
Há 10 anos, uma reportagem de Zero Hora, publicada em fevereiro de 2012, mostrava que a frota de veículos no Rio Grande do Sul crescia 10 vezes mais do que a população do Estado. Uma década depois, o ritmo caiu, mas ainda é quase sete vezes maior. A frota de veículos aumentou 45,2%, enquanto a população gaúcha teve incremento 6,83% de lá para cá. A relação é feita a partir do cruzamento de dados do IBGE e do Detran-RS.
De 2011 a 2021, a frota no Rio Grande do Sul passou de 5 milhões para 7,3 milhões de veículos, enquanto a população estimada nesses 10 anos passou de 10,7 milhões para 11,4 milhões de pessoas. Atualmente, significa que há 1,56 pessoa por veículo no Estado.

Na década anterior, de 2001 a 2011, a frota avançou 56,67% — de 3.211.739 para 5.031.931 veículos em circulação —, contra crescimento de apenas 5,02% no número de habitantes — de 10.181.749 para 10.693.929 de pessoas.
Segundo especialistas, a tendência é de que a relação continue diminuindo pelos próximos anos, por vários motivos. Mudança de comportamento, perda de poder aquisitivo, mudanças na política econômica e menor oferta de carros populares são fatores que entram na conta.
Do particular para o compartilhamento
Para o engenheiro Luiz Afonso Senna, especialista em transportes, até a década de 2000 havia um certo culto pelo automóvel, que com o passar dos anos deixou de ser prioridade. Ganhar carro ao completar 18 anos virou sonho "de antigamente".
A emissão de novas CNHs, por exemplo, caiu de 167.147, em 2011, para 119.837, em 2019 (pré-pandemia), e para 115.036, em 2021, segundo o Detran-RS. O que não quer dizer, no entanto, que as pessoas deixaram de utilizar veículos.
— Tem outras alternativas como os aplicativos e o próprio táxi. O sujeito não tem um carro próprio, mas tem vários carros à disposição, e não um só. Significa que as pessoas podem até não ter carro, mas continuam utilizando o carro e talvez até mais intensamente do que se elas tivessem a propriedade de um veículo — avalia Senna.
Tendência mundial, a economia do compartilhamento levou a uma ideia de não necessariamente possuir coisas, mas contratá-las como serviços, explica o professor do Departamento de Urbanismo da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Júlio Celso Vargas. Foi nesse movimento que os aplicativos de transporte pegaram carona.
Assim, ainda que haja um consumo menor de veículos particulares, há um crescimento das frotas operadas por aplicativos ou por empresas que começam cada vez mais a ter as próprias caravanas. Essa combinação é o que faz com que ainda haja crescimento, mesmo que menor do que antes.
Incentivo menor
Vargas também cita um fator econômico que contribuiu para a diminuição no crescimento da frota nos últimos anos, que foi o fim de uma política de estímulo à compra e à fabricação de automóveis.
Em 2012, o governo federal facilitou o crédito e cortou a alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para aquisição de carros e motocicletas. Naquele ano, a relação chegou a ser de duas pessoas por veículo no Rio Grande do Sul.
Todos esses movimentos somados levaram também ao encarecimento dos automóveis nos últimos anos. Segundo o professor da UFRGS, há uma tendência global de que o carro se torne um bem, como era antigamente, de mais exclusividade, e para poucos.
— Já saiu do alcance de uma vasta classe média. Hoje, o carro mais barato é R$ 60 mil. É uma tendência global de que o automóvel fique mais caro. Sumiram os carros populares, basicamente só são vendidos para frotas, e toda a indústria está caminhando no sentido do SUV, da caminhonete, tudo grande, caro e exclusivo — diz Vargas.
Presidente do Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos (Sincodiv-RS/Fenabrave), Paulo Siqueira diz que, de fato, o Rio Grande do Sul caiu de posição no ranking de licenciamento nacional. Mas, para ele, uma das explicações fica na conta dos impostos.
Segundo o dirigente, a regulamentação do ICMS no sistema tributário vigente torna o setor menos competitivo no Estado em relação aos demais, situação que acredita ter sido superada com decreto publicado no ano passado. A principal mudança foi nas regras envolvendo a substituição tributária para as concessionárias, autorizando a utilização de excedentes de créditos, o que, indiretamente, diminui a carga sobre o setor.
— Há 10 anos, o RS ocupava a quinta posição no ranking de licenciamentos nacional. Hoje, ocupa a sétima. Houve uma perda significativa de competitividade do nosso setor no Estado, cuja participação que era de 5,8% em 2012, caiu para 4,1% em janeiro de 2022 — diz Siqueira.
O dirigente dá ainda outro panorama sobre o preço do "carro popular", hoje chamado no mercado de "carro de entrada". Na visão dele, considerando que alguns modelos podem ser encontrados abaixo de R$ 60 mil, os carros de hoje são mais baratos e melhores do que os populares de 30 anos atrás, levando-se em consideração a tecnologia embarcada de air bag, freio ABS, direção hidráulica, injeção eletrônica, entre outros itens.
Ainda assim, a alta dos juros e a menor disponibilidade de renda pelos brasileiros vêm impactando as vendas. Em janeiro, a queda na comercialização de veículos no país foi de 26,1% em relação a igual período do ano passado, conforme balanço da Fenabrave, associação que representa as montadoras.
Há ainda os fatores que impactaram a produção de veículos, não só no Brasil, mas mundialmente, a partir da pandemia. A falta de insumos e componentes, em especial de semicondutores, e os fechamentos das fábricas reduziram a produção e a oferta de carros. A estimativa do setor é de que a produção seja normalizada apenas no segundo semestre de 2022.
Transporte público
Outro fator que leva ao crescimento da frota é a situação do transporte coletivo nas cidades, que vem perdendo demanda também para outros meios como a bicicleta. As pessoas estão deixando de andar de ônibus, fato que se agravou ainda mais com a pandemia de covid-19.
— Mesmo nas capitais, como Porto Alegre, o transporte público não consegue atender plenamente, até pela inflexibilidade que ele tem e uma série de questões que fazem com que deixe de ser atraente. E aqui no Brasil o transporte é muito estigmatizado — diz Sena.
Apesar da crise que enfrenta por redução de passageiros e por sucateamento em muitas cidades do país, o transporte coletivo segue com demanda, avalia Vargas:
— Com o multimodal com muita oferta, em tese, poderíamos achar que não precisa mais do transporte coletivo. Mas quando olhamos com atenção e saímos da nossa bolha, vemos que o transporte coletivo é o transporte de massa por excelência. Não tem como fazer com que os trabalhadores das periferias, as pessoas que moram na região metropolitana, os empregados que têm de ir todo o dia para o seu trabalho, façam isso todo dia de Uber.



