-se a seguinte frase de um torcedor do Cruzeiro, em Belo Horizonte: "Talvez fosse melhor para o Inter não ter vencido o jogo de ida da Copa do Brasil". Exageros à parte — afinal, é óbvio que ganhar e ter vantagem para decidir no Beira-Rio foi bom para os colorados — há uma certa coerência na sentença. A partir daquela derrota, o time mineiro passou por uma mudança radical. Em meio a uma crise, com denúncias de corrupção com direito a investigação do Ministério Público, o clube trocou Mano Menezes, então mais longevo técnico a Série A, por Rogério Ceni. Em pouco mais de três semanas, há um novo ambiente na Toca da Raposa.
O primeiro aspecto que o novo treinador dedicou atenção foi o moral. O time sofria sem vencer no Brasileirão, havia caído na Libertadores para o River Plate, dentro do Mineirão, nos pênaltis, depois de empatar na Argentina e em casa, e nem mesmo a classificação para a semifinal da Copa do Brasil em cima do Atlético-MG diminuía a bronca da torcida. A proximidade com a zona de rebaixamento deixava todos aflitos.
— Rogério trouxe um clima diferente. Com Mano, a sequência de partidas sem vitória impedia de mobilizar os jogadores — Guilherme Piu, do jornal Hoje em Dia.
Não é só de fora que há essa impressão. Os próprios jogadores fazem questão de falar sobre as mudanças internas após a contratação do novo comandante.
— Com a chegada do Rogério, o time é outro. A torcida também está vendo de outra forma e agora só depende da gente — disse o atacante David.
Para além da questão anímica, era preciso mexer também no campo. E essa é mais uma mudança da gestão Rogério Ceni. Sob as ordens de Mano Menezes, o Cruzeiro chegou aos títulos, e tornou-se o maior campeão da Copa do Brasil, com um estilo que costumou-se chamar de reativo. Em um resumo: a equipe se fecha, evita os ataques do adversário e, quando identifica a fraqueza do adversário, chega à frente em contragolpes. Isso, normalmente, ocorre por meio de lançamentos longos e rebotes.
Com a chegada do Rogério, o time é outro. A torcida também está vendo de outra forma e agora só depende da gente"
DAVID
Atacante do Cruzeiro
Nas mãos do multicampeão ex-goleiro do São Paulo, a ordem inverteu. Rogério Ceni quer um Cruzeiro propositivo, que crie oportunidades, troque passes, tenha velocidade e seja ele a causar problemas aos adversários. Os chutões para a frente não estão vetados, mas os atletas são incentivados a jogar mais.
— O Rogério nos incentiva de sair com a bola, nos dá confiança para fazer. Isso ajuda muito quem é do setor da frente, pois ficar brigando por um chutão e uma segunda bola é ruim. Quando a bola chega no pé do setor ofensivo, que é de muita qualidade, facilita. Nos últimos jogos, já demos uma grande melhorada — observa o zagueiro Dedé.
O defensor, porém, lembra que Mano Menezes não proibia o time de trocar passes. Segundo ele, a mudança é de maneira de iniciar as jogadas:
— A saída de bola a gente sempre trabalhou, mas a forma de movimentação mudou muito com o Rogério. Acho que a forma que a gente tentava sair ficou muito fácil para os outros times marcarem, porque eram três anos de trabalho. Agora, é um novo método. É importante para a gente, pois estamos aprendendo.
Ofensivamente, Rogério Ceni tem convicção na necessidade de ter dois atacantes, pelo menos um deles de velocidade. O ideal, segundo quem o conhece, é que ambos sejam rápidos. Até por isso, o clube contratou Ezequiel, do Botafogo, que estava emprestado ao Sport. E ainda busca Guilherme, cujos direitos são do Grêmio, e que também está no clube pernambucano. Sem eles para a Copa do Brasil, David e Pedro Rocha estão cotados para iniciar o jogo. A outra possibilidade é ter Fred como centroavante. Aberto, Marquinhos Gabriel é o responsável por dar agilidade pelas pontas.
— É uma característica do treinador, que gosta de jogar com dois atacantes mais por dentro, um de mais mobilidade, outro mais central. Gosta dos extremas rápidos. Precisamos fazer o que ele pede — completa Marquinhos Gabriel.

O novo Cruzeiro é mais confiante, mais leve e mais rápido. Mas ainda vê a sombra do rebaixamento pressionar os melhores desempenhos.
PONTOS FORTES DO CRUZEIRO
A chegada do novo treinador reacendeu o time, como costuma ocorrer no futebol brasileiro. Movidos a incentivos e desafios, os atletas se remotivaram com Rogério Ceni. Atletas que não vinham recebendo tanto destaque, como David e Marquinhos Gabriel, foram desarquivados.
Apesar da má fase, o Cruzeiro é inegavelmente um time experiente e vencedor. Atual bicampeão consecutivo da Copa do Brasil, o clube é o recordista de conquistas da competição e aposta neste torneio como uma espécie de salvação da temporada. O próprio Rogério Ceni revelou ter identificado no campeonato a oportunidade para ser campeão e aceitar a proposta para deixar o Fortaleza.
Além de experiente e vencedor, há talento no Cruzeiro. Dedé é um zagueiro com passagens pela Seleção, Robinho dá cadência ao meio-campo, Thiago Neves é perigoso na perna esquerda e nas cobranças de falta, Pedro Rocha tem a velocidade e a personalidade dos jogos grandes e Fred, mesmo longe de sua melhor fase, é o maior goleador do Brasil em atividade.
PONTOS FRACOS DO CRUZEIRO
Mudar um time acostumado a uma metodologia e a um estilo há mais de três anos exige mais do que a chegada de um novo treinador. Rogério Ceni não é mágico e, mesmo que fosse, não conseguiria mexer tanto em uma equipe. Por isso, ainda que tenha remobilizado o grupo de jogadores, o Cruzeiro está longe de ser uma equipe confiável.
A ameaça do rebaixamento bagunça qualquer ambiente. Imagine de um clube que tem a marca de nunca ter caído, e de ser o único do Estado com essa condição. Sem conseguir se afastar do Z-4, a pressão é forte e ainda causa reflexos. Há uma semana foi assim: o time vencia o CSA, fora de casa, até os acréscimos, mas um gol meio de Apodi, meio contra do zagueiro Fabrício Bruno.
Fisicamente, ao menos contra o Inter pela Copa do Brasil, o Cruzeiro deixou a desejar. Correu bastante no primeiro tempo daquela partida de ida das semifinais, mas, no segundo tempo, pareceu exausto, a ponto de não conseguir conter o time de Odair. Com a pressão de fugir da zona de rebaixamento, os titulares entraram em campo contra o Vasco no domingo à noite. Isso pode jogar a favor do Inter.
Além disso, analistas detectam que a mudança de estilo ainda demorará para ser assimilada. Por isso, mesmo que atuem juntos há bastante tempo e tenham a experiência dos títulos, o time pode sofrer com desentrosamento.
COMO FOI DESDE O JOGO DE IDA
As mudanças no Cruzeiro iniciaram-se ainda no vestiário do Mineirão, em 4 de agosto. Alguns minutos depois da derrota para o Inter, apareceram na sala de entrevistas o técnico Mano Menezes, o diretor de futebol Marcelo Djian e o gerente Marcone Barbosa para anunciar a saída do treinador.
Enquanto buscava o substituto — e nomes como Dorival Júnior, Adilson Batista e Roger Machado foram especulados — quatro dias depois de perder para os colorados, o time entrou em campo em Florianópolis, para enfrentar o Avaí, comandado por Ricardo Resende, auxiliar do clube. A partida terminou empatada em 2 a 2, com um gol de Sassá nos acréscimos.
No mesmo domingo, o Fortaleza anunciou que Rogério Ceni estava deixando o clube para assumir o time mineiro. Ídolo da torcida cearense como treinador e são-paulina como jogador, o ex-goleiro via, principalmente na Copa do Brasil, o principal argumento para trocar de ares.
Com o novo treinador, o time voltou a vencer já na estreia. Contra o Santos, fez 2 a 0, gols de Fred e Thiago Neves. O adversário teve um jogador expulso no primeiro minuto da partida. E Ceni não perdeu tempo, trocou Egídio por Fred já aos 25 minutos. A segunda partida do técnico foi diante do CSA, há uma semana. Fred abriu o placar aos 11 minutos, mas um gol de Apodi, com ajuda de Fabrício Bruno (contra), nos acréscimos, deu a igualdade aos donos da casa.


