
Luzes se apagam. Fim dos trailers, começa o filme. Don Corleone acaricia o gato e fala com um agente funerário. Em meio à penumbra da sala escura, uma pequena tela luminosa na plateia se impõe ao ecrã. É alguém respondendo a uma mensagem no WhatsApp.
O longa avança, Darth Vader revela que é pai de Luke Skywalker, mas uma luz se torna o ponto focal da sala – é alguém verificando o feed do Instagram. Triunfante, Rocky Balboa sobe correndo as escadarias do Museu de Arte da Filadélfia ao som de Gonna Fly Now, mas é ofuscado por alguém que resolve ouvir um áudio. E responder.
Jack congela no meio do oceano enquanto Rose está em cima de uma porta em que caberiam os dois, e ele a faz prometer que só morrerá “bem velhinha” em uma “cama quentinha”, no exato momento em que uma pessoa abre o TikTok para ver Virgínia dançando com Zé Felipe.
Nos últimos anos, o uso indevido de celular nas salas de cinema se intensificou, como estimam frequentadores, exibidores e especialistas. Basta ir a uma sessão para comprovar: desde usos mais inocentes, como quem acessa brevemente o aparelho para dar aquela espiadinha ou quem tira uma foto no começo do filme, àqueles que provocam incômodos – pense em alguém rodando vídeos, falando no aparelho ou inspecionando as redes sociais, enfim, emitindo aquele brilho de tela que desvia a atenção de quem está em volta.
O problema já virou alvo de leis municipais e estaduais antes mesmo da era dos smartphones: em Minas Gerais, é proibido conversar por telefone móvel nos cinemas desde 2002. Agora, tramita na Assembleia Legislativa mineira um Projeto de Lei que amplia a proibição não só para as salas de exibição, mas também para escolas, teatros, igrejas, salas de aula e bibliotecas. Em Salvador (BA), em 2011, foi aprovada uma lei que proíbe os aparelhos em cinemas, espetáculos e bibliotecas da capital baiana.
O uso de celular nos cinemas já proporcionou discussões, brigas e até homicídios. Em 2014, para exemplificar, um americano de 71 anos chamado Curtis Reeves matou outro homem em Wesley Chapel, cerca de 30km de Tampa, na Flórida. A vítima, Chad Oulson, 43, estava enviando mensagens e fazendo barulho. Os disparos teriam acontecido ainda durante os trailers. No último ano, viralizou uma briga entre duas mulheres durante uma sessão de Barbie, em São Paulo. Segundo uma das envolvidas, uma criança falava muito e via vídeos em um celular, em volume alto. A partir daí, a confusão foi escalonando.
Aliás, 2023 ficou marcado pelo “Barbenheimer” – quando os blockbusters Barbie e Oppenheimer estrearam juntos nos cinemas –, momento de acúmulo de relatos de uso desenfreado de celulares. Um caso que repercutiu nas redes sociais foi o da influenciadora Nathalia Valente: ela compareceu a uma sessão de Barbie, chegando 40 minutos atrasada, filmando a si mesma com flash durante a exibição e reclamando, ao final, que não entendeu “a mensagem do filme”.
Entre o público, o hábito é percebido não só nos shoppings. A professora de Geografia Talita Fernandes costuma ir ao cinema três vezes por semana – com preferência para os flmes exibidos na Cinemateca Capitólio, no CineBancários e na Cinemateca Paulo Amorim. Natural de Fortaleza (CE), mas vivendo em Porto Alegre, ela recorda da sessão especial de 20 anos de O Homem que Copiava, na Capitólio, com presença do diretor Jorge Furtado, em que um espectador sacou o celular, gravou vídeo, editou, postou e ficou verificando se alguém reagiria.
– Me parece que há uma ansiedade generalizada em mostrar o que se está fazendo na hora – reflete Talita. – Tem que tirar uma foto da tela e mostrar que tu estás na Capitólio, vendo tal filme. Às vezes, se mexe no celular sem objetivo. A pessoa fica checando se alguém interagiu com stories, chamando alguém para conversar na hora, sem estar resolvendo alguma urgência.
Para Talita, o problema vai além da luz do aparelho. Ela avalia o ato como egoísmo ou falta de noção, em que o espectador nem pensa se está atrapalhando os outros.
Pesquisador, presidente da Associação dos Críticos de Cinema do RS (Accirs) e coordenador adjunto do Colegiado Setorial do Audiovisual, Danilo Fantinel pondera que hoje até entende por que esse costume acontece, já que o smartphone está tão integrado ao cotidiano que fica difícil de se desvincular dele. Mesmo assim, já solicitou a outras pessoas para desligar o celular quando estão em sua frente nas sessões. Para ele, há uma cadeia de desrespeito quando alguém acessa o smartphone durante a exibição: falta consideração com os outros e com o filme, que exige atenção.
– A caixa preta do cinema fica permeada pela luminosidade da tela do celular, que nos leva para fora do filme. Além de ser uma desconexão da pessoa com o que está sendo exibido, é também uma hiperconexão com o mundo exterior. E a pessoa que está no celular pagou ingresso – observa Fantinel.
O crítico crê que o costume esteja tão integrado à sociedade que as pessoas nem se importam mais com o uso do celular na sala, à exceção dos cinéfilos mais dedicados.
“100% inevitável”
Sócia-proprietária da Cult Cinemas, que mantém salas em Ijuí, Alegrete e Porto Alegre (Cine Victoria), Cristiane Brandolt trabalha no ramo desde 2017 e corrobora Fantinel. Ela aponta que, em cinema de shopping ou do Interior, com maior presença de público adolescente, é comum que haja alguém usando o smartphone. Tanto que, de acordo com Cristiane, não há reclamação sobre celular em seus cinemas – só de conversas durante o filme:
– Acho que o público se acostumou. Só reclama em caso de exageros, se alguém atender o celular na sala. E olha que a gente faz de tudo, fica monitorando, tem os avisos. Mas chega a um ponto… Acho que, hoje, é 100% inevitável.
Cristiane alega que os atendentes tentam falar com tranquilidade com as pessoas, caso seja necessário, mas não é possível tomar uma atitude radical. Tampouco se pode deixar um funcionário na sala vigiando a sessão, pois o cinema tem gastos altos e, como ela realça, não se pode ter funcionário para tudo.
– Se ele só pegou o aparelho e largou, tudo bem. Mas se a pessoa está ali, de papo, aí não. Isso não pode – sublinha. – É complicado expulsar alguém da sala, só em casos extremos. Temos que contar com o bom senso das pessoas.
Cada vez mais, as pessoas não conseguem se desligar do mundo, ficar uma hora e meia sem pegar o celular. Talvez seja um reflexo da pandemia e dos streamings, com todo mundo mais acostumado a ver filmes em casa.
DANIELA MAZZILLI
Diretora da Cinemateca Capitólio
Hormar Castello, sócio-diretor do GNC Cinemas, ressalta que a rede traz recomendações sobre o uso de celular na entrada das salas e em vídeo exibido antes de começar o filme. Se alguém é visto fazendo uso, a orientação é que seja pedido gentilmente que a pessoa pare.
– Temos algumas rondas de atendentes durante as sessões. Uma das coisas que são observadas é isso (smartphone sendo utilizado), o que tem acontecido com frequência – lamenta Castello. – Procuramos com todo jeito e cuidado explicar que isso atrapalha, até com certo carinho, porque são nossos espectadores. Outro dia você pode estar do outro lado, sendo atrapalhado.
Para a diretora da Cinemateca Capitólio e coordenadora de Cinema e Audiovisual da Secretaria Municipal de Cultura, Daniela Mazzilli, o uso excessivo de celular é notado desde o retorno da pandemia. Ela atesta que a experiência do audiovisual sem interferências é muito importante, tanto que, por isso, não é possível nem entrar com alimento na Capitólio – o objetivo é que o público tenha uma imersão na obra.
Uma vinheta é exibida antes de cada sessão para advertir sobre o uso do celular. Daniela pondera que também há o próprio controle social, ou seja, as próprias pessoas em volta reclamarem. Ela assegura que, como há esse aviso e o público da Capitólio procura uma experiência de cinema diferenciada, as pessoas ficam mais inibidas. Contudo, as ocorrências existem.
– O que notamos é que, cada vez mais, as pessoas não conseguem se desligar do mundo, ficar uma hora e meia sem pegar o celular. Talvez seja um reflexo da pandemia e dos streamings, com todo mundo mais acostumado a ver filmes em casa, onde se tem essa liberdade de pegar o celular a qualquer hora – avalia.
Recorde mundial
Hoje, tudo é intermediado pelo smartphone – movimentação financeira, transporte, trabalho, entretenimento, notícias, relacionamentos etc. Uma vez entrosado com o dispositivo, é difícil não deixar de verificá-lo. Especialmente no Brasil: conforme pesquisa do site de tecnologia ElectronicsHub divulgada em abril de 2023, os brasileiros só perdem para a África do Sul entre os países que passam mais tempo com o celular em mãos, gastando nove horas e 32 minutos por dia olhando para a tela. A média mundial é de seis horas e 37 minutos.
Bolívar Filho, mestre e doutorando em Psicologia pela PUCRS, aponta que um dos motivos que ajudam a explicar esse comportamento de frequência de checagem do celular, que interfere em experiências coletivas como o cinema, seria o FOMO (“fear of missing out”, ou medo de ficar por fora, de perder algo). O psicólogo acrescenta que esse receio agrega sintomas de ansiedade, de preocupação, um mal-estar e desconforto em não estar vendo o que acontece ali. Um receio de não estar pertencendo a algo.
Outra hipótese, sublinha Bolívar, é a ideia de gratificação: toda vez que acessamos o aparelho para ver uma notícia, um meme ou dar risada, ganhamos uma leve recompensa.
– As pessoas acabam buscando para sentir essa sensação de prazer a curto prazo. Querendo ou não, as redes sociais acabam ocupando esse espaço com pequenas doses de prazer diário – explica o psicólogo.
Bolívar frisa também que a paciência das pessoas pode estar diminuindo por conta das novas formas de mídias. Há uma dificuldade na espera. Se antes a comunicação era mais lenta – como, por exemplo, por meio de uma carta –, hoje se faz videochamada com alguém que está em outro país. Outra perspectiva, completa Bolívar, é a capacidade que temos de esperar.
– Temos na nossa mão tudo o que a gente quiser. Quero saber como preparar um bolo, a receita aparece na hora. Esse processo de esperar entre a demanda interna que surge e o momento em que se tem aquela resposta também faz com que as pessoas tenham dificuldade de ficar longe do celular e não consigam esperar duas ou três horas de filme.
Estamos tão dependentes das redes sociais, que acaba diminuindo nossa atenção a atividades que seriam de um contato humano e de sentimento mais profundo, como as artes.
ALINE RESTANO
Psicóloga
A psicóloga Aline Restano é uma das autoras do livro Crianças Bem Conectadas – ao lado de Daniel Spritzer, Juliana Potter, Bernardo Bueno e Laura Moreira – e é vice-coordenadora do Grupo de Estudos em Adições Tecnológicas (GEAT). Ela conta que, no ano passado, foi ver Barbie com sua filha. À sua frente, um pai também levou a filha, mas passou a sessão inteira com fones, oscilando entre ver um jogo de futebol e checar stories. Aline ficou reflexiva: que recado se passa quando acompanhamos alguém para ver um filme, mas não mantemos a atenção? Que nossa necessidade individual é sempre superior a qualquer outra compartilhada.
– A criança está tendo um programa superimportante, que depois poderíamos discutir com ela e gerar uma série de diálogos de aproximação afetiva entre pais e filhos. Mas se você assistiu recortado, isso o impede de ter essas trocas. E ainda passa um exemplo de que para você é impossível deixar o seu desejo e a sua necessidade para depois – analisa a psicóloga.
Aline complementa que, se você mostrar para o filho que o desejo está anterior a tudo, vai ser muito difícil que a criança não reproduza esse exemplo também. Ela pontua que o celular e as redes sociais geram uma ideia falsa de atender aos anseios instantaneamente – tudo para ter a sensação de ter menos uma tarefa. Entretanto, sempre haverá novas listas e novas mensagens a serem respondidas. Esse momento de ficar sem ter o que fazer não chega.
– Precisamos ter mais consciência desse uso, de como funcionam as redes sociais e o quanto querem nos prender ali. Quanto tempo dedicar e o que necessitamos resolver e encerrar – adverte Aline. – E termos intenção de não acionar o celular em momentos importantes para a gente, que envolvem experiência compartilhada, como numa experiência artística, vendo um filme, uma exposição, lendo um livro etc.
A psicóloga alerta para a dificuldade que as pessoas têm em manter a atenção por muito tempo. Para alguns, pode ser difícil ler um livro ou assistir a um filme inteiro sem ser interrompido. Estamos muito dependentes da dopamina liberada pela rede social, então, por isso, o acesso frequente ao celular:
– Estamos tão dependentes das redes sociais, que acaba diminuindo nossa atenção a atividades que seriam de um contato humano e de sentimento mais profundo, como as artes. Se você assiste a um filme do início ao fim, aberto às sensações que aquilo transmite, sua experiência emocional vai ser mais sensibilizante e mobilizadora do que seria se você ficasse olhando o smartphone de 10 em 10 minutos.
Enquanto isso, na sessão de cinema, o E.T. faz a bicicleta voar em noite de lua cheia, mas alguém vai cortar o momento com o brilho do celular, pois está reagindo com emoji de foguinho a um story do Instagram.





