
“Quem foi Rainha nunca perde a majestade”, diz o provérbio popular, e, pelo menos lá em casa, o ditado continua valendo. Talvez não exista soberania mais efêmera do que um mandato de Rainha do Carnaval, mas, nem por isso, a experiência deixa de ser marcante – pelo menos para a eleita. Hoje não sei, mas, no passado, todos os clubes sociais, da Capital ou do Interior, promoviam os seus bailes de Carnaval nos quais sempre havia um concurso que escolhia a rainha daquele ano.

Aliás, algumas cidades do nosso Estado tinham fama de possuir as melhores festas e recebiam visitantes de municípios vizinhos que, por nada desse mundo, deixavam de participar. Era comum jovens que viviam e estudavam fora da sua cidade natal retornarem em seu período de férias para visitar parentes e ir, com grande expectativa depositada, nas folias momescas que proporcionavam reencontros com amigos e amores antigos.
No final da década de 1960 e início dos anos de 1970, Loraine, que está casada comigo há mais de 40 anos, era o exemplo típico do que estou falando. A guria bonita voltava para Santo Ângelo, onde nasceu, para “causar” nas noites carnavalescas do Clube 28 de Maio ou do Palácio Metálico, nova sede do Clube Gaúcho, inaugurada em 1967. Invariavelmente ostentando fantasias inéditas, confeccionadas especialmente para cada ocasião, ela poderia exibir um traje inspirado no antigo Egito ou em outro motivo qualquer.
Em uma dessas oportunidades, não deu outra: consagrou-se rainha. Foi naquele “inesquecível” ano do final dos 60 que, agora, ela não sabe precisar qual exatamente. Hoje, quase aos 70 anos, avó do Ricardo (dois anos), e prestes a se tornar também avó da Helena, que nascerá no início de março, Dona Loraine (e seus olhos verdes), continua contemplando a vida com alegria e saúde. Se não lembra a memorável data, certamente, não é por estar acometida do terrível Alzheimer, mas apenas porque os valores mudam e importante mesmo são outras coisas. Casado com a ex-rainha, nunca fui rei, embora meu atual estado físico me credencie para, quem sabe, disputar uma vaga de Rei Momo.



