
Em vez de amigos e amigas, amigues. No lugar de alunos e alunas, alunes. O morfema -e começou a ser adaptado às palavras pela comunidade LGBT+ para se dirigir a pessoas sem olhar para os gêneros masculino e feminino. Essa proposta poderá ser conferida nos diálogos de Todxs Nós, série brasileira que estreia neste domingo (22) na HBO com o desafio de emplacar a chamada linguagem neutra de gênero na TV - algo inédito em produções no país.
Criada por Vera Egito, Heitor Dhalia e Daniel Ribeiro, a comédia dramática irá falar sobre juventude, amizade, inclusão e diversidade através do olhar de Rafa, vivida pela jovem atriz Clara Gallo. Ela decide morar na capital São Paulo com Vini (Kelner Macêdo), que é seu primo e divide apartamento com a melhor amiga, Maia (Julianna Gerais).
Logo de cara, Rafa se apresenta como pansexual e não-binárie (confira, no pé da matéria, o significado das expressões), afirmando que não se identifica com os gêneros masculino ou feminino — a personagem explica, por exemplo, que é prime de Vini, e não prima.
— Quando falamos de juventude, que essa era a ideia, é inevitável não tocar no assunto de gênero e sexualidade, de raça, porque essa turma trouxe isso à tona no debate. Eu diria que o guarda-chuva da série é mais a nova geração, a juventude, do que exatamente LGBT — disse Vera Egito, uma das criadoras da série, em uma série de entrevistas que GaúchaZH fez com o elenco e a equipe da produção.
Uma aula de diversidade
Para adaptar a neutralidade nos diálogos, a equipe da série recebeu uma aula com especialistas na nova linguagem em uma espécie de consultoria. Foi necessário também uma trabalho minucioso para que a linguagem neutra também estivesse presente nas traduções da série para o inglês e para o espanhol.
— A língua portuguesa define gênero para tudo, é uma língua que tem muito essa construção. Então mudar os gêneros masculino e feminino para o neutro é um grande desafio, foi um desafio para todo mundo. Mas é uma coisa que, conforme você vai tentando, testando, e às vezes você erra, você vai conseguindo acertar e naturalizar — contou Clara Gallo, uma das protagonistas.
Todxs Nós também promete ensinar o público sobre os termos LGBT+ e sobre a linguagem da diversidade.
— O primeiro episódio é um episódio bem didático. A gente chega em um lugar de proposição de uma nova linguagem, é uma grande revolução linguística também. Para a gente poder também acompanhar esse processo de mudança não é fácil. Mas o primeiro episódio deixa tudo bem colocado, como as siglas, por exemplo — explicou o ator Kelner Macêdo.

Se a diversidade será vista nas telinhas, atrás das câmeras também há a presença de gays, lésbicas e transsexuais — uma situação tratada com normalidade pelos criadores de Todxs Nós.
— Se você coloca a diversidade no topo, ela vai crescendo e vai contaminando tudo na série. Equipe, elenco, tudo ali tem uma diversidade porque nós estamos ali pensando nisso, chamamos amigos e contamos histórias de pessoas que a gente conhece — disse o também criador do seriado Daniel Ribeiro.
— Foi uma experiência de abrir muitos horizontes, de entender outras perspectivas de mundo. Apesar de eu saber de pessoas não-binárias, eu nunca tinha me aprofundado no assunto. Tem pessoas, no elenco, que são não-binárias e isso acrescentou muito para a gente, porque estávamos ali com aquelas pessoas, ouvindo elas, não só tirando conclusões pela nossa perspectiva de mundo — analisou a atriz Julianna Gerais
Glossário da diversidade
GaúchaZH montou um pequeno glossário com o significado dos termos e expressões citados na matéria:
Linguagem neutra de gênero: para promover uma comunicação mais inclusiva e respeitosa, a linguagem neutra derruba os gêneros masculino e feminino das palavras ao substituir os morfemas -o e -a por -e. A neutralidade é usada para se referir a pessoas e suas inúmeras possibilidades de gênero e orientação sexual.
Uso do "x": presente no nome da própria série, o "x" no lugar das letras "a" e "o" também é uma tentativa de se referir a pessoas que não se identificam com os gêneros masculino e feminino. Por ser difícil de falar e até de escrever, o estilo está caindo em desuso.
Panssexual: orientação sexual, assim como a hétero ou a homossexualidade. O prefixo pan vem do grego e se traduz como “tudo”. Significa que as pessoas pansexuais podem desenvolver atração física, amor e desejo sexual por outras pessoas, independente de sua identidade de gênero (percepção que uma pessoa tem de si como sendo do gênero masculino, feminino ou de alguma combinação dos dois, independente de sexo biológico) ou sexo biológico (características biológicas que a pessoa tem ao nascer; podem incluir cromossomos, genitália e composição hormonal, entre outros). A pansexualidade é uma orientação que rejeita especificamente a noção de dois gêneros e até de orientação sexual específica.
Não-binário: quando a identidade de gênero ou expressão de gênero (como a pessoa se manifesta publicamente, como nome, vestimenta, comportamentos; nem sempre corresponde ao sexo biológico) de uma pessoa não está limitada ao masculino ou ao feminino. Aqui, a pessoa pode sentir que é diferente dos dois pólos ou que está em algum lugar entre mulher e homem.
Fonte: Manual de Comunicação LGBTI+. Elaborado em 2018 pela Aliança Nacional LGBTI e GayLatino.
Todxs Nós
- Oito episódios de 30 minutos cada
- Estreia domingo (22) às 23h, na HBO
- Episódios também estarão disponíveis na HBO Go, streaming do canal


